Por Ney Anderson

O Angústia Criadora devidamente credenciado pela assessoria de imprensa da Flip.

Começo esse texto dizendo que falar de Paraty durante a 23ª Festa Literária Internacional de Paraty – Flip (que homenageou Paulo Leminski) é algo que beira o impossível, pois nunca será uma verdade absoluta. E existem verdades absolutas? Enfim. Falar que a Flip é uma festa, emulando o título do romance de Hemingway, é cair no maior clichê de todos. Pior que é justamente isso mesmo. É uma festa. Com todas as alegrias possíveis. Complicado sair do lugar comum. Sobretudo, quando o olhar parte de alguém (eu) que foi pela primeira vez nesse evento literário tão presente no calendário cultural brasileiro.

Um jornalista, que também é escritor e crítico literário, nunca ter ido à Festa Literária Internacional de Paraty soava como um defeito. Até para mim mesmo. Vivenciar essa atmosfera foi, realmente, uma experiência e tanto. Agora posso dizer que tenho o carimbo da Flip na minha história (risos). E ainda com a ressalva maravilhosa em ter lançado o meu novo livro, Apocalipse Todo Dia (Ed. Patuá), lá, com tantas pessoas queridas prestigiando. Pareceu, de fato, que isso ganhou um peso diferente. Pode ser coisa da minha cabeça, mas foi o que notei. Foram seis dias intensos. Cheguei na terça (um dia antes da abertura) e fui embora na segunda.

Falar para as pessoas que nunca foram ao evento, e que me perguntavam pelas redes sociais como era estar participando, não foi (não é) tarefa das mais fáceis. Faltam palavras para descrever o que é tudo aquilo. Em resumo, a Flip é uma imersão total no universo literário, em todos os aspectos. A cadeia do livro está toda presente. É diferente das bienais, onde o foco é, em maior parte, na venda dos livros. A Flip tem uma aura particular, pois o foco é na venda “do escritor”. É um enorme networking para autores, leitores e livreiros. É o lugar onde muitos escritores das mesas principais são tratados como verdadeiros rockstar’s. 

As filas de Valter Hugo Mãe e Rosa Montero (da programação oficial), por exemplo, se estenderam por horas. Mas também pude ver filas imensas para o autógrafo e debates de escritores que não estavam na programação oficial, mas nas casas parceiras. Caso de Raphael Montes, Itamar Vieira Júnior, Conceição Evaristo, Tati Bernardi, Djamila Ribeiro, Ana Maria Gonçalves, Ruy Castro, Afonso Cruz, Jean Wyllys, Eliana Alves Cruz, Jeferson Tenório, entre muitos outros. Fiquei impressionado. Imagine só o escritor andando e uma pequena multidão atrás pedindo fotos, autógrafos, gente emocionada dizendo que tal livro mudou a sua vida etc etc etc

Tudo isso com as pessoas se equilibrando nas pedras traiçoeiras do centro histórico, carregando ecobags, mochilas recheadas de livros e os mapas com os endereços das casas onde estavam tendo debates e lançamentos. O Google Maps reinou. Eu mesmo usei e abusei do recurso. 

De acordo com o balanço da Flip, essa edição contou com 35 casas parceiras. Além disso, a programação principal contou com vinte mesas, mais a mesa extra com Valter Hugo. Foram 36 autores e autoras, entre nomes emergentes e vozes veteranas, brasileiros e estrangeiros. Entre os destaques dos paineis principais, Arnaldo Antunes, Gregorio Duvivier, Ilan Pappe, Marina Silva, Nei Lopes, Rosa Montero e Marina Silva. Todos esses debates podem ser conferidos no Youtube. Além das mesas do Programa Principal, a programação contou com a Flip+, que incluiu a Casa da Cultura, Cinema da Praça, Casa Flip+Motiva, Auditório da Praça e Auditório do Areal, com programações gratuitas que apresentaram propostas de integração e ampliação dos olhares que compõem os debates. E ainda o Programa Educativo, com  Flipinha, FlipZona e FlipEduca. Esse polo reuniu quase 9 mil pessoas. No geral, foi contabilizado oficialmente um público de 34 mil pessoas circulando durante os cinco dias da Flip e cerca de 16 mil livros vendidos, apenas na livraria oficial.

No entanto, no centro histórico de Paraty, praticamente todas as casas são ocupadas pela programação paralela. É aí que a festa pulsa de verdade. Quando eu estava me programando para ir, fiz uma agenda dos debates que eu queria ver e separei alguns livros para determinados autores autografarem. Uma colega, a escritora Alê Motta, sabendo disso, falou: “Ney, essa sua programação vai cair quando você pisar na Flip. É uma loucura. Muita coisa acontecendo ao mesmo tempo”. E foi justamente isso o que aconteceu….rsrs

Além da programação principal no auditório da matriz, eu fiz uma conta de cabeça de uns outros cinquenta locais com eventos acontecendo simultaneamente. Foi, de fato, uma loucura tentar acompanhar tantas coisas. Da programação principal, assisti quatro painéis: Arnaldo Antunes, Giovana Madalosso com Liv Strömquist, Rosa Montero e Valter Hugo Mãe. Gostei de todas. Importante frisar que todos os painéis estavam cheios. O auditório comportava umas mil pessoas. Fora a área coberta (gratuita) do lado de fora.

Em cada esquina que eu virava, recebia um panfleto com a programação de determinado espaço.  Aí eu fui assistindo bastante debates, conhecendo novos autores, fazendo amigos e contatos. A jornalista Tatiany Leite, da PublishNews, reuniu em uma planilha TODA a programação da Flip. Ela contabilizou mais de 620 painéis. Sem contar as festas das editoras após os eventos. Consegui ir para algumas. Mas as ruas ficavam sempre tomadas com saraus, música tocando, vendedores de artesanato, livro independente, cantores e um frio de torar. Muito frio mesmo. Algo em torno de 14/15º todas as noites.

Em muitas ocasiões, eu ficava alguns minutos nos debates, depois ia ver outras mesas e manifestações culturais, aproveitava também para conferir o acervo das diversas livrarias espalhadas pelo centro, sobretudo das editoras pequenas e médias. Muita coisa boa. Obras maravilhosas do ponto de vista gráfico. Li pedaços de vários livros; Gostei do que li. Anotei diversos títulos e comprei alguns exemplares. Nesse percurso, durante os quatro dias, encontrei bastante gente que eu conheço há anos, abracei muitos queridos, recebi carinho de autores que eu sempre resenhei e nunca tinha encontrado pessoalmente, fui entrevistado duas vezes, dei autógrafos após o meu lançamento e entrevistei vários autores. Fiz ainda uma cobertura quase em tempo real no meu perfil no Instagram.

Não dá para dizer apenas uma coisa que eu curti na festa. Talvez a principal delas tenha sido realmente os encontros. Esse é o grande barato. Muita conversa boa, troca de ideias e admiração mútua entre todos. O centro histórico de Paraty se transforma totalmente. Todos os que estão ali fazem parte da mesma comunhão. São da religião literatura. Comungam dos mesmos mistérios transcendentais que os livros provocam. Em vários momentos foi até difícil andar, devido à quantidade de gente para lá e pra cá. Eu mesmo andei cerca de 12/13km por dia. O smartwatch marcou esse dado. E olha que o centro não é tão grande assim. Mas não é fácil ficar parado. Eu via o querido amigo e escritor Marcelino Freire (que assinou a orelha do meu livro) o tempo inteiro saindo de uma casa e entrando em outra, para debates, saraus etc. Sempre exclamando: “êta porra. Onde fica tal lugar? Êta porra, vou para qual casa agora?”….kkkk. 

A impressão que tive ao estar na Flip foi de que o peso em participar desse evento é diferente. Parece que as pessoas respeitam mais. Principalmente quando você vai lançar um livro, mesmo no mar de lançamentos que acontecem sem parar. 

Um conselho que eu dou. Só vá com alguém com o mesmo objetivo que o seu. Eu fui trabalhar. O meu pensamento foi esse. Então, se foi para ficar preso em apenas um lugar ou rodar pouco, não adianta ir à Flip. Outra coisa bastante interessante que eu notei foi o reconhecimento das pessoas em relação ao meu trabalho no Angústia Criadora. Fui abordado por várias pessoas que me reconheceram, dizendo que seguiam o Instagram e acessavam o site constantemente.

Fiquei hospedado em um flat bem simpático, distante oitocentos metros do local do evento. Essa é uma dica importante, aliás, ficar hospedado próximo, para não ficar dependendo de táxi. Outra dica, é não levar tantos livros para os autores autografarem como eu levei. Primeiro, porque o peso se torna um incômodo. Segundo, porque você vai comprar, inevitavelmente, outros livros. A oferta é enorme. E eu ainda ganhei alguns. No entanto, um livro que eu levaria de todo o jeito foi A ridícula ideia de nunca mais te ver, da Rosa Montero. Sem dúvida nenhuma um dos melhores livros que eu li na vida. Dos mais emocionantes. O meu exemplar está todo rabiscado e eu queria muito receber a dedicatória dela.

Pegar o autógrafo da Rosa, aliás, foi bem complexo. Embora eu ficasse acompanhando as fotos dos amigos que tinham encontrado com a autora espanhola nas ruas de Paraty, eu não tive a mesma sorte. Consegui o nome da pousada que ela estava hospedada e fui lá umas três vezes tentando contato para entrevistá-la. Sem sucesso. No dia da palestra dela no auditório da matriz, tentei mais uma vez. Novamente disseram que ela não estava. Tudo mentira. Tive, então, a ideia de ficar esperando por ela na entrada do auditório. Alguns minutos depois, lá vem ela rodeada de assessores particulares e também da Flip. Deixei o livro fácil, o celular com a câmera ligada e os microfones conectados. Quando ela se aproximou, estendi o livro. Enquanto Rosa autografava eu fiz algumas perguntas. Ela só respondeu rapidamente uma: “A Flip é a festa da palavra. Da literatura”. Na pressa, ela me entregou o livro e entrou no auditório.

Foi então que percebi. A caneta que eu segurava não era a minha. Tinha sido a da Rosa Montero. Até tentei devolver, mas sem sucesso. Embora uma caneta bico de pena, tinteiro, era descartável. Depois vi que ela tinha uma coleção dessas canetas. Ufa. Deus me livre ficar com uma caneta valiosa financeiramente. Para mim, isso foi um pequeno prêmio. Uma lembrança de uma autora incrível. Vou guardar com carinho para o resto da vida. 

Outro autor que eu gosto, Valter Hugo Mãe, o último convidado da Flip desta edição, caminhava tranquilamente pelas pedras traiçoeiras de Paraty quando o abordei para uma entrevista. Foi incrível. A educação dele. A disponibilidade. A simpatia. Falou bastante, deu dicas de leitura, comentou sobre ter assistido por lá a adaptação para a Netflix do seu livro O filho de mil homens (que estou lendo e adorando). No final, ainda pousou segurando o meu livro.

A caneta da Rosa Montero

Muitos outros encontros do tipo aconteceram. De fato, foram seis dias de imersão literária. Onde pude ver de perto o trabalho de centenas de autores independentes, de muitas editoras competentes, de poetas e artistas da palavra. A Flip, muito mais do que a Disney do mundo do livro, é um carnaval da literatura. Talvez essa definição se aproxime um pouco mais dessa experiência. É um carnaval onde as letras pulsam ao som do movimento das ruas, dos muitos debates, das leituras, das dicas de livros, dos encontros com autores que admiramos.

Na abertura oficial da Flip, com o painel de Arnaldo Antunes

Sim. A Flip é cara e num local bastante longe. Eu, que fui do Recife, passei, literalmente, o dia inteiro para chegar em Paraty. Duas conexões de voos e ainda uma viagem de quase cinco horas de ônibus. Mas não achei, por si só, algo elitista de gente de nariz em pé. Muito pelo contrário. Vi muitas pessoas que juntaram uma grana para ir, se prepararam o ano inteiro, com a ânsia do conhecimento. Em querer encontrar determinado autor, ver as pequenas editoras e os seus catálogos de perto e estar inserido naquele microcosmo onde se respira literatura 24h por dia. Não é isso outro assunto.

É aí que fica a saudade quando a Flip acaba. Porque sabemos, todos nós, que iremos voltar para o universo que pouco lê, onde teimamos em continuar escrevendo porque gostamos e tentando encontrar novos leitores. Que bom seria se a Flip fosse, realmente, o espelho de um país leitor. Naqueles poucos dias juramos que esse é um fato incontestável. Até pegarmos o avião de volta para casa e percebemos que quase ninguém está lendo no voo e que a vida para nós, escritores, não é das mais fáceis. Que o livro não está na mesa dos brasileiros. Infelizmente. Mas, como somos especialistas em criar novos universos e pessoas (no qual chamamos de personagens), a gente vai criando também esperança. Pois, quem sabe um dia, a Flip não seja uma realidade palpável em nossa realidade.  

No fundo, no fundo, todos nós (escritores e leitores) temos essa esperança em nossos corações. Enquanto isso não acontece, seguimos lendo, escrevendo e sendo felizes por amarmos essa coisa mágica chamada literatura. 

Que o microcosmo da Flip seja fortalecido e expandido, que estoure a bolha de verdade para todo o país. A nossa grande utopia é essa. 

Sigamos com esse sonho.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Gabriela Toledo. Super assessora de comunicação da Flip
Meu editores. Pricila e Eduardo.
Humberto Conzo Júnior
Querido amigo Alex Andrade
Cadão Volpato
O jornalista Ubiratan Brasil
Gosto demais do português Afonso Cruz. Feliz demais por encontrá-lo
Simone Magno. Assessora da editora Record. Conheço há anos.
14º
Itamar Vieira Júnior. O escritor que mais vende livros da atualidade.
A entrada do flet onde fiquei hospedado
Lotação máxima para Rosa Montero
Grande jornalista e escritor Sérgio Tavares.
Nara Vidal. Querida amiga.
Os meus anfitriões
Ramon Nunes Mello. O cara que mais entende de Cazuza.
Bráulio Tavares. O escritor brasileiro que mais entende de ficção ciêntifica
Leônidas, das Edições Sesc. A pessoa que mais me ajudou com dicas de hospedagem e estadia na Flip.
Luigi. Grande amigo
Bruno Ribeiro. Esse é monstro da literatura brasileira
Ana Paula Hisayama. Sócia da editora Todavia
Gigante Conceição Evaristo
Raphael Montes
Ondjaki. Escritor angolano que admiro demais.
Sérgio Rodrigues
Sendo entrevistado por Chico Regueira, da Globo Rio.
Com o cantor Renato Teixeira. Ando devagar, porque já tive pressa……
Encontrei a Rosa (mas não consegui me aproximar mais) no outro dia. A caneta eu tinha deixado no flat. Para não perder…..rsrs
Mariana Salomão Carrara
Stefano Volp

 

Um bom cenário para escrever
A área externa, gratuita, também sempre super lotada
Nunca imaginei que eu iria entrevistar o Marcelo Tas

 

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