Por Ney Anderson

Em O Escutador (Ed. Impressões de Minas), Carlos Marcelo constrói um romance fascinante sobre os limites entre realidade, ficção e loucura. Seu protagonista, Ademir Lins, é uma figura ambígua. O personagem, aspirante a escritor, vai para Belo Horizonte por ser lá, na época em que se passa a história (nos anos 1950), a cidade dos escritores. Ademir consegue um emprego na editora Montanhesa justamente de escutador, profissional que ouve o que os autores da casa estavam produzindo. Sobretudo de obras best-sellers de banca de revista. Dessa forma, a editora saberia das novas ideias, caso ela não fossem desenvolvidas.

É aqui, no entanto, que a história começa a se misturar. O narrador é, ao mesmo tempo, autor, leitor e falsário. Transita entre o delírio e a criação literária. Enquanto é encarregado de acomphar o trabalho do escritor Aurélio Diniz, Ademir plagia escritores consagrados, como Murilo Rubião, forja narrativas, insere manuscritos e costura citações alheias até perder completamente a noção do que é invenção e do que é lembrança. A cada página, o leitor acompanha sua lenta dissolução, com o personagem internado em um hospício, assombrado por vozes e pela própria necessidade de escutar , e reescrever, o mundo.

Carlos Marcelo transforma o enredo em um engenhoso jogo literário. As notas de rodapé presentes na obra, escritas pela então editora da Montanhesa, Virgínia Lemos, pontuam o livro do início ao fim. São verdadeiras armadilhas narrativas: ora revelam plágios e empréstimos, ora ampliam o mistério, embaralhando a percepção de autoria. Não se sabe ao certo o que pertence a Ademir, o que foi tomado de outros escritores ou o que foi manipulado pelos “organizadores” da obra. Assim, o próprio livro se torna personagem. Uma espécie de espelho deformado onde texto, autor e leitor se confundem.

A edição gráfica, com sobrecapas (da fac-símile original), camadas e intervenções editoriais, reforça essa ambiguidade. Cada escolha estética parece comentar a própria ideia de montagem e falsificação, sugerindo que o romance poderia ser tanto uma descoberta arqueológica, um manuscrito perdido, quanto uma invenção deliberada. O resultado é um mosaico literário de fragmentos e colagens, em que as fronteiras entre o original e o apócrifo se tornam indistintas.

O clima de O Escutador é denso, quase noir. Um assassinato, inclusive, acontece. O suspense se constrói com precisão, sem pressa, mas com tensão crescente.

A cada capítulo, Ademir se fragmenta mais, e o leitor, cúmplice involuntário, mergulha junto nesse labirinto de vozes e duplas verdades. A narrativa se dobra sobre si mesma, misturando ensaio, crítica e ficção, até o ponto em que não se sabe mais quem escreve quem. É como se o romance, de um autor em desespero crescente, tentasse resistir ao próprio desaparecimento.

“Eles continuavam a me inquirir.
Ou paro de escrever, o que seria mais conveniente, ou arranjo um jeito de esconder estas notas.
Tarde demais.
Um dos loucos sumiu com o que eu havia escrito.
Entrei em desespero.
Se eu parar de alimentar este monólogo secreto, ficarei ainda pior do que já estou. É pelo fio de tinta que traço o contraste entre o que vejo e sou.”

No fim, não há conclusões. Em certo ponto, Ademir Lins simplesmente some, deixando rastros de dúvidas e pistas falsas. O leitor permanece cercado de incertezas: teria existido realmente esse autor? O Escutador seria o resgate de uma obra esquecida ou a invenção genial de Carlos Marcelo? A ausência de respostas é, talvez, o maior acerto do livro. A vertigem que o sustenta. Como diz Cristóvão Tezza, esse livro é uma “saborosa viagem literária.”

Carlos Marcelo realiza aqui uma proeza rara: faz da própria ideia de autoria o centro de uma trama envolvente e perturbadora. O Escutador é um romance sobre a escuta e o eco, sobre o desejo de criar e o medo de se perder no que se cria. Entre a ficção e a loucura, entre o plágio e a originalidade, entre o silêncio e a voz, o livro se ergue como um espelho quebrado da literatura. Cada estilhaço reflete, de modo brilhante e inquietante, o enigma da escrita.

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