
Por Ney Anderson
Se olharmos para a natureza, não é difícil percebermos que os ninhos são locais de proteção e aconchego. A mesma coisa acontece na relação entre os seres humanos. Pais e filhos, e a família em geral, estabelecem essa relação de confiança desde o primeiro instante de vida. Mas nem tudo são flores. O amor entre as espécies nem sempre é harmonioso e saudável. Não apenas entre parentes, mas na convivência com pessoas em maior ou menor grau de intimidade.
É partindo dessa ideia que os 15 contos presentes em O Ninho (Ed. Record) , de Bethânia Pires Amaro, são desenvolvidos. Obra vencedora do Prêmio Sesc de Literatura em 2023 e APCA, os contos da autora vão no cerne das relações humanas, mas pelo viés do caos e da degradação.
Já na abertura, o leitor tem a noção do que vai encontrar nas páginas seguintes. Aqui, a voz de um pai impondo uma série de regras ao filho é embalada entre a tentativa de amor e carinho, mas apenas como capa, pois a violência dita o andamento. A partir daí, algo se estabelece nos contos seguintes com o eco dessa relação flanando em todas as histórias.
No primeiro conto, “Leite de cacto”, acompanhamos uma mulher com a recém-nascida, às voltas com a própria amargura da maternidade. No conto “Nero”, um diálogo entre duas personagens revelam o horror do que está sendo contado. a relação na corda bamba, entre duas mulheres e uma criança adotada, com o envolvimento confuso entre as três. Muitas coisas se escondem por trás dessa história principal. Detalhes que podem passar despercebidos, mas que estão lá estabelecendo uma complexidade maior.
“Dos restos da minha mãe, a minha avó permaneceu somente comigo”, diz a narradora do conto “Rinha”. O jogo de frases nesse texto demonstra a amargura na relação das pessoas, desbotada pelos anos. Vidas que voltam a se cruzar, após alguns traumas. Ambientes parados no tempo, povoados por muitas lembranças e com o olhar potente residindo na mágoa que perdura dos escombros. São situações rudes, escritas por imagens bonitas e, ao mesmo tempo, tristes, de pessoas não amadas e com revelações totalmente inesperadas. “Sua mãe não te queria, Isabel, ela queria te abortar, se não fosse por mim você estaria morta, Isabel”, fala a avó demente que ficou presa ao passado de amarguras.
O conto “Espiral” é sobre a intimidade amorosa entre familiares. Já em “Iktsuarpok”, lemos a história de um pai abusador, de histórico bastante nebuloso. “Banquete”, é o conto com imagens fortes e de comentários ácidos. Em o “O fruto da árvore”, a narrativa é sobre a mãe álcoolatra. O texto aqui é de uma violência incontida, de raiva e desesperança. No conto “Cuco”, os detalhes estão nas ações e nos pensamentos dos personagens. “Cabo de guerra” mostra a relação conturbada entre um ex-casal durante a festa de aniversário do filho. O destaque aqui são os interessantes diálogos entrecruzados, enquanto o menino (o aniversariante) tem outra percepção da cena. Isso dá uma agilidade muito boa à trama, fazendo o texto se aproximar da vida, digamos, real.
No conto “Ovelha negra”, o leitor acompanha as consultas de uma moça com a terapeuta após a morte da mãe. Muitos traumas são revelados nessa terapia e também uma forte revolta. A personagem deste conto é uma jovem suicida, com lembranças da mãe também suicida.
“A causa” parte da mágoa da protagonista pelo pai moribundo, que é cuidado pela personagem, funcionária de uma empresa de controle animal do bairro. O estranho comportamento de uma cadela, aliás, é o ponto de conflito bastante peculiar nesse conto. Existe aqui um conflito muito bem trabalho, amparado numa rotina desgastante, dos cuidados da filha com o pai e a rotina dela em fiscalizar os cães.
“Em nome do pai”, o leitor acompanha duas mães que estão na estrada indo visitar os filhos presos. São mulheres resilientes, entre o inconformismo e a aceitação, julgadas pelos outros por conta dos erros dos filhos. São mães de porta de cadeia, contra tudo e contra todos. O texto entra no pensamento delas, com os dilemas das duas. A dúvida e o remorso. Tudo trabalhado harmonicamente. A autora traz para perto do leitor a história e sabe seduzir com as suas personagens.
“Areia” parte de uma tragédia. Mãe e filho estão na praia, em um momento de descontração. Quando, por uma distração, a mulher fica entretida na conversa de um desconhecido e acontece o inesperado. Ou então no lindo conto “A espera”, quando a mãe espera pela filha morta que irá servir o seu melhor café.
Todas as histórias seguem a partir dos traumas de infância. Existe um fio condutor que liga os contos, evidenciado nas epígrafes de cada um, remetendo ao texto de abertura. A autora distribui a ideia central da introdução em todas as narrativas, conectando-as pela mesma essência. É justamente isso o que dá a substância necessária às tramas, mostrando que as regras de infância parecem perdurar no tempo, sendo uma espécie de chaga à todos os habitantes desse ninho.
As histórias vão no limite das várias situações que se apresentam, como no conto da mulher que consegue o tão sonhado filho de uma maneira incomum. São textos que se vão se desenrolando e ganhando corpo página após página. Eles têm a substância dos melhores dramas familiares e humanos. O microcosmo da humanidade está todo aqui, com a lupa apontando de maneira consistente para cada uma das desgraças.
Os textos de O Ninho reproduzem o caos proposto, da degradação íntima, a partir de uma raiva incontida e silenciosa dos personagens, em muitos casos. Sempre na relação limite dessas figuras com o mundo ao redor. Como a mãe que se suicida, relegando o filho às piores memórias e uma angústia permanente.
A autora articula bem as histórias, unindo todas elas por uma linha consistente. Dizendo diretamente por meio das ações, sem floreios filosóficos. A ficção de Bethânia Pires Amaro tem a força no conjunto. Não que um conto dependa do outro, ou seja mais fraco lendo-os separadamente, mas a união da coletânea garante uma maior densidade coletiva.
São contos de uma rara, e doída, beleza.
