Por Ney Anderson

Ser um artista genial é para poucos. Produzir uma obra inteira genial é outra história. Mas, quando uma determinada obra atinge um nível alto de criatividade e sofisticação, não é incomum que as pessoas queiram mais e mais daquele elixir, da poção mágica que o artista alcançou com tanto suor e dedicação. Os trabalhos seguintes parecem sofrer o peso da sombra da grandiosa criação. Por conta disso, muitos preferiram não continuar. Pois, para eles, não tinham mais nada a falar.

Ou então pararam porque entenderam que continuar produzindo depois de uma grande criação só iria fazer deles tetos de vidro dos críticos raivosos, desmerecendo toda e qualquer tentativa de novo êxito. Porque, dificilmente, será tão incrível assim outra vez.

“O que eles querem é que eu fracasse”, disse certa vez Juan Rulfo, quando questionado das possíveis obras posteriores ao inacreditável “Pedro Páramo”, romance divisor de águas na literatura latino-americana. A mesma coisa o nosso Raduan Nassar. Para ficarmos apenas em dois expoentes.

Gabriel García Márquez, no entanto, não era desses autores que sentia a “maldição” do seu livro mais famoso: “Cem anos de solidão”. Até porque, outros grandes romances foram escritos por ele. “O amor nos tempos do cólera”, “A incrível história de Cândida Erêndira”, “Crônica de uma morte anunciada”, “Crônicas jornalísticas”, “Do amor e outros demônios”, “Doze contos peregrinos”, entre outros. Esses dois últimos, aliás, livros estilisticamente perfeitos (talvez os melhores) da obra de Gabo.

Agora imagine um livro póstumo de um autor consagrado como Gabriel. E mais, após o boato de que ele não queria que fosse publicado. Pronto. A polêmica estava formada antes mesmo das primeiras leituras de Em agosto nos vemos. O que o leitor encontra nesse texto não é, óbvio, a genialidade de Gabriel Garcia, mas uma história saborosa, uma novela curta, que segura o leitor do início ao fim não por conta de viradas mirabolantes ou algo do tipo. Mas a partir da graça de acompanharmos a criação do colombiano mostrando que ainda era capaz de entregar algo para o seu espírito inquieto, já no final da vida, com demência, onde a memória passou a se tornar páginas rasgadas da abundante ficção de outra época.

Em agosto nos vemos é sobre Ana Magdalena Bach, que em todo mês de agosto faz uma travessia de longas horas de barco até uma ilha para depositar flores no túmulo da mãe, morta alguns anos antes. O ritual é simples. Ela chega na pequena ilha no dia anterior ao aniversário de morte da mãe, fica hospedada no mesmo hotel e, no dia seguinte, vai depositar um ramo de gladíolos na sepultura, as flores preferidas da falecida. Depois disso, volta para casa, para o convívio com o marido e filhos. Em uma dessas idas, no entanto, ela conhece um homem e tem uma noite de amor com ele. Esse caso faz despertar nela uma vida que ela não sabia existir, nem explorava mais, na verdade, por conta da rotina dos dias. Esse caso fortuito foi o estopim para o encontro, nas vezes seguintes, com homens conhecidos ao acaso na ilha onde a mãe estava sepultada.

É um livro sobre a descoberta de desejos reprimidos e segredos guardados até o fim, como algo que Ana Magdalena descobre sobre a mãe. Uma surpresa. O motivo dela ter preferido ser enterrada num local sem ter aparentemente nada a ver com a sua história de vida. A mãe, no além-túmulo, parece ter conseguido, enfim, passar uma mensagem importante para a filha. Com pouco mais de 130 páginas, o leitor se depara com essas idas e vindas, os amantes de Magdalena e pistas ao longo das páginas, além da desconfiança do marido. Um texto escrito de forma linear, sem os recortes temporais tão caros na prosa do autor, mas com a leveza de alguém que viveu para criar, produzindo até o fim da jornada. Em agosto nos vemos não é de forma alguma um livro ruim ou mal escrito. Muito pelo contrário. Reafirma o estupendo criador que foi Gabo, encerrando a sua participação no mundo dos vivos com um parágrafo final impactante, um “adeus”, em grande estilo.

Talvez a suposta recusa de Gabriel García Márquez em não querer que esse livro fosse publicado após a sua morte, tenha residido mais no sentimento de gratidão dele pelos personagens que o abraçaram até o último suspiro (e do carinho por esta obra final), transformando-o em fragmento de tantas histórias, um personagem de si mesmo. Talvez Gabo quisesse que esse livro tivesse sido um segredo, assim como o mistério que ele criou para Ana Magdalena Bach.

Com este livro póstumo, Gabriel García Márquez parece nos dizer que, para ser inesquecível, basta apenas não esquecermos da matéria-prima da boa ficção: saber contar uma boa história. Seja em quantas páginas for. O que importa é a sinceridade e a verdade por trás da criação daqueles seres saídos da imaginação. A genialidade, para Gabo, reside nos detalhes e na simplicidade, como é este livro.

E aqui, neste belo exemplo de uma vida digna das melhores obras literárias, impossível não ler esse “Em agosto nos vemos” como um livro-sussurro de um conhecido querido, já respirando por ajuda de aparelhos, mas que pega em nossa mão com a sua última força vital, com brilho nos olhos, nos dizendo apenas: “deixa eu te contar uma história….”.

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