Com mais de um milhão de livros vendidos, autor reflete sobre origem, permanência e o elo afetivo entre suas histórias e os leitores ao longo do tempo

Por Ney Anderson

Há escritores que contam histórias. E há aqueles que constroem universos densos, pulsantes, habitados por personagens que atravessam o tempo e permanecem na memória do leitor. André Vianco pertence a essa segunda linhagem. Desde que surgiu no cenário literário brasileiro, movido por inquietação criativa e pela insistência em trilhar caminhos próprios, seu nome se tornou sinônimo de um terror com identidade nacional, visceral e profundamente humano.

De Os sete aos mais de 20 títulos que compõem sua obra, incluindo incursões pela literatura infantil, Vianco formou uma base sólida de leitores e ultrapassou a marca de 1 milhão de exemplares vendidos já há algum tempo, bem antes de outros autores atingirem essa marca recentemente no Brasil. Mas, mais do que números, sua trajetória é feita de persistência, reinvenção e diálogo constante com o imaginário de quem o lê.

Nesta entrevista especial ao Angústia Criadora, site que celebra 15 anos de dedicação à literatura, o autor revisita o início da carreira, fala sobre o presente e revela o futuro. A conversa ganha contornos ainda mais simbólicos porque foi justamente O caso Laura, obra de Vianco, o primeiro livro resenhado no site, em 10 de maio de 2011.

 

A paixão pelas palavras continua igualzinha ao dia em que comecei”

O interesse pelo sombrio

Angústia Criadora: O que despertou seu interesse inicial pelo universo do terror e do sobrenatural?

André Vianco: Não tenho um ponto de partida específico. Acho que tem conexão com algo inato, que já veio na minha configuração de fábrica. Meu primeiro contato com o sombrio, e que me despertou a melancolia e uma pletora interminável de perguntas sobre o “porque da morte e do fim”, creio que tenha sido a morte precoce do meu avô materno, quando eu tinha cinco anos. A partir desse momento surgiu um vazio que eu não compreendia e que não fazia o menor sentido.

Enquanto muitos viam a biblioteca como castigo, eu via felicidade”

O começo como leitor e escritor

Angústia Criadora: Como foram seus primeiros passos como escritor?

André Vianco: Foram dentro da escola quando ainda era criança, lá na primeira série, quando eu tinha sete anos de idade. Era comum, toda sexta-feira, a professora nos enviar até a biblioteca da escola. O que parecia uma tortura, uma pena de morte para a maioria dos meus amigos de sala, para mim era um momento de grande felicidade. Chegava lá e encontrava naquelas várias prateleiras um mundo infinito de possibilidades de coisinhas para eu ler, de mundos novos para eu conhecer. Essa foi a chave para o meu ingresso irreversível ao mundo da literatura. Escrever também começou na escola, com as redações. Eu amava fazer redação. Era péssimo em Matemática e Química. Eu era um TDAH raíz que sempre esquecia os cadernos, não conseguia fazer os deveres de casa, mas quando chegava hora de fazer redação, ah! Daí eu adorava.

A primeira vez que escrevi um livro de ficção foi deitado na cama, em fase de repouso depois de uma cirurgia extensa na perna, ainda na adolescência, aos 15 anos. Como teria que passar de molho por um mês sem levantar da cama, pedi a minha irmã do meio um caderno universitário e, com uma Bic de tinta preta comecei a escrever minha primeira aventura.

Escrevi Os sete em 90 dias, queimando em empolgação”

O nascimento de um clássico

Angústia Criadora: Os sete marcou o início da sua trajetória. Como nasceu essa história? Você imaginava que esse livro se tornaria um marco e daria origem a um universo tão amplo?

André Vianco: Os sete nasceu por culpa completa do meu primeiro romance escrito em 1998, que é o O Senhor da Chuva. O Senhor da Chuva, que escrevi com 23 anos de idade, foi o primeiro livro que quando cheguei até a última página e escrevi “FIM”, considerei meu primeiro romance, meu primeiro livro de Ficção de Terror, com o pé atolado no gótico.

Aconteceu no meio da trama desse livro de eu ter tornado um dos meus personagens um vampiro. E eu gostei tanto daquilo, tanto das possibilidades que aquele personagem me entregava, da facilidade de eu perambular pelas sombras e pelo melancólico através daquela criatura, que eu cravei: vou escrever um livro de vampiros!

Daí, em 1999, eu escrevi Os sete queimando em empolgação. Escrevi o livro em 90 dias. Nunca esqueço desse meu estado de euforia. Com um detalhe importante ainda: eu era recém-casado e já tinha a minha primeira filhota de quem eu cuidava. Ficava com ela no colo, na frente do PC 386, tirando do gelo aqueles personagens que se tornaram clássicos para a literatura brasileira de terror.

Recebi mil exemplares e saí debaixo do braço pelas livrarias”

A aposta independente

Angústia Criadora: Como foi apostar na publicação independente?

André Vianco: Na prática, foi bem simples. Mandei os originais de O Senhor da Chuva em 1998 para diversas editoras que publicavam ficção e nenhuma gostou. Em 1999 mandei Os sete, também nenhuma editora quis publicar. Acumulei aquelas famosas cartinhas de “não, passa amanhã”. Com as rejeições decidi publicar de forma independente sem conhecer nada do mundo editorial. Eu só sabia que queria que aquela história dos sete vampiros do Rio D´Ouro fosse publicada e que encontrasse seus leitores. Em fevereiro do ano 2000 eu recebi meu lote de mil exemplares e coloquei tudo debaixo do braço e saí visitando as livrarias físicas de rua, de shopping centers. Eles (os gerentes, livreiros) adoraram o livro e colocaram nas vitrines. O resto é história.

Sim, temos leitores de terror no Brasil”

André Vianco, em 1999, escrevendo Os sete

Mercado editorial e resistência

Angústia Criadora:  Aliás, o início da sua trajetória é digna de história de ficção. Conte um pouco como foi esse percurso do início, quando você apostou na sua literatura de uma forma bastante arriscada. Que aprendizados essa fase trouxe para a construção da sua carreira?

André Vianco: Escrever já é um ato solitário. Então escrever terror era mais solitário ainda. A gente não tinha um expoente nacional, um escritor ou uma escritora brasileiros que servissem de confirmação e validação. O que eu sabia era que o público leitor brasileiro gostava, e muito, de ler terror. Só que esse mesmo público tinha crescido lendo autores internacionais. O mercado editorial brasileiro e o mercado do audiovisual não entendiam coisa nenhuma da gramática do terror, da fantasia e da dark fantasy. Isso para eles era como dialogar com um dialeto bárbaro e incompreensível. E posso te dizer que até hoje 99% dos editores e executivos de audiovisual não compreendem a lógica do terror e que há um preconceito brutal sobre produzir conteúdo feito por brasileiros, conteúdo nacional.

Eu, do meu lado, depois de Os sete lançado independente me senti muito realizado. Quando ele se tornou best-seller nas mãos de um autor independente, de apenas 25 anos, da periferia de Osasco, só comprovei a mim mesmo o que eu sabia. Sim, temos leitores de terror no Brasil. Daí veio o contrato com a editora Novo Século que durou uma década e quase vinte livros publicados só por ela.

Sempre gostei de fazer o leitor se apaixonar pelos personagens”

Trilologias e sagas

Angústia Criadora: Criar trilogias como a saga Vampiro Rei e o Turno da Noite foi uma decisão consciente desde o início? Você acha que consegue explorar mais os seus personagens desta forma?

André Vianco: Naquela época não havia uma consciência, mas havia uma necessidade minha, uma vontade de continuar contando aquelas histórias. E deu muito certo. Sempre soube fazer meu leitor se apaixonar por meus personagens e eu sempre gostei muito de trabalhar em multiplot (enredo múltiplo). Naquela época foi um ato instintivo e deu muito certo. Também tinha a influência do mercado global com as trilogias de grandes autores e autoras da fantasia arrebentando.

Hoje o cenário é muito diverso daquele por conta das imensas transformações em toda a cadeia de criação, edição, comercialização e divulgação de um livro. Até que ele chegue às mãos de leitores que, na grande maioria, estão buscando histórias cada vez mais curtas, mais imediatas.

Meu próximo livro sai este ano: Quarenta Luas

O futuro próximo

Angústia Criadora: Qual livro inédito vem por aí?

André Vianco: Meu próximo trabalho inédito sai este ano pela Planeta. O título é Quarenta Luas.

A casa é meu xodózinho”

Obras marcantes

Angústia Criadora: Entre tantos livros, quais têm lugar especial?

André Vianco: O livro que o autor está escrevendo no momento, em geral, é a “menina dos olhos”. É difícil você olhar para uma coleção de mais de vinte romances e cravar: esse é o meu favorito.

Mas tenho, sim, carinho especial por alguns, como o próprio Os sete. A casa é meu xodózinho, infelizmente ainda está fora de catálogo por trâmites contratuais a se resolver. O que é uma pena. Um que me desafiou e virou um grande marco pessoal para mim mesmo foi “Dartana”, publicado pela editora Rocco. Dartana chegou às 800 páginas, é um tijolo cheio de ação, de deuses de mundos mil, um livro que exigiu muito de mim e me deu muito prazer em chegar a conclusão (confesso que ele poderia ter umas 200 páginas a menos kkkk). “Quarenta luas”, o que ainda está inédito e saí este ano também tem uma força que me deslumbra, me dá orgulho em ver como evoluí na forma do trato com a palavra, na elaboração das camadas tanto do personagens quanto do enredo. É a colheita de tanta dedicação por essa arte.

O Caso Laura representa mudança”

O livro ligado ao Angústia Criadora

Angústia Criadora: O caso Laura foi o primeiro livro resenhado no Angústia Criadora, lá em 2011. O que essa obra representa para você dentro do seu universo literário?

André Vianco: Mudança. Foi o meu primeiro grande romance publicado fora da minha primeira casa editorial, a Novo Século (meu editor Luiz Vasconcelos é um grande amigo e para mim foi a figura de um grande irmão mais velho, um conhecedor do mercado e, sobretudo, o primeiro editor que confiou cegamente em meus devaneios literários). Daí quando recebi o convite do Paulo Rocco para publicar uma coisa nova em sua editora, caminho costurado pela editora Eugenia Ribas, foi um dos momentos mais marcantes da minha carreira.

O primeiro livro resenhado no Angústia Criadora, em 10 de maio de 2011

Angústia Criadora: A casa eu considero um romance “coringa” dentro da sua extensa obra. É um texto muito emocionante, que traz muitas reflexões. Não tenho dúvida que outros leitores começaram a ler o seu trabalho por conta dessa obra. Conte sobre a criação desse livro.

André Vianco: A casa e Penumbra, junto ao O caminho do poço das lágrimas se encaixam bem nesse lugar de coringas. Meus leitores amam meus livros de terror, mas também quando eu saio na tangente do sombrio, da dark fantasy. E tem dado muito certo esse jeito de olhar para minha obra.

Angústia Criadora: existe algum trabalho que você escreveria de forma diferente hoje? Como enxerga a evolução da sua escrita ao longo dos anos?

André Vianco: Ah! Reescreveria todos se pudesse. Ao longo da vida a gente muda, amadurece, evolui. E tendo se dedicado a vida toda a uma forma de arte, você também sabe que maneja muito melhor a construção de histórias e personagens (que é o meu caso). Acontece que eu penso que não seria justo com o André do passado se o André do presente ou do futuro “corrigisse” a obra.

Sem bons personagens, a melhor ideia escorre pelo ralo”

Professor de escrita criativa

Angústia Criadora: Hoje, também como professor de escrita criativa, quais as técnicas que transmite aos seus alunos? O que mais tem chamado sua atenção na escrita dos participantes dos seus cursos? Qual livro de técnicas você indica para eles?

André Vianco: O que mais transmito aos que estão chegando é dar importância extrema ao caráter dos personagens atuantes no drama. Sem bons personagens a melhor ideia do mundo pode escorrer pelo ralo. Eu indico muito o livro de Christopher Booker, The seven basic plots, e o de John Truby, A anatomia da história.

O leitor precisa respirar dentro do seu livro”

Escrever gêneros diferentes

Angústia Criadora: Sobre escrita criativa, te pergunto: existe história impossível de ser contada? Complemento com a seguinte questão. Você não escreve apenas terror e sobrenatural. Também fantasia, ficção científica e distopia. Como virar a chave para conseguir escrever textos de gêneros tão distintos?

André Vianco: Eu brinco muito com uma analogia que é a seguinte: imagine que seus leitores, que amam tal gênero, quando chegam ao seu livro é como se eles aterrissassem em um planeta alienígena, mas é dever do escritor deixar aquele lugar hospitaleiro ao viajante. Quando o seu leitor descer no planeta x (sendo x igual ao gênero literário que vc escolheu escrever, produzir, imaginar) o leitor tem que ser capaz de tirar o capacete e respirar ali. Se não, o leitor morre ou vai embora da sua história.

Então, o lance é que cada gênero tem certos tipos de “beats”. Se você está trabalhando com ficção-científica, tem que haver ou uma tecnologia subvertendo a história, haver androides ou naves cruzando galáxias. Se você escolheu escrever terror tem que ter o monstro, a criatura, o sinistro, o medo. O seu leitor quer “respirar” isso dentro do seu livro.

Angústia Criadora: qual foi o primeiro livro que te assombrou?

André Vianco: A dança da morte, do Stephen King

Espero contar logo novidades sobre cinema e streaming”

Projetos audiovisuais

Angústia Criadora: alguns de seus livros tiveram os direitos vendidos para o audiovisual. Como estão esses projetos? Poderemos ver, por exemplo, Os sete nos cinemas? Por falar em audiovisual, entre 2010 e 2014 você foi roteirista da Rede Globo. Quais trabalhos desenvolveu na emissora?

André Vianco: digo no plural porque é um desejo imenso de todos meus leitores: teremos histórias minhas nas telas do streaming e do cinema. Não posso ainda falar destes projetos, mas espero que logo eu possa contar sobre essas novidades.

Na Globo eu trabalhei num departamento de desenvolvimento de novos projetos. Escrevi bastante coisas por lá como roteirista e autor original. Foi um período de muito aprendizado.

Angústia Criadora: O que o André Vianco de hoje ainda carrega daquele autor do início da carreira? O que você quer que o leitor sinta ao terminar um de seus livros?

André Vianco: O que carrego igualzinho ao dia em que comecei é a paixão pelas palavras e a vontade de emocionar o leitor. Quero que o leitor sinta-se bem recebido no meu mundo e que faça um passeio para lugares que, talvez, nunca tenha estado antes. Emocionar é a minha guia principal.

Angústia Criadora: Como faz para manter seu público leitor interessado nos seus livros? Existe, de fato, um fator de concorrência entre as mídias sociais (e tudo o que essa Era dispõe), por exemplo, e a literatura? Sobre isso, percebe que a geração de leitores que te lê está mudando?

André Vianco: Só continuo escrevendo e lançando meus livros. Tenho livros publicados nas maiores editoras do Brasil. Mas isso, a importância disso, é que vem mudando bastante. Não houve momento mais interessante para um autor, uma autora, se lançar de forma independente. E, sim, a geração mais recente lê bastante a minha obra. Mas o “mercado editoral e todo o ecossistema da Indústria do Entretenimento” vem se adaptando a essa nova era onde o leitor quer tudo para ontem, quer consumir conteúdo mais curto e mais rápido.

Angústia Criadora: Você percebe ainda algum preconceito da crítica especializada, e dos principais prêmios, com o gênero terror, sobretudo no Brasil? Qual o motivo disso?

André Vianco: Esse preconceito já se dissolveu bastante. O Jabuti, por exemplo, faz anos que já premia a categoria de “livro comercial” que, em outras palavras, serviria para “livros de entretenimento”.

Tenho abstinência se não escrevo”

O impulso de continuar

Angústia Criadora: O que ainda te motiva a escrever?

André Vianco: É algo fisiológico já, eu não decido mais sobre isso. kkkk. Tenho abstinência se não escrevo. Passo até mal. Eu adoro criar histórias.

Escrevendo horrores!”

Para encerrar

Angústia Criadora: Se pudesse definir seu trabalho em uma frase?

André Vianco: Escrevendo horrores!

 

Conheça a obra toda de André Vianco clicando aqui.

 

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