Por Ney Anderson

Ler Lourenço Mutarelli é sempre entrar num território onde as regras do mundo parecem suspensas. No recém-lançado Masuaki e/ou não deixe os cachorros latirem sozinhos (Companhia das Letras), publicado em abril, o autor entrega talvez uma de suas obras mais ambiciosas, pessoais e formalmente ousadas. Em quase 400 páginas, divididas em sete capítulos e epílogo, Mutarelli embaralha tempos, identidades, memórias, fantasmas e espelhos para construir uma narrativa que parece ilógica. Mas que, paradoxalmente, faz um sentido profundo.

Mutarelli, também um dos principais nomes dos quadrinhos brasileiros, mantém aqui aquilo que sempre marcou sua literatura: a potência imagética da escrita. Suas palavras criam cenas como desenhos sombrios. Figuras grotescas, presenças deformadas, aparições sem nome, seres que tomam o lugar de outros e assumem novas formas atravessam o romance inteiro. É um livro povoado por estranheza, desconforto e imagens perturbadoras.

No centro da trama estão Masuaki e o Professor, dois personagens que orbitam um ao outro como duplos imperfeitos. Já se cruzaram antes em sala de aula, mas agora reaparecem em tempos distintos e simultâneos, como se vivessem presos numa dobra temporal. Masuaki surge jovem, morando com os pais, namorando Alice, ensaiando com a banda Os Pilintra. E logo depois velho, melancólico, cheio de lembranças. O Professor, por sua vez, é ator, alcoólatra, compulsivo, envolvido com uma mulher bem mais jovem e filmando uma produção chamada O Charco, na qual interpreta um pastor evangélico perdido num pântano infernal.

Nada disso é linear. Nada anda sobre trilhos previsíveis. A narrativa avança como a própria vida: desordenada, cheia de interrupções, impulsos e restos. Mutarelli transforma o caos em método. Em certo momento, um personagem resume essa vertigem com uma frase seca e certeira:

“Tô sabendo, meu irmão, tô sabendo. É assim que a vida é. Cedo ou tarde, todo mundo cai.”

Há algo de profundamente autobiográfico no romance, embora jamais se reduza à moda da autoficção. Leitores atentos reconhecerão ecos da biografia do autor, especialmente sua experiência de quase morte durante a pandemia, quando sofreu paradas cardíacas. Essa experiência atravessa o livro como uma sombra. O limiar entre viver e morrer se torna o verdadeiro cenário da obra.

Em uma das passagens mais fortes, lemos:

“Há exatamente setecentos e vinte e seis dias eles disseram que setenta por cento do meu coração necrosou (…) Você é capaz de entender que setenta por cento do meu coração morreu?”

Aqui, Mutarelli transforma o corpo em metáfora absoluta. O coração necrosado não é apenas órgão: é memória corroída, desejo gasto, identidade em colapso. Em outra passagem decisiva, a lógica do romance se revela por inteiro:

“Quando algo deixa de ser, outra coisa pode ocupar o seu lugar. Pode ocupar o seu lugar e também a sua forma.”

É a síntese perfeita deste universo de duplos, substituições e identidades instáveis. O romance inteiro se move nesse espaço entre dois mundos. Realidade e sonho. Lucidez e loucura. Vida e morte. O Professor pode estar atuando ou sendo possuído pelo personagem. Masuaki pode estar lembrando ou inventando. Um filme pode estar sendo rodado ou apenas sonhado. Há fantasmas por toda parte. Talvez sejam apenas a materialização das culpas e dores que cada personagem carrega. Essa fusão entre homem e papel aparece quando alguém diz ao Professor:

“Ela diz que eu venho me misturando demais a meu personagem.”

Nada mais adequado para um livro em que todos parecem contaminados por outras versões de si mesmos. As dezenas de notas de rodapé merecem destaque especial. Longe de simples ornamento, elas ampliam a trama, mergulham na psique dos personagens, introduzem referências e criam novas camadas narrativas. Funcionam como corredores secretos desse grande labirinto textual.

Também os diálogos, marca registrada do autor, estão em altíssimo nível. São conversas estranhas, engraçadas, tristes e reveladoras. Sempre parece haver algo fora do lugar. E é justamente esse deslocamento que produz encanto. Em outro trecho, Mutarelli mistura humor, melodrama e autoironia:

“Depois de ter morrido duas vezes, eu tenho o direito de ser cafona e piegas.”

Há humor também. O papagaio Febo surge como presença curiosa e quase decorativa em meio ao colapso existencial dos demais. Até um duplo de Bruce Willis aparece na história. Mutarelli sabe que o absurdo é uma ferramenta filosófica.

O que impressiona, acima de tudo, é a liberdade criativa. Este talvez seja um Mutarelli ainda mais radical: sem concessões, sem preocupação em facilitar a leitura, sem medo de perder leitores pelo caminho. Não é um livro fácil. Não é para todo mundo. Exige entrega, paciência e disposição para se perder. Mas quem aceita entrar nesse jogo de espelhos falsos encontra uma obra riquíssima.

Há ainda uma espécie de declaração final de princípios quando lemos:

“Não importa, porque seguirei contando a minha história. A porra da história que você insistiu tanto para que eu contasse.”

Essa frase ecoa como manifesto do próprio autor: continuar escrevendo apesar do caos, apesar da dor, apesar da morte rondando a porta.

Masuaki e/ou não deixe os cachorros latirem sozinhos fala de envelhecimento, amor, solidão, culpa, fracasso, arte e permanência. Fala sobre pessoas autodestrutivas tentando continuar. Fala sobre o tempo que passa num piscar de olhos. Fala sobre como a vida não tem roteiro.

No fim, Mutarelli parece sugerir que o extraordinário talvez nunca aconteça. E que o grande mistério seja apenas continuar existindo. Poucos escritores brasileiros contemporâneos arriscam tanto. Menos ainda conseguem transformar delírio em literatura de verdade. Mutarelli consegue. Outra vez.

One thought on “Entre a vida e a morte, o real e o delírio: o novo labirinto de Lourenço Mutarelli”
  1. Ótima crítica. Agora tenho uma dualidade para resolver: pegar ou não dinheiro com um agiota para comprar o livro? Até porque você não vai me emprestar o livro mesmo. Como Mutarelli mesmo diz: livro não se empresta.

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