Um ensaio sobre a amizade e a gratidão

Por Ney Anderson

 

Há exatamente um mês, o Recife amanheceu um pouco mais silencioso e triste.

Ainda me custa acreditar que Raimundo Carrero morreu. Escrevo esta frase e imediatamente sinto vontade de apagá-la. Não porque negue a realidade, mas porque ela continua parecendo incompatível com o homem que conheci. Carrero sempre ocupou um espaço tão grande na minha vida e na de tanta gente que sua ausência física parece um detalhe incapaz de diminuir sua presença. Há pessoas que, quando partem, deixam um vazio. Outras permanecem habitando os lugares por onde passaram. Raimundo Carrero pertence a esse segundo grupo.

Durante este primeiro mês, percebi que o luto possui uma estranha capacidade de reorganizar a memória. Não são os grandes acontecimentos que voltam primeiro. São os pequenos gestos. O sorriso estrondoso antes mesmo dele abrir uma porta. A voz grave atravessando um corredor. A mão puxando um livro da estante para explicar uma frase de Dostoiévski, Faulkner ou Graciliano Ramos. O telefone tocando para comentar um conto que eu havia acabado de lhe enviar. O terço sempre por perto, esperando as seis horas da tarde. Até um certo perfume que alguém usava na época da oficina, curiosamente, permanece guardado na minha memória, como se os sentidos também se recusassem a aceitar a despedida.

Volto constantemente ao apartamento do Rosarinho, ainda que apenas pelo pensamento. Aquele lugar era muito mais do que uma residência. Era uma espécie de santuário da literatura. Livros ocupavam praticamente todos os espaços. Não havia estante que não escondesse uma história, uma lembrança, uma descoberta. Bastava surgir uma dúvida durante a conversa para Carrero interromper a frase, levantar-se, caminhar até uma das prateleiras e retirar exatamente o livro que precisava. Folheava algumas páginas, encontrava o trecho procurado e dizia, com entusiasmo de quem acabava de descobrir aquilo pela primeira vez:

— Está vendo? É aqui.

E começava outra aula.

Na verdade, conversar com Raimundo Carrero era sempre assistir a uma aula. A literatura ocupava naturalmente o centro de todas as conversas. Falávamos sobre um romance recém-lançado, um clássico russo, um texto de Machado de Assis, um filme, uma reportagem, um personagem encontrado nas ruas do Recife ou simplesmente sobre a vida. Não importava o assunto. Em poucos minutos ele fazia tudo desembocar na ficção. Era como se enxergasse o mundo através dessa ótica.

Hoje compreendo que esse era seu verdadeiro idioma. Se hoje sou jornalista e escritor, devo muito a Raimundo Carrero. As histórias que ele contava na época de repórter, eram simplesmente incríveis, embora nada glamourosas. Essa paixão dele me despertou a vontade de seguir nessa profissão. Se sou crítico literário, também devo a ele. O Angústia Criadora nasceu assim. Não apenas pelo que me ensinou nas oficinas, mas pela maneira como passou a ocupar minha formação humana. Eu já queria escrever sobre livros. Pensei em criar um site, logo após ter saído da oficina depois de tanto tempo. Mas qual título colocar? Foi aí que surgiu a ideia da angústia do criador, no qual Carrero sempre falava nas aulas. Não a angústia do papel em branco. Essa ele não tinha mesmo. Mas a angústia em dispor dos muitos recursos para montar tudo com coerência e qualidade, sem se atrapalhar. 

Um dos muitos encontros na Academia Pernambucana de Letras

 

Aprendi com ele a construir diálogos, organizar cenas, compreender a arquitetura invisível dos romances e perceber que cada palavra possui um peso específico. Mas aprendi algo ainda mais importante: a tratar a literatura com reverência. Como quem entra num território sagrado.

Durante quase vinte anos, praticamente tudo o que escrevi passou antes pelos olhos de Carrero. Contos, resenhas, reportagens, artigos, romances, rascunhos, dúvidas e inseguranças. Eu escrevia e imediatamente pensava: “Preciso mandar para Carrero.” Poucos dias depois vinha a resposta. Às vezes uma observação técnica. Outras vezes uma crítica severa. Muitas vezes um incentivo inesperado. Sempre uma leitura atenta, honesta, generosa. Talvez por isso sua morte tenha provocado em mim uma sensação difícil de explicar. Perdi um amigo. Um mestre. E perdi o meu extraordinário primeiro leitor.

Agora não existe mais esse gesto de carinho. Quando penso que ele não está mais por aqui, sinto um frio estranho na barriga. Um vazio. Um aperto no peito. Ainda hoje termino um texto e, por um segundo, sinto vontade de enviá-lo para ele. Só depois lembro que isso nunca mais será possível. Essa talvez seja a parte mais dolorosa da ausência. Não mais vou sentir a alegria em saber que ele está lendo algo meu. Que ele está por perto. De alguma forma, essa minha atitude era para mostrar que ele não tinha perdido tempo comigo, pois eu honrava o que eu tinha aprendido.

Carrero era torcedor fiel do Sport Clube do Recife

A primeira vez que soube de Raimundo Carrero foi muito antes de conhecê-lo pessoalmente. Foi através de um livro. Sinfonia para vagabundos. Era por volta de 2002 ou 2003. Até então, eu jamais havia lido um Recife daquela maneira. A cidade que aparecia diante dos meus olhos era febril, noturna, povoada por loucos, prostitutas, bêbados, mendigos, personagens derrotados e profundamente humanos. Um Recife sombrio, mas vivo. Violento, mas também poético. Um Recife que eu percorria diariamente e que, no entanto, nunca havia conseguido enxergar daquele modo. Fechei aquele romance com uma sensação rara.

Alguma coisa havia mudado. Naquele instante, mesmo sem perceber, encontrei o caminho que desejava seguir como escritor. Eu buscava, mas não sabia direito o que me inquietava. Esse livro me apontou um caminho possível. Passei então a procurar todos os livros de Raimundo Carrero que conseguia encontrar. Li um após o outro. Queria entender como alguém era capaz de criar personagens com tamanha intensidade. Como conseguia transformar as ruas do Recife em cenários quase míticos. Como escrevia com tanta força sem perder a delicadeza, uma poesia que brotava dos estilhaços da existência. 

Dois anos depois, finalmente o vi durante a Bienal Internacional do Livro de Pernambuco. Lembro perfeitamente da voz. Das gargalhadas. Da facilidade impressionante com que transitava entre autores russos, franceses, espanhóis, latino-americanos e brasileiros como quem falava de velhos amigos. Saí daquela palestra ainda mais fascinado e com uma impressão muito forte, que nunca desapareceu e só se confirmou ao longo do tempo. Mesmo tão espontâneo e festivo, eu sempre achei Raimundo Carrero uma figura misteriosa. Tinha algo de mítico nele. Era diferente. Mesmo nos momentos mais frágeis dos últimos anos, esse mistério permanecia. Era algo inacessível. Intocado. Até nas conversas mais íntimas, quando ele me fez algumas revelações por confiar em mim, o mistério permanecia ali. Percebo que essa percepção não era só minha. Pois quando Carrero entrava em algum ambiente, a atmosfera mudava. Existia uma reverência. Um respeito muito grande das pessoas. Uma admiração natural. 

No corredor onde fica o centro cultural que leva o nome dele, na João de Barros

Jamais imaginei que, pouco tempo depois daquele primeiro contato, aquele escritor se tornaria uma das pessoas mais importantes da minha vida. Foi uma reportagem de jornal que mudou definitivamente o rumo dessa história. Descobri que Raimundo Carrero ministrava uma oficina literária. Na época, nem sabia que algo assim existia. Eu gostava de ler. Escrevia alguns contos. Acumulava rascunhos que nunca terminava. Mas fazia tudo sozinho. Enviei um e-mail para Karla Melo, sua assessora, perguntando se existia a possibilidade de conseguir uma bolsa integral. Não tinha condições financeiras de pagar. Escrevi que a literatura era muito importante para mim e que já tentava escrever algumas coisas. Dois dias depois chegou a resposta. Carrero havia autorizado a bolsa. Pediu apenas que eu levasse um conto para ser debatido na primeira aula.

Hoje penso naquele gesto com enorme emoção. Antes mesmo de saber quem eu era, Raimundo Carrero já havia estendido a mão. Naquela mesma semana comprei O amor não tem bons sentimentos, na Livraria Cultura. Li o romance antes da minha estreia na oficina, cruzando as pontes debaixo de um sol daquelas, me sentindo dentro da história. Porque, mais uma vez, o centro do Recife era o cenário dos personagens Biba, Dolores, Mateus, Tia Guilhermina, Ernesto, dos Soldados da Pátria por Cristo, entre outros presentes na obra. E aconteceu outra vez. A mesma sensação que experimentara com Sinfonia para vagabundos voltou ainda mais intensa.

Na Fliporto, em Porto de Galinhas. 2008

Até hoje considero O amor não tem bons sentimentos um dos melhores romances da literatura brasileira contemporânea. Fechei o livro convencido de que estava prestes a conhecer um gênio. Só não imaginava que conheceria um homem ainda maior.  A aula começava às duas da tarde. Cheguei uma hora antes. Carregava comigo o conto que havia escolhido entre tantos rascunhos. Hoje percebo que aquele texto tinha muito mais entusiasmo do que qualidade, mas era o melhor que eu podia oferecer naquele momento. Mais do que um conto, eu levava comigo o desejo de aprender.

Alguns alunos já estavam na sala. Entre eles, Lúcia Moura e Gerusa Leal, que se tornariam grandes amigas. As duas eram simplesmente devotas de Carrero. Era lindo ver o entusiasmo delas. Havia algo curioso naquele ambiente. Ninguém parecia chegar apenas para uma aula. Todos chegavam mais cedo para prolongar a convivência com o mestre. Era comum aproveitar cada minuto antes e depois do horário oficial. A literatura começava muito antes da primeira palavra do professor.

Pouco depois das treze horas ouvimos vozes do lado de fora. Duas pessoas conversavam. Em seguida veio uma gargalhada.

Lúcia sorriu.

— Carrero chegou.

Era impressionante. Antes mesmo de abrir a porta, sua presença já ocupava todo o espaço.

Quando entrou na sala, cumprimentou cada um dos presentes. Ao me ver pela primeira vez, lançou aquele olhar desconfiado, típico dos sertanejos que observam antes de confiar.

Aproximei-me.

— Sou Ney Anderson. Falei com a Karla Melo.

Imediatamente seu rosto se iluminou.

— Ah… sim, Ney. Trouxe o conto?

A conversa durou poucos segundos. Mas foi suficiente para mudar completamente o rumo da minha vida. Naquele dia começou uma convivência que atravessaria quase duas décadas. Foram quatro anos participando ativamente da oficina. Hoje consigo afirmar, sem exagero, que aquele foi o período em que mais li e mais escrevi em toda a minha vida.

Carrero costumava repetir que escritor não nasce pronto. Forma-se. E essa formação exige disciplina. Não existia espaço para preguiça intelectual. Li com uma intensidade que nunca mais consegui repetir. Sempre com uma caneta na mão. Sublinhando frases. Fazendo anotações nas margens. Comparando traduções. Voltando às páginas para entender uma construção narrativa. Esse hábito nunca mais me abandonou. Depois de Carrero, jamais consegui ler um livro de maneira inocente. Nunca mais escrevi da mesma forma.

Ele nos ensinava a enxergar a engrenagem invisível da ficção. Mostrava como um romance era construído. Por que um personagem entrava em determinada página e não em outra. Por que um diálogo precisava ser interrompido exatamente naquele ponto. Como um silêncio dizia mais do que um discurso. Como um cenário podia funcionar como personagem. Como cada palavra possuía uma função. Nada era gratuito. Nada sobrava.

Tudo existia para conduzir o leitor até o fim. Carrero dizia que o escritor tinha uma obrigação. Seduzir o leitor. Não permitir que ele abandonasse o livro antes da última página. Fracassar nisso era fracassar como ficcionista. Era uma visão exigente, mas profundamente verdadeira.

Em Noronha. 2025. Nosso último encontro

A oficina nunca foi apenas uma oficina. Hoje entendo isso com clareza. Era um laboratório. Lembro de uma observação que Gerusa Leal me fez pouco depois da morte de Carrero.

Ela disse que aquelas aulas pareciam encontros num laboratório alquímico da literatura. Não consigo encontrar uma definição melhor. Falou isso porque eu comentei da energia que sentia. Era diferente. Especial. Não por acaso, os participantes costumavam ficar dez, quinze anos com ele. Ninguém queria ir embora. 

Quando a gente entrava pelo portão daquele endereço na Rua da Amizade (veja só que nome profético), um portal se abria. Lúcia dizia que eram encontros para fazermos magia com as palavras. Um encontro de bruxas. Partíamos para outro universo. Ali, naquela pequena salinha nos fundos do casarão, desmontávamos romances como quem desmonta relógios antigos.

Cada aula era uma tentativa de descobrir o mecanismo secreto das grandes obras. Carrero lia um trecho. Interrompia. Voltava uma frase. Explicava por que aquele verbo havia sido escolhido. Depois fazia silêncio. Um silêncio longo. Quase religioso. Naquele instante todos compreendíamos que literatura também se ensina através das pausas. Não apenas das palavras. 

Lembro de fatos engraçados. Em muitos intervalos, eu e Carrero aproveitávamavos para tomar vinho num boteco na esquina. A gente voltava calibrado e ainda mais empolgado para desvendar os segredos da ficção. Outra coisa curiosa. Um fomos lanchar na padaria que ficava do outro lado da rua. Estavámos estudando Madame Bovary. E, coincindentemente, o nome do atendente era Flaubert. Assim mesmo. Mas o rapaz pronunciava o nome com um intonação diferente. Dizia assim: Flauberte. Inah Lins, no mesmo instante o corrigiu.

— Meu filho, o seu nome não fala desse jeito. O certo é Flaubert. É frânces e o “T” é mudo. Além disso, você tem o nome de um dos maiores escritores de todos os tempos. 

O rapaz, claro, ouviu, mas não falou nada.

As oficinas aconteceram em alguns lugares. Cada um deles permanece guardado na minha memória. O casarão das Graças talvez seja o mais emblemático. Havia uma pequena sala na área externa, onde funcionava a empresa Âncora. Hoje, naquele endereço, existe uma padaria. Sempre que passo por ali, tenho a impressão de ouvir novamente a voz de Carrero atravessando as paredes.

Também tivemos aulas na União Brasileira de Escritores, em Casa Forte. Numa sala no bairro do Pina e em outros espaços espalhados pelo Recife. O endereço mudava. A atmosfera permanecia exatamente a mesma. Carrero gostava de dizer que apreciava o cheiro de mato. Talvez por isso muitos daqueles lugares fossem cercados por árvores. Havia algo de bucólico naquelas tardes. Era como estudar literatura num pequeno refúgio escondido em meio ao caos da cidade. Uma vez isso extrapolou todos os sentidos.

A sala nos fundos do casarão das Graças, na Rua da Amizade

Tivemos uma aula maravilhosa na casa de Beatriz Brenner, em Moreno, no meio do mato. O dia inteirinho como num retiro. Foi inesquecível. Inah Melo estava por lá, Izabela Domingues também. Yugo Taroo, Marcos Toledo e alguns outros felizardos. Até hoje, quando me recordo dessa oficina, lembro também da luz atravessando as árvores, do vento entrando pela janela, do cheiro da terra molhada depois da chuva. A literatura parecia respirar junto com a paisagem. Impossível esquecer, pois foi justamente no dia do meu aniversário, em 15 de dezembro de 2007.

Volto àquelas salas. Àquelas conversas. Àquela sensação de que tudo ainda estava começando. Participar da oficina de Raimundo Carrero era conviver diariamente com um paradoxo fascinante. Sua literatura mergulhava nas regiões mais escuras da alma humana. Ele, entretanto, era um homem profundamente luminoso. Engraçado. Irônico. Solar. O sorriso estrondoso contrastava com o sofrimento dos personagens que criava. 

À primeira vista, a voz grave, o olhar firme e a expressão séria podiam intimidar. Havia nele algo de profeta sertanejo. Ou talvez de um antigo sacerdote medieval. Mas bastavam poucos minutos de conversa para essa impressão desaparecer. Por trás daquela aparência austera existia um homem de enorme delicadeza. Muito generoso, leal e afetuoso. Capaz de acolher qualquer pessoa interessada verdadeiramente na literatura.

Seu conhecimento impressionava. Jamais conheci alguém que tivesse lido tanto. Mais impressionante, porém, era perceber que aquele conhecimento nunca se transformava em vaidade. Carrero era um erudito. Mas um erudito sem afetação. Sem pedantismo. Explicava os romances mais complexos com a simplicidade de quem conversa na mesa de um café. Nunca usava o saber para diminuir ninguém. Ao contrário.

Nem a pandemia nos afastou

Sua alegria consistia justamente em compartilhar aquilo que aprendera. Nunca escondia um livro importante. Nunca guardava uma referência apenas para si. Nunca fazia da literatura um território de disputa. Queria que seus alunos fossem melhores escritores. E talvez essa seja a forma mais rara de generosidade. Foi nesse período que nasceu minha maior influência literária. Não apenas no modo de escrever. Mas no modo de compreender o próprio ofício. Carrero me ensinou que a literatura exige entrega. Que escrever é estudar. É reescrever. É desconfiar da primeira versão. É observar pessoas. É ouvir. É ler. Ler muito. Ler sempre. Escrever o que não se confessa nem à própria alma. A verdade é que minha trajetória artística se divide em duas partes: antes e depois de Raimundo Carrero 

Mais tarde compreenderia que ele próprio era o maior exemplo daquilo que ensinava. Sua vida inteira foi uma demonstração silenciosa de que a literatura não é um passatempo. É uma forma de existir. Com o passar dos anos, a relação entre professor e aluno foi cedendo espaço a uma amizade construída lentamente, sem cerimônia, como acontecem as amizades verdadeiras. As oficinas já não eram suficientes.

Passei a frequentar seu apartamento no Rosarinho. Telefonávamos um para o outro. Trocávamos e-mails.

Nos encontravámos em lançamentos, palestras, feiras de livros ou simplesmente para conversar. Em todos esses lugares acontecia exatamente a mesma coisa. A conversa sempre acabava na literatura. Carrero parecia incapaz de falar superficialmente sobre um livro. Uma frase levava a outra. Um personagem remetia a Dostoiévski. Depois vinha Faulkner. Flaubert era uma de suas obsessões, principalmente Madame Bovary. Dom Casmurro também era outro romance que fascinava-o. Toda vez que a gente conversava, ele me dizia que tinha descoberto algo novo nesse livro de Machado. O cara realmente era um bruxo das palavras, me dizia. 

Parte da biblioteca do mestre

Logo apareciam Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Cervantes, Kafka, Guimarães Rosa, Ariano Suassuna. Os autores conviviam naturalmente dentro da sua memória. Não eram nomes. Eram companheiros de vida. Nunca esquecerei a primeira vez em que entrei em sua biblioteca. Foi como entrar numa catedral. Não exagero. Ali estavam reunidas décadas de leitura. Livros marcados, anotados, sublinhados. Alguns completamente gastos pelo uso.

Carrero não colecionava livros. Convivia com eles. Conhecia o lugar exato onde estavam.

Lembrava de passagens inteiras. Às vezes interrompia uma conversa no meio. Levantava-se. Ia até a estante. Retirava um volume. Folheava algumas páginas. Encontrava exatamente o trecho que procurava. Voltava sorrindo.

— É isso que eu queria lhe mostrar.

E começava outra aula. Os livros eram constantemente revisitados. Nunca vi alguém dialogar tanto com uma biblioteca. Eu queria muito um desses comigo agora. 

Com o tempo, também comecei a conhecer melhor Marilena. É impossível falar de Raimundo Carrero sem falar dela. Marilena não apenas acompanhou sua trajetória. Ela a tornou possível. Era presença constante. Discreta. Gentil. Atenta. Enquanto Carrero mergulhava completamente na literatura, havia sempre uma serenidade silenciosa sustentando a rotina da casa. Hoje penso que muitos de nós, alunos e amigos, fomos acolhidos também por essa delicadeza. O apartamento do Rosarinho não era apenas a residência de Carrero. Era o lar dos dois. E quem atravessava aquela porta sentia imediatamente que estava entrando num ambiente onde os livros eram importantes, mas as pessoas eram ainda mais. Os filhos, Rodrigo e Diego também estavam sempre presentes nas histórias que ele contava. E as netas Maria Nina e Maria Helena, que Carrero tanto amava. 

Eu amava ficar percorrendo os livros que Carrero consultava diariamente

Nossa amizade foi crescendo assim, naturalmente. Chegou um momento em que eu já não o procurava apenas para discutir literatura. Conversávamos sobre jornalismo, política, futebol, cinema. Sobre a cidade. Sobre a vida. Eu gostava especialmente de ouvi-lo falar do Recife. Poucos escritores compreenderam esta cidade como Raimundo Carrero. Seu Recife nunca foi o dos cartões-postais. Nunca foi o Recife dos roteiros turísticos. Era a cidade dos becos. Dos bares antigos. Dos personagens invisíveis. Das madrugadas. Dos homens derrotados. Das mulheres esquecidas. Dos loucos. Dos bêbados. Das prostitutas. Dos meninos abandonados. Dos que vivem à margem. Carrero caminhava pelo Recife como quem atravessava um romance. Enxergava personagens onde quase ninguém enxergava pessoas. Isso também sobre o Sertão, presente na primeira parte da obra.

Talvez por isso seus livros tenham conseguido revelar uma cidade que permanece escondida sob a superfície. Depois de conhecê-lo, nunca mais caminhei pelas ruas do Recife da mesma maneira. Vi nisso a oportunidade de alimentar a minha ficção. Passei a olhar demoradamente para rostos desconhecidos. Para as esquinas, os velhos edifícios, os bares decadentes, as igrejas, os mercados. Foi Carrero quem me ensinou que a literatura começa muito antes da escrita. Ela começa no olhar.

Muitas vezes me perguntam qual era o segredo de sua obra. Penso que a resposta está justamente aí. Carrero nunca escrevia sobre personagens. Escrevia sobre pessoas. Não havia heróis, nem vilões. Havia seres humanos profundamente contraditórios. Homens e mulheres esmagados pela culpa e consumidos pelo desejo. Personagens atravessados pela violência, pela fé, pela solidão, pelo pecado e pela esperança.

Sua literatura nunca oferecia respostas. Oferecia conflitos. Talvez seja por isso que continua tão atual. Os grandes romances não envelhecem porque tratam daquilo que nunca envelhece. A condição humana. Lembro de uma conversa em que lhe perguntei como conseguiu criar personagens tão intensos. Ele sorriu. Fez uma pequena pausa. E respondeu:

— Personagem não se inventa. Personagem se escuta.

Naquele momento compreendi mais uma de suas lições.

Um clássico

Carrero passava a vida escutando pessoas. Observando. Guardando pequenos gestos. Expressões. Silêncios. Recortando jornais em busca de personagens. Depois tudo isso reaparecia transformado em ficção. Nada era gratuito. Tudo vinha da experiência humana.E que vida tão movimentada ele teve. Desde sempre. Além de tudo isso, Carrero também foi músico no grupo Os tártaros. Na época de ouro da Jovem Guarda. Não por acaso, foi um grande boêmio. Sua trajetória como jornalista também explica muito da força dos seus romances. Durante décadas percorreu as ruas como repórter, no Recife e em outras partes do país, a exemplo da sua primeira matéria assinada, em 1969. Sobre uma criança em Alagoas que era vidente de Nossa Senhora. A mesma mãe de Jesus sempre esteve presente em sua vida. 

A profissão ensinou Carrero a observar, ouvir atentamente, desconfiar das primeiras versões. A perceber aquilo que passava despercebido pelos outros. O jornalismo lhe deu a matéria-prima. A literatura lhe deu permanência. Poucos escritores brasileiros conseguiram reunir essas duas qualidades com tanta espontaneidade. Talvez por isso seus livros possuam uma verdade tão difícil de explicar. Apenas sentir aquela sensação única com a leitura de uma obra singular. Há neles uma invenção profundamente enraizada na realidade. Ele é um escritor que não se copia. Vai permanecer original e sem paralelos. 

Às vezes alguém me pergunta quantos livros Raimundo Carrero publicou. Lmbro de um episódio recente. Durante o lançamento de A vida é traição, um colega me fez exatamente essa pergunta. Pesquisei rapidamente. Respondi:

— Vinte e cinco.

Ele pareceu surpreso.

— Só isso?

Um encontro inesquecível. Carrero ao lado do grande amigo e mestre Ariano Suassuna

Sorri.

Naquele momento respondi apenas que eram vinte e cinco grandes livros. Hoje responderia diferente. Não eram apenas vinte e cinco livros. Eram vinte e cinco romances escritos por um homem que viveu inúmeras vidas ao mesmo tempo. Carrero fez muita coisa.

Escreveu prefácios, orelhas, artigos, ensaios. Participou de programas de rádio e televisão. Recebeu diariamente escritores em sua casa. Leu centenas de originais. Orientou gerações inteiras. Tudo isso sem abandonar sua própria produção literária. Quando se olha a dimensão dessa trajetória, aqueles vinte e cinco livros deixam de parecer poucos. Transformam-se numa façanha. Poucos intelectuais brasileiros exerceram essa generosidade com tamanha constância. Costuma-se dizer que um mestre transmite conhecimento. Carrero fazia mais.

Transmitia confiança. Acreditava nas pessoas antes mesmo que elas acreditassem em si.

Foi exatamente isso que fez comigo quando autorizou uma bolsa para um rapaz desconhecido que lhe enviara um e-mail pedindo uma oportunidade. Naquele gesto havia muito mais do que generosidade. Havia uma visão de mundo.

A mesma visão que Ariano Suassuna tivera décadas antes, quando abriu sua biblioteca ao jovem Raimundo Carrero e lhe mostrou o caminho da literatura. Carrero recebeu esse legado. E o multiplicou. Talvez sua maior obra não esteja apenas nos romances que escreveu. Mas também nos escritores que ajudou a formar. Porque há homens que escrevem livros. E há homens que escrevem destinos. Carrero realizou as duas coisas.

Houve um momento em que compreendi que Raimundo Carrero já não ocupava apenas um lugar na minha formação literária. Ocupava um lugar na minha vida.

Passei a procurá-lo não apenas quando terminava um conto ou um romance, mas quando precisava conversar. Sua opinião ultrapassava a literatura. Havia nele uma sabedoria construída não apenas pelos livros, mas pela experiência, pelas perdas, pelos encontros e pela maneira como atravessou o mundo.

Era impossível sair de uma conversa com Carrero exatamente igual a como se havia chegado. Sempre tinha uma pergunta que permanecia ecoando. Uma indicação de leitura. Uma observação sobre a natureza humana. Uma lembrança de Ariano Suassuna. Uma história do jornalismo, da música, uma descoberta literária, da boêmia que também fez considerável da sua vida. Raimundo Carrero era um observador sagaz.

No lançamento da antologia que celebrou os seus 70 anos

Ele tinha o raro dom de transformar uma conversa comum numa experiência de aprendizado. Outro aspecto que sempre me impressionou foi sua fé. Carrero nunca escondeu que era um homem profundamente cristão. Sua devoção a Nossa Senhora fazia parte da sua rotina tanto quanto a literatura. Às seis horas da tarde, acontecesse o que acontecesse, chegava o momento do terço. Era um compromisso inadiável. Muitas vezes interrompia qualquer atividade para rezar.

Aquilo me chamava a atenção porque revelava uma disciplina semelhante à que dedicava aos livros. A fé e a literatura conviviam harmoniosamente dentro dele. Jamais disputavam espaço. Ao contrário. Pareciam alimentar-se mutuamente. Lembro-me de um episódio que hoje ganha um significado especial. Convidei Carrero para o lançamento de Jenipapo Western, de Tito Leite, na Livraria Jaqueira, no Bairro do Recife. Nesse mesmo dia, aliás, pude expressar publicamente toda a minha gratidão ao que ele fez por mim. O vídeo está no meu Instagram

Assim que chegou, sorriu e brincou:

— Ney, só você mesmo para me tirar de casa justamente na hora do meu terço.

Disse aquilo sorrindo.

Mas bastava conhecê-lo um pouco para perceber que a brincadeira escondia uma verdade. O terço fazia parte da sua respiração cotidiana. Não por acaso, hoje, dia que completa um mês do seu falecimento, a igreja católica celebra Nossa Senhora do Carmo. Talvez seja apenas uma imagem construída pela saudade. Mas a fé também se alimenta dessas delicadas coincidências.

Os últimos anos revelaram outra dimensão da sua grandeza. Depois do AVC em 2010, ano  em que ele ganhou o prêmio São Paulo de Literatura com A minha alma é irmã de Deus, muitos imaginaram que sua produção diminuiria. Aconteceu exatamente o contrário. O corpo passou a impor limites. A vontade permaneceu intacta. Escrevia praticamente utilizando um único dedo. A imaginação, ainda bem, permaneceu potente. “Eu não escrevo, dou dedada”. Dizia, para o sorriso de todos. 

Cada página exigia um esforço que poucos de nós conseguiríamos suportar. Mesmo assim continuava escrevendo romances. Preparando aulas. Recebendo alunos. Lendo originais. Comentando manuscritos. Dando entrevistas. Participando de eventos literários.

Havia dias difíceis, claro. Umas dores que nunca o abandonaram. Sequelas da doença. Mas jamais permitiu que a doença definisse quem ele era. Carrero continuou sendo o grande escritor antes, durante e depois do AVC. A literatura parecia maior que qualquer limitação física. Foi talvez a demonstração mais contundente do seu compromisso com a escrita.

Durante a imensa exposição sobre a vida de Carrero, no Museu do Estado de Pernambuco, em 2018.

Essa força também foi ressaltada no último grande encontro que tivemos. Em novembro de 2025, durante o primeiro Festival Literário e Artístico de Fernando de Noronha — o Literarte —, no qual fui o curador. Tive a alegria coloca-lo como o grande homenageado do evento. Foi um dos momentos mais felizes da nossa amizade. Ver Carrero na ilha, conversando com leitores, distribuindo autógrafos, sorrindo ao lado de Marilena e sendo recebido com tanto carinho me emocionou profundamente.

A viagem para Fernando de Noronha parecia improvável, por conta das dores que ele já vinha sentindo de forma mais acentuada. Mas bastaram poucas horas para que ele também conquistasse aquele lugar. Era bonito perceber que, mesmo depois de tantas décadas de literatura, Carrero ainda conservava intacta a capacidade de se encantar.

Sem que soubéssemos, aquele seria nosso último encontro. Hoje essa lembrança ganhou um valor impossível de medir. Penso que Deus foi generoso conosco. Permitiu que nossa despedida acontecesse no paraíso.

Essa gratidão eu pude retribuir ainda mais ao longo dos anos escrevendo resenhas dos livros dele no Angústia Criadora e em diversos jornais. Carrero também escreveu bastante sobre o meu trabalho nas redes sociais e também nos jornais. O último foi no jornal Rascunho. Um luxo. A nossa afetividade era recíproca. Eu guardo tudo isso com muito carinho. 

Por falar em generosidade de Deus, preciso abrir um parentênse.  Os meus dois ídolos artísticos sempre foram Carrero e Ney Matogrosso. Eu sempre guardei a esperança de ter uma foto ao lado dos dois. Isso, infelizmente, nunca foi possível. Não dessa forma. Seria algo histórico para mim. No entanto, aconteceu algo parecido. O destino que Deus desenhou. Nos duzentos anos do Diario de Pernambuco, em 2025, fizeram um jornal especial, comemorativo. Uma resenha sobre o meu livro atual foi publicada. E colocaram lá no texto que dois ícones da cultura nacional elogiaram o meu trabalho. Ney e Carrero. Ou seja, nós três juntinhos na mesma linha. Daqui a cem anos, quando a cápsula do tempo do jornal for aberta, vão saber que nós três existimos neste planeta. Ao escrever este ensaio, me recordo de outro fato que tinha se apagado da minha memória. No Baile Municipal do Recife, em 2007, Ney foi o convidado especial do evento. Nesse mesmo dia, Carrero estava lá também, com Marilena. Ele foi o jurado do concurso de fantasias. Lembro de Raimundo com um smoking preto muito bonito. Quando ele entrou, eu o vi e o cumprimentei. Disse que o admirava. Era o seu leitor. Ele agradeceu e seguiu para o camarote ao lado da esposa. Isso foi antes da minha entrada na oficina. Ney e Carrero, os meus ídolos, no mesmo ambiente.

Neste primeiro mês de ausência, uma pergunta voltou inúmeras vezes à minha cabeça. Como esse homem conseguiu realizar tanto? Quanto mais penso na resposta, mais extraordinária sua trajetória me parece. Ele publicou romances que já pertencem definitivamente à história da literatura brasileira. 

Por isso, sempre me pareceu uma enorme injustiça que Raimundo Carrero nunca tenha ocupado uma cadeira na Academia Brasileira de Letras ou conquistado o prêmio Camões, o maior em língua portuguesa pelo conjunto da obra. Não porque precisasse desse reconhecimento. Sua obra nunca dependeu de instituições ou prêmios para existir. Mas porque a ABL teria se engrandecido com sua presença. Ainda assim, a literatura possui suas próprias formas de justiça. As academias e os prêmios elegem nomes. O tempo escolhe os escritores que permanecem. Cadê um caderno especial do Diário de Pernambuco sobre o legado dele? Esse jornal tão amado por Carrero, onde iniciou a vida como repórter e continuou escrevendo para o periódico até o seus últimos dias. É algo incompreensível. Enfim.

Tenho absoluta convicção de que, daqui a cinquenta ou cem anos, pesquisadores continuarão estudando Sombra Severa, Sinfonia para Vagabundos, O Amor Não Tem Bons Sentimentos, A História de Bernarda Soledade – A Tigre do Sertão, Somos Pedras que se Consomem, As Sombrias Ruínas da Alma, A Minha Alma é Irmã de Deus, A Vida é Traição, Estão matando os meninos e tantos outros livros dele. E quem desejar compreender os bastidores da criação literária encontrará em Os Segredos da Ficção, A preparação do escritor e A luta verbal, os livros mais importantes já escritos no Brasil sobre o ofício de narrar. Porque os grandes escritores nunca pertencem apenas ao seu tempo. Pertencem ao futuro. E Carrero, definitivamente, pertence a esse grupo.

Os últimos dias de Raimundo Carrero foram difíceis. Muito difíceis. A doença avançava lentamente, impondo limites ao corpo, mas nunca ao espírito. Cada visita era atravessada por um sentimento contraditório. Havia tristeza diante da fragilidade física. Mas também uma profunda admiração por perceber que, mesmo naquele momento, permanecia intacta a dignidade com que sempre conduziu a própria vida.

Notei a ausência de Carrero nas páginas do Diário de Pernambuco, que ele recentemente passou a assinar uma coluna aos sábados. Em dois sábados seguidos, no entanto, a coluna não saiu. Fiquei intrigado. Será que é por conta de matérias sobre a Copa do Mundo? Faltou espaço? Pensei. Liguei para ele no domingo, dia 14 de junho. Não atendeu. Só na segunda, dia 15, Marilena me mandou mensagem dizendo que ele estava internado havia uma semana. E já não falava mais. Fiquei sabendo que um câncer havia sido descoberto em estágio avançado, em metástase. Disse que não me falou antes, porque tudo tinha sido muito corrido. Essa descoberta foi um choque. Mas eu poderia ir visitá-lo. Fui naquele mesmo dia. No horário do almoço. 

Assim como Deus me permitiu acompanhar os últimos momentos do meu pai, também me concedeu a graça de estar ao lado de Carrero em sua despedida. Hoje vejo isso como um privilégio. Não porque tenha sido algo bom, pois foi uma das experiências mais dolorosas que já vivi. Mas por eu ter a oportunidade de, naqueles últimos instantes da vida dele, com Carrero já desacordado no tratamento paliativo à base de morfina, agradecer por tudo. Pelo amigo fiel que ele foi comigo. Agradeci em voz alta, chorando. Sem acreditar no que eu via.

Não sei se ele conseguiu ouvir todas as minhas palavras. Talvez sim. Talvez não. Mas eu precisava dizer. Precisava que meu coração não guardasse nada em silêncio. Naquele quarto compreendi que as palavras “gratidão” e “obrigado” também podem ser uma oração. Nesse momento de intimidade, estavam comigo a minha esposa Karla e a  funcionária dele e Marilena, Juracy. Fiquei arrasado. Eu sabia que o fim estava ali, naquele leito de hospital com vista para o Capibaribe. O mesmo rio que ele usou tantas vezes em seus romances. 

Às 4h53 recebi uma mensagem de Marilena. “Ney, Raimundo faleceu”. Frase simples e curta, mas com a intensidade de uma bomba atômica. Fiquei realmente aturdido. Sem palavras. Depois veio o velório, na Academia Pernambucana de Letras. Ainda hoje encontro dificuldade para escrever sobre aquela manhã. Carrero estava vestido com um terno escuro. As abotoaduras douradas. A barba cuidadosamente organizada. As mãos repousavam sobre o terço de madeira.

Havia uma serenidade impressionante em seu rosto. A minha primeira sensação foi de irrealidade. Parecia que ele apenas dormia. Aproximei-me lentamente. Toquei sua mão. Era a primeira vez, em tanto tempo de convivência, que não havia calor naquele gesto.

Naquele instante a razão finalmente alcançou o coração. Meu mestre havia partido. A sala onde aconteceu o velório era rodeada de quadros com fotos dos ex-presidentes da APL. Alguns acadêmicos e amigos falaram em homenagem a Carrero. Fui um deles. Eu não quis falar, por estar sem condições, a voz não suportava o embargo do choro. Mas acabei dizendo algumas palavras mesmo assim. Logo depois, o cortejo seguiu para o Cemitério de Santo Amaro.

Era fim de tarde. O céu do Recife parecia pintado em tons suaves, como se a própria cidade tivesse diminuído o ritmo para acompanhar sua despedida. Os pássaros cantavam. O vento atravessava as árvores do maior cemitério da cidade. Tudo possuía uma beleza difícil de explicar. Às vezes a natureza escolhe justamente os dias mais bonitos para receber aqueles que mais a honraram em vida.

Fomos acompanhando o carro funerário. A poeta Cida Pedrosa se apoiava em meu braço. O amigo Cícero Belmar seguia um pouco à frente. Da mesma forma que Valdir Oliveira. Outro querido amigo. Além de familiares, outras pessoas e uma equipe de TV. Cida falava para nós, “a gente está indo sepultar o maior escritor de Pernambuco.” Penso que Carrero foi até muito mais. Para mim, ele está entre os maiores do nosso continente, quiçá do mundo. Mais uma vez. Não falo isso por fanatismo ou algo do tipo. Falo pela qualidade do que ele produziu.

Caminhamos devagar, com o silêncio sendo quebrado por pouquíssimas observações entre nós. Nenhuma palavra parecia necessária. Chegamos ao jazigo. Quando o caixão foi retirado do carro funerário, aproximei-me espontaneamente. Segurei uma das alças. Outros fizeram o mesmo. E então aconteceu um dos gestos mais difíceis que já vivi. Ajudei a colocar o caixão de Raimundo Carrero em seu descanso definitivo. Cida Pedrosa, vendo a cena, disse assim: “ele merecia um túmulo. Um memorial pela importância dele”. Ela falou isso porque Carrero foi colocado em uma gaveta simples, na altura do chão. Cícero Belmar escreveu uma crônica e intitulou de Um chão para Carrero. Há imagens que nunca abandonam a memória. Essa vai ser uma delas. Durante essas últimas semanas pensei naquele momento apenas como uma despedida. Hoje prefiro entendê-lo de outra forma. Foi o último gesto que pude prestar ao homem que, durante tantos anos, ajudou a construir o escritor e o ser humano que procuro ser. 

A divulgação sobre a morte de Carrero movimentou, como eu nunca tinha visto antes, as redes sociais e a imprensa local e nacional. Foram centenas de fotos de pessoas que tiveram algum contato com ele, declarações, depoimentos na mídia. Todos lamentando a perda. Tantas mensagens lindas. Tanta gratidão. Gente que eu nem imaginava. Todos tinham algo a dizer. Uma lembrança. Um conselho. Um aprendizado. Foi incrível. Marcelino Freire quando ficou sabendo do falecimento por volta das sete da manhã, não conseguiu sair da cama até o meio-dia por conta do peso da notícia. Ele, que fez parte da primeira oficina de Carrero. A impressão que eu tive é que Raimundo foi presente na vida de uma multidão. No meu Instagram só um assunto reinava. E eu também recebi dezenas de pêsames. Me pergunto mais uma vez: como Raimundo Carrero conseguiu ser tantos? 

Naquele momento do enterro, no entanto (também no velório), acho que umas vinte ou trinta pessoas acompanharam os ritos finais. Nenhuma autoridade pernambucana estava presente. A escritora Conceição Rodrigues falou algo interessante para mim. Estavam lá,nesses momentos, quem o amou profundamente. Claro que muita gente não pôde ter ido. Esse fato diz muito sobre o aspecto religioso dele. 

Voltei para casa atravessando um Recife diferente. As ruas eram as mesmas.

Uma das fotos que eu mais gosto dele

Os edifícios. As pontes. O rio. Os bares. As igrejas. Mas tudo parecia carregado de ausência. Foi então que compreendi algo que Carrero havia me ensinado sem jamais transformar em lição. As cidades também guardam seus mortos. Passei a reconhecer sua presença em muitos lugares. Até mesmo caminhando pelas ruas do centro, às vezes me surpreendo imaginando que ele surgirá na esquina seguinte, carregando um livro debaixo do braço e sorrindo antes de iniciar mais uma conversa.Talvez seja esse o verdadeiro significado da permanência.

Durante este primeiro mês quase não consegui ler. Tentava começar um livro. Parava. Abria outro. Também abandonava. Foi, ainda naquele primeiro dia da sua morte, que voltei aos livros dele. Percebi que já não os lia apenas como leitor. Lia para reencontrá-lo. Cada página devolvia um pedaço da sua voz. Lembrava exatamente da entonação com que comentava determinados trechos. Recordei suas pausas. Os silêncios. As gargalhadas. Era como se a leitura devolvesse, por alguns instantes, a ilusão da convivência. Foi então que compreendi plenamente uma frase que tantas vezes ouvi dele. “Morre o homem. Permanece a obra.” 

Permanece, sim. Mas permanece também tudo aquilo que a obra transforma. Permanece o modo de ler. O modo de escrever. O modo de olhar o mundo. Permanece a influência sobre centenas de escritores e leitores espalhados pelo Brasil. Permanece a generosidade. Permanece o exemplo.Permanece o afeto. Carrero permanece presente. Por inteiro.

Essa foto feita por Fred Jordão retrata bem o aspecto misterioso dele

Às vezes me pergunto qual foi o maior ensinamento que recebi dele. Poderia responder que aprendi a construir personagens. A organizar cenas. A compreender a estrutura do texto. Tudo isso seria verdade. Mas existe uma lição maior. Carrero ensinou que literatura não é vaidade. É entrega. Não é competição. É partilha. Não é talento apenas. É disciplina. É trabalho. É humildade diante da página em branco. Ele não formava escritores apenas ensinando técnicas narrativas. Formava leitores da alma humana.

E talvez seja exatamente por isso que tantos de seus alunos seguiram caminhos tão diferentes entre si. Carrero nunca quis discípulos. Quis escritores. Essa diferença explica a grandeza do mestre. Costuma-se dizer que algumas pessoas passam pelo mundo. Outras deixam marcas. Raimundo Carrero deixou caminhos.

Talvez seja impossível medir quantos escritores existem hoje porque, em algum momento da caminhada, Raimundo Carrero lhes estendeu a mão e jogou lenha no fogo da paixão pela literatura.

Escrever este texto também foi uma forma de permanecer mais algum tempo ao lado dele. Enquanto escrevia, voltei aos lugares onde nossa amizade aconteceu. Percebi que escrever continua sendo a maneira mais bonita que encontrei para agradecer. Escrever é a forma que tenho de honrar seu legado.

Não sei quantos anos serão necessários para que a literatura brasileira compreenda plenamente a dimensão de Raimundo Carrero. Talvez décadas. Talvez um século. Os grandes escritores raramente pertencem ao seu próprio tempo. Eles seguem caminhando muito depois da própria morte. Tenho absoluta convicção de que novas gerações descobrirão seus romances, estudarão sua obra, montarão peças de teatro, realizarão filmes, escreverão teses, dissertações e artigos sobre seus personagens. Porque a verdadeira literatura nunca envelhece. Ela apenas encontra novos leitores.

Hoje, um mês depois, finalmente compreendo: Raimundo Carrero está por aqui. Nos livros, na memória dos amigos, nas centenas de escritores que ajudou a formar, permanece no Recife, que reinventou pela ficção. E permanece, sobretudo, na gratidão de todos aqueles que tiveram o privilégio de conviver com ele.

A convivência terminou. A amizade não. Porque todas as vezes que eu me sentar diante de uma página em branco, procurando a palavra exata e qual caminho seguir, ouvirei novamente sua voz dizendo que a literatura exige coragem, verdade e entrega. Exige suor. Exige falta de medo. 

Para mim, Raimundo Carrero foi um sonho. Um daqueles sonhos raríssimos que Deus permite viver apenas uma vez. Na minha vida, Carrero foi um anjo. 

Mestre e amigo Raimundo Carrero. A minha eterna gratidão.  

Você sempre estará perto de mim. 

One thought on “A saudade de um mestre que continua presente”
  1. Ney, que depoimento emocionante. Revivi muita coisa. Seu texto honra a verdade de Carrero. Lhe agradeço por mais esses momentos de reminiscências e reflexões. De literatura. É um texto onde você deu testemunho do que aprendeu com Carrero em coragem, verdade, entrega e capacidade de pegar o leitor pela mão e fazer com que não consiga largar a leitura até o fim.
    Viva Carrero. Parabéns a você.
    Abraço afetuoso e grato

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