
Por Ney Anderson
Uma delicada coleção de ausências (Cia das Letras), de Aline Bei, é um livro onde as palavras caminham na corda bamba do silêncio e da ausência. Há nele algo do universo circense: não apenas pelo passado que ronda a narrativa, mas pelo modo como a linguagem se equilibra entre o que é dito e o que permanece suspenso. As frases dançam, tropeçam, retomam o fôlego. O texto respira, convidando o leitor a respirar junto naqueles intervalos entre uma frase e outra.
A obra coloca no centra da trama três personagens: Filipa, Margarida e Laura. Respectivamente, bisavó, avó e neta. Na abertura da obra, o prólogo, acompanhamos o retorno de Margarida à casa da mãe após uma desilusão amorosa com o ex-companheiro dono do circo. Esse movimento inicial já anuncia o eixo central do romance: o voltar como quem tenta recolher pedaços, revisitar ausências, encarar lacunas que nunca se fecharam. Nada ali é direto. Tudo acontece em camadas, como algo que encobre, mas também revela aos poucos.
Não por acaso, na primeira parte, intitulada “A névoa”, logo depois do epílogo, Margarida já é avó e cuida da neta Laura. Glória, filha de Margarida e mãe da menina, existe apenas como ausência. Um vazio que organiza (e também desfaz, de certo modo) toda a narrativa. Glória é menos personagem e mais sombra, uma presença que atravessa gestos, silêncios e perguntas sem resposta. A ausência, aqui, não é falta: é força estruturante do romance.
Margarida ganha a vida lendo mãos. O passado em uma, o futuro na outra. Esse gesto simbólico ecoa o próprio livro: vidas que são lidas nas linhas da pele, nos pensamentos interrompidos, nas situações mínimas que o cotidiano oferece. Aline Bei constrói uma narrativa feita de pausas, de silêncios, de frases que fogem completamente do óbvio. Nada ali é explicativo demais. Pelo contrário: há uma confiança radical na inteligência sensível do leitor.
As personagens de Uma delicada coleção de ausências carregam marcas profundas. Cada uma à sua maneira, todas atravessadas por cicatrizes. A poesia tão bem trabalhada pela autora se infiltra na alma delas. A escolha pela forma narrativa é sempre muito original nas linhas de Aline Bei. Aqui, há muito a presença do teatro: falas precisas, gestos calculados, movimentos singelos que revelam mais do que grandes acontecimentos. Os diálogos são a alma do romance. Diálogos que muitas vezes dizem mais pelo que calam do que pelo que afirmam.
Aline Bei esmiúça a história de cada personagem com leveza e, ao mesmo tempo, com potência. O leitor entra de corpo inteiro na vida dessas três gerações de mulheres: Margarida, Glória (mesmo ausente) e Laura. A autora já demonstrava domínio desse tipo de escrita em O peso do pássaro morto, continuando com Pequena coreografia do adeus. Mas aqui, nesta nova obra, a autora alcança um ápice narrativo. Tudo está mais contido, mais preciso, mais dolorosamente bonito. Mais denso.
O elemento gráfico, marca da escrita de Aline, aparece novamente com força. As vírgulas inchadas pontuam a respiração, anunciam o que está por vir. A narrativa não para: segue em ritmo de suspensão e tensão, como se algo estivesse sempre prestes a acontecer. A sensação é a de um eterno fim de tard. Aquele momento em que a luz começa a cair, mas a noite ainda não chegou.
No meio do livro, a mãe de Margarida, Filipa, entra em cena após uma longa ausência. Sua presença reorganiza o passado e reabre feridas antigas, especialmente ligadas ao circo, um espaço presente apenas na memória de afetos mal resolvidos, de sonhos interrompidos, de vidas que poderiam ter sido outras. São histórias longas, com dicção muito particular. Aline empilha palavras, constrói desconfortos, expõe impaciências, instala um olhar que vigia e pesa constantemente.
Laura, a menina, observa tudo. Ela é figura central e determinante na obra. Seu olhar passeia por fantasmas. Laura tenta se inserir nas brechas que o dia a dia permite, entre as duas gerações: da avó e da bisavó. Na primeira parte, tudo parece encoberto; na segunda, “Os animais que não deram certo”, a narrativa assume uma falsa terceira pessoa que amplia ainda mais a compreensão das vidas dessas mulheres. As diferenças entre elas ficam mais evidentes, assim como os gestos que aprisionam, as heranças invisíveis, as sombras transmitidas de geração em geração. É importante ressaltar a figura de Camilo, companheiro de Margarida, que está presente como uma estranha mola que impulsiona elementos fundamentais para a elaboração dessa história. Ele faz parte da engrenagem que ajuda a girar a trama, de maneiras pontuais, mas que ajuda a levar o texto ao paroxismo, ao ponto mais tenso e surpreendente da obra.

Uma delicada coleção de ausências é um livro que anda na corda bamba entre a esperança e o segredo. Há memórias por todos os lados: principalmente nas coisas de Filipa, em objetos de outra época, em pequenos sinais espalhados pela casa. São personagens soturnas e delicadas, carregadas de passado, que observam para além da superfície.
É possível dizer que esse romance é atravessado pela saudade e por segredos camuflados que Glória, a mãe de Laura, deixou. Ninguém sabe o paradeiro dela. Há coisas que, quando ditas, perdem ainda mais volume do que quando permanecem no silêncio. E Aline Bei compreende profundamente essa lógica: o não dito como potência narrativa.
Na última parte, “O impulso”, toda a delicadeza construída ao longo do livro se transforma em impacto. É um verdadeiro soco no estômago. A autora vira o espelho para o leitor e revela a outra face do humano: aquela que desmonta idealizações, que mostra que beleza e bondade existem apenas até certo ponto, sob determinada perspectiva. Depois disso, resta encarar a ilusão.
Uma delicada coleção de ausências é um livro sobre vidas que seguem, dia após dia, sustentadas por pequenas surpresas que a existência impõe. É um romance de poucas personagens secundárias, mas todas fundamentais. Laura, em especial, atravessa descobertas da infância e da pré-adolescência enquanto, ao redor dela, todos também estão descobrindo algo sobre si mesmas e sobre o mundo.
No fim, a sensação que fica é a de termos lido uma partitura: a vida como música sendo tocada por um destino incerto. Um livro profundamente emocionante, sutil, delicado, que observa tanto os espaços físicos quanto os estados internos das personagens. Um livro de ausências. Justamente por isso, cheio de presença.
Aline Bei reafirma, aqui, sua força como uma das vozes mais singulares da literatura brasileira contemporânea. E deixa no leitor algo que permanece depois da última página: um silêncio cheio de ecos.
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