Em Avesso da Saudade, a escritora e cantora Ana Areias reivindica um lugar de resistência estética e afetiva para a poesia

Por Ney Anderson

Em sua primeira obra poética, a escritora e cantora Ana Areias apresenta poemas com escritos inéditos e textos já apresentados anteriormente na internet. Em Avesso da Saudade (Amélie Editorial), a poeta reivindica para a poesia o lugar de resistência estética e afetiva. “Enquanto segue a epidemia de maldade e os sustos perdem cada vez mais seu elemento surpresa, insistiremos em ser a resistência da empatia desvalorizada”, proclama Ana Areias no poema “Malucos Amáveis”. A obra é publicada pela editora Amelie e inclui ilustrações de Sofia Lobo. São 60 poemas, divididos em cinco partes, com 89 páginas no total.

A narrativa poética de Ana Areias aborda o deslocamento permanente da autora entre vários pontos de vista durante uma viagem inusitada na qual visita e percorre lugares comuns como uma casa, um jardim e uma estrada. Em sua trajetória, Ana Areias tenta desvendar a si mesma e o mundo que habita. Uma janela, uma pedra, um móvel e o próprio caminhar podem ser meios para a poeta desbravar conexões em sua memória entre momentos esquecidos e outros ainda não vividos, ou para imaginar como ocorrem os encontros entre as pessoas. “O amor começa na encruzilhada de vidas alheias que nos colocam em suas rotas de alguma maneira”, suspeita a poeta em “Brotos”. É um livro que desenvolve em cima de uma narrativa, com os poemas se interligando em uma grande história.

A autora incorporou só recentemente a poesia em sua produção, até pouco tempo atrás desenvolvida toda em prosa. Mas, com a intensificação da criação de canções para o seu trabalho autoral como cantora, a artista passou a levar a abordagem em verso para dentro de sua escrita literária, que vem se tornando cada vez mais musical. O título do livro, inclusive, é o nome de uma de suas canções, o que dá pistas da intertextualidade da obra. Em Avesso da Saudade, Ana Areias mostra a convergência estética de três rotas criativas.

Avesso da Saudade fala sobre o fazer-se indo, sobre sair do lugar, pegar a estrada da vida e se construir nesse processo. Fala sobre o encontro consigo e com o outro e sobre como essa percepção de uma via paralela, mágica, do caminho vai deixando marcas em nós. “O livro segue um roteiro de sensações, como a Ignição do primeiro capítulo que fala muito desse voo primeiro, da vontade de sair do lugar, de alcançar esse mundo paralelo cheio de simbologias, o terceiro acostamento das peregrinações da vida”, diz a autora.

A poesia de Ana subverte os rótulos, vai na direção do encantamento dos sentidos, se transformando (transfigurando) constantemente, onde a poeta se transforma em todas, mas verdadeiramente em uma só, mais completa, reflorescida. As ilustrações de Sofia Lobo dão essa compreensão nos poemas.

O livro transcende pela ludicidade do que está sendo contado e mostrado, exprimido em sentimentos. O alter-ego da autora dividido em várias faces. Ela não busca a rima simplória, mas a sensação de causa e efeito de uma vida encoberta por nuvens densas que se dissipam no verso seguinte. Cada final de dia também é uma espécie de morte.

Livro é o primeiro trabalho publicado de Ana, depois de vários anos atuando como cantora e compositora

Avesso da Saudade é recheado de liberdade e ensinamentos que a poeta-narradora vai tendo no caminho do seu percurso literário. É um livro composto por muito afeto.  O lúdico, o lírico e a fábula se complementam. A perfeição reside nas esquinas, nas imperceptíveis transversais dos sentidos. E essa mulher de partidas, tal qual uma Alice no País das Maravilhas, vai descobrindo coisas no caminho, vivendo pelo fio invisível do desconhecido. Sem razão, por pura emoção, acumulando retratos na memória.  

Desejo, paixão e erotismo também estão contidos neste pequeno grande livro. O encontro dos prazeres através do espírito livre que cura a alma. Mas não antes dos tropeços e quedas, forçando a poeta seguir sempre em frente. Observando a si mesma por outros ângulos, se compreendendo de várias maneiras, se metamorfoseando e perdendo o medo do trajeto.

É um livro de renascimento e descobertas de novos tempos. Com perigos e armadilhas escondidas no caminho, mas sobretudo nos laços construídos pelas palavras, em versos sensitivos. No decorrer das páginas, os poemas vão naturalmente se adensando, mostrando a segurança de alguém que entende o caminho como o destino sem volta, o desabrochar para algo maior, entendendo o propósito de sair do lugar. “Melhor capturar as cores dos revezes e fazer tudo o que é o oposto brilhar”, diz determinado poema.

É o reflorescer a partir da resistência e na entrega da partida, seguindo a voz da própria consciência. São poemas que polinizam o viver, onde o amor, essa energia transcendental, vai sendo descoberto aos poucos.

A poesia de Ana Areias se apresenta imagens fortes, onde é possível sentir as formas, os cheiros, ouvir os sons e escutar os pensamentos da personagem em seu road movie de emoções, construído em determinados momentos de uma forma onírica, com os sonhos se misturando com o hiper-real. 

Com observações de extrema sensibilidade, a poeta se faz e refaz, em busca de novos destinos. Sem direções pré-determinadas, se deixando levar, acalmando os próprios tormentos. Mulher que cansa e descansa. Se despedaça, revivendo das sobras de si mesma, tendo a poesia como sua força motriz.  São frases e versos que sintetizam o estado de renovação constante, sempre em movimento, dando sentido às coisas aparentemente banais. Espiando por frestas, ela vai se descobrindo infinita.  Observa as moradas ao longo do percurso a partir da sua visão de liberdade. Percorre os lugares e as imagens vão ficando cada vez mais claras. Avesso da Saudade, escrito de forma firme e segura, torna o leitor cúmplice ao longo da  jornada poética.

O livro não subverte a forma, mas evidencia-se pela ludicidade do que está sendo contado e mostrado, exprimido em sentimentos. O alter-ego dividido várias faces. Ela, a poeta dessas linhas imaginárias, produz a sensação de causa e efeito. Ao final do percurso, na experiência adquirida do decorrer do caminho, o leitor entende que nada é por acaso, que as circunstancias são criadas e os trajetos construídos. E o que resta é o avesso apertado da saudade daquilo que não finda jamais, e do qual vale a pena viver, mesmo com as pedras que a vida impõe no meio do caminho.

Rugosidades

Pois tudo o que é fecundo e dói,

um dia, prazerosamente, renasce.

No outro, se desmancha, arrefece.

Depois se transplanta, entranha.

Para finalmente ecoar

nas rugosidades que o tempo

deixa estar

SERVIÇO

Título do livro: Avesso da Saudade(Amélie Editorial)

Valor: R$ 40 (versão física), R$ 24,99 (e-book, disponível na Amazon)

Onde comprar: Pode ser adquirido diretamente com a autora, através do Instagram@anaareias ou pelo e-mail anamariaareias@gmail.com. O livro está disponível também nas livrarias Jaqueira e da Praça, no Recife

Clip da música Flaneur, inspirada no poema que abre o livro: 

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