“Verão”, de Nivaldo Tenório, é a metáfora da degradação das relações humanas

Crédito da foto: Ney Anderson

Por Ney Anderson

É inevitável pensarmos no verão e não o colocarmos como algo festivo, alegre e ensolarado. Mas, quanto de verão mesmo existe no íntimo das pessoas para além da superfície, mais profundamente do que apenas os olhos conseguem ver? Obviamente que o Verão (Cepe Editora), de Nivaldo Tenório, com dez contos, não é de forma alguma uma estação luminosa. É até interessante, pois essa ideia de luz, no entanto, existe justamente para iluminar o outro lado: os fantasmas que os personagens carregam.

Já sabemos nas primeiras páginas da obra, no entanto, que a alegria fincada muitas vezes sob a ideia da luminosidade pertinente possa sugerir está muito mais ligada à ferrugem, à degradação, do que meramente à felicidade pura e cristalina, insinuada simplesmente através dos raios do sol. Pois neste Verão há o subterrâneo nas histórias do autor.
São contos, sobretudo, estruturados para passar a noção de continuidade, do que não ficou totalmente exposto, explícito, ao olhar meramente superficial, do que está lá embaixo exatamente no submerso, nas profundezas desse oceano misterioso chamado vida. Os textos têm o recorte temporal muito bem trabalhados. Atravessamos as histórias, por vezes, em vários tempos, não apenas o presente ou passado.

No conto “Tsunami”, por exemplo, os personagens parecem procurar o infinito. Aqui, a narrativa é em primeira pessoa, onde o leitor acompanha a viagem de uma família até a praia, com os pensamentos do jovem protagonista ditando o ritmo e mostrando como está sendo a companhia dele com os pais e o amigo. Neste conto, a suposição por algo estranho passa a rondar. Nesse verão de expectativas, é à espera por algo nunca totalmente realizado, dentro de um clima de suspense, do não dito, apenas pelas suposições. O verão como expectativa.

Nivaldo Tenório publicou, além de “Verão”, os livros “Dias de febre na cabeça” e “Ninguém detém a noite”.

No “O jardim de Laura” o texto é conduzido pelas vozes de Laura e do marido Ivan. Ela tenta se recuperar de um colapso, enquanto o outro suporta esse alguém que está perto do fim. Entra ainda a história do filho deles, Júlio . Esse é um conto com muitas mortes, povoado por lembranças, em cenas de um cotidiano por vezes desgastante, com a construção de um excelente espaço-tempo narrativo dessa família fragmentada.

“Houdini” é um conto com ares distópicos, onde o toque de recolher é uma realidade para a população. Personagem cheio de segredos e mistérios, Houdini, o mágico, não por acaso desaparece da vida da mulher com quem havia se relacionado rapidamente, deixando o filho dele com ela.

Os contos de Nivaldo têm no jogo de palavras às vezes mais de um ponto de vista nas histórias, sempre dando a densidade necessária para as vidas que o autor apresenta. Nessas camadas de significados, de gente que vive atrás de espelhos de si mesmo, nunca se encarando totalmente. Talvez para permanecerem no estranho segredo da alma que os rodeia.

Em “Cata-vento” as mortes se sucedem, ambientado numa época de pestes e pandemias, mas também onde existe a esperança da luz no fim do túnel. É a história da família que vai sendo destruída aos poucos, começando pelo afastamento de um irmão. O rastro de dor e ruínas nesse conto é parte deles mesmos. Os ventos metafóricos ou reais, explicitado no título, que arrasam famílias. Os furacões do dia a dia, das desgraças que sempre estão à espreita, sem o menor poder de controle humano, com a natureza fazendo o seu próprio percurso destruidor.

Um calor exasperante do tipo que nos impede de respirar podia ser sinal de chuva, mas o céu de verão estava nu. Mas tanto faz dia ou noite, é sempre verão.

Os contos de Verão têm muito de religiosidade, do sagrado e do profano entranhado no humano e da ligação, alguns deles, ao sobrenatural de fato, como no “Domenico”, que mais parece uma novela, sobre o homem que recebe esse nome justamente por conta de algo bíblico. Esse personagem é um artista frustrado. Neste texto, as pessoas que simplesmente desaparecem do convívio uma da outra, como o próprio personagem título deste conto recheado por muita memória, mostrando o tempo que se esvai. Uma narrativa que prende a atenção do leitor já no início.

“Míchkin” nos mostra um personagem feito de silêncio, que perde o senso da realidade. O autor ironiza com mais acidez o aspecto da luz, que afinal de contas é capaz de cegar se for metaforicamente, e literalmente, em grande escala. Já em “Uma carta”, um dos últimos contos do livro, conhecemos o jovem soldado que escreve uma carta à mãe contando dos seus dias no quartel. Não por acaso, nos contos finais como neste, a ideia de sol (o verão), vai saindo e dando lugar às nuvens que começam a cobrir o céu desses personagens todos do autor, se transformando em uma claridade difusa, opaca, desvanecendo com o passar dos dias, perdendo totalmente a tentativa de brilho (de salvação) de outrora.

No conto-título, “Verão”, a personagem cresce sem irmãos ou primos. A sua casa acaba virando um refúgio às avessas na pandemia, quando a convivência da família assume contornos trágicos. Neste texto se percebe claramente a natureza do bem e do mal, que engana os sentidos, com pessoas de uma fé estranha e totalmente corroída que os leva para o abismo. Em “Peso ou mola” as relações são povoadas por ervas daninhas, por relacionamentos distanciados. No último conto, “Lúcio”, ambientado nos tempos terríveis da repressão militar, um dos personagens dá fim à própria vida, provocando a confusão mental no irmão que ficou.

Ao término do livro, resta uma sensação incômoda difícil de explicar durante, e após, a leitura da obra. Talvez seja por conta dos personagens em um perigo latente, onde o autor vai urdindo as linhas imaginárias das relações humanas desgastadas. Sempre com essa coisa estranha suspensa no ar, no abafado imaginário e com o sinal de chuva fora de estação, de algo que vai mudar para pior a todo instante.

Logo de cara, na capa, o leitor se depara com restos de uma geladeira enferrujada fincada em uma praia desértica. Portanto, um utensílio doméstico que não serve mais para nenhum tipo de uso. É desse deserto da alma dos personagens, aliás, que os contos se desenrolam. A ficção de Nivaldo mostra justamente a vida e os sentimentos corroídos dos personagens.

A célebre abertura de Ana Karenina, umas das frases mais potentes da literatura mundial, que Tolstói teve a enorme felicidade em criar, iluminando a mente de leitores sobre a falácia das aparências artificiais, poderia ser tranquilamente a epígrafe deste ótimo “Verão”, de Nivaldo Tenório: “Todas as famílias felizes se parecem. As infelizes, são infelizes cada qual a sua maneira”.

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