
Por Ney Anderson
A literatura de Mailson Furtado carrega, desde sua consagração com o Prêmio Jabuti 2018 por À Cidade, uma marca muito própria: a capacidade de transformar o território físico e afetivo em linguagem. Em Litígio, seu movimento em direção ao conto não representa ruptura, mas expansão. A poesia não ficou para trás; ela infiltra cada linha, cada silêncio, cada gesto mínimo das narrativas.
O livro se constrói como um mosaico de 16 histórias atravessadas por um sertão onde o real e o fantástico não se opõem. Antes, coexistem de maneira orgânica. Essa fusão parece nascer menos de um exercício deliberado de imaginação e mais da oralidade viva, do modo como o sertão narra a si mesmo. Há algo de ancestral nessas vozes, como se cada conto fosse também escuta. O pescador que conversa com as águas, o vendedor de picolé que vende futuros, o homem que desaparece sem explicação. Todos habitam um espaço onde o insólito não causa estranhamento, apenas prolonga a realidade.
A linguagem é um dos grandes triunfos do livro. Mailson trabalha com um registro profundamente enraizado na fala do interior, mas evita a armadilha da caricatura. Não há exotização: há precisão. Os personagens: da lavadeira à figura errante de Manoel, carregam o sertão inteiro não porque “representam” um tipo, mas porque falam desde dentro dele. Essa autenticidade vem de uma escuta atenta e de uma elaboração poética que transforma o cotidiano em matéria simbólica.
As narrativas, embora específicas: uma criança que se afoga, um velório que altera a paisagem emocional de uma rua, um menino que pesca mais memória que peixe, alcançam uma dimensão universal. O que emerge dessas histórias é uma verdade humana profundamente ligada ao tempo: a perda, a saudade, a permanência das ausências. Em muitos contos, o “litígio” não é apenas social ou externo, mas íntimo. Um embate entre o que foi e o que já não pode ser recuperado.
Essa tensão aparece com força em “A rua única”, talvez o conto mais tocante do livro. Nele, o retorno ao passado se revela impossível, restando apenas fragmentos. Fotografias, lembranças, rastros. A escrita, fragmentada e em versos, reforça essa sensação de busca interrompida:
“Arrasto passos entre as ruas da cidade curta
insisto falas com quem por mim passa.
guiam-me à rua única.
à fotografia
que não mais”
Aqui, como em outros momentos do livro, percebe-se a herança direta da poesia. Mailson não abandona o verso; ele o dilui na prosa. O resultado é uma escrita híbrida, marcada por ritmo, elipse e imagens condensadas. Se houve algum “desaprender”, foi apenas o necessário para permitir que a narrativa respirasse, sem abrir mão da densidade lírica.
Os conflitos que atravessam Litígio , sejam familiares, sociais, existenciais, raramente explodem em grandes acontecimentos. Eles se insinuam nos detalhes: na dívida paga na bodega, na rotina de Dalva varrendo ruas, na promessa adiada de um amanhã que nunca chega. “Pra que servem as tardes?”, questiona um personagem. A pergunta ecoa como síntese do livro: um questionamento sobre o tempo, sobre o que fazemos com ele, sobre o que ele faz de nós.
O sertão de Mailson não é cenário. É linguagem, memória e força vital. Sua experiência como agente cultural e homem de teatro também se faz sentir. Há um senso de coletividade, de circulação de vozes, de histórias que pertencem a muitos. As “conversas à beira das calçadas” que atravessam o livro são, ao mesmo tempo, íntimas e comunitárias.
Ao fim, Litígio parece propor ao leitor uma pergunta silenciosa, mas persistente: como lidar com aquilo que permanece em nós mesmo depois de desaparecer? Entre tragédias sussurradas, afetos contidos e lembranças que insistem, Mailson Furtado constrói um livro que não apenas narra o sertão. Ele o faz pulsar, em toda sua complexidade e humanidade.
