A grandiosidade de José Saramago pelo olhar sensível de Pilar del Río

Crédito da foto: Sebastião Salgado

Por Ney Anderson

Uma leitura que deixa qualquer leitor completamente envolvido . Impossível não sair de Intuição da ilha (Companhia das Letras), tão lindamente escrito por Pilar del Río, sem se tornar um pouco mais admirador de José Saramago e da obra dele. Pilar conta em saborosos capítulos como foi a vida do autor durante os dezessete anos da vida deles em Lanzarote, nas ilhas Canarias, arquipélago espanhol perto da África,  local onde o autor escreveu 25 livros nesse período. Inclusive, produzindo até bem pouco tempo antes de morrer, em 2010.

A intuição da ilha nos apresenta o homem e o escritor com a mesma grandiosidade. “A Casa”, local construído sob medida para o autor português morar com a esposa, foi praticamente uma personagem. Lá esse se refugiava em meio às várias obras da sua biblioteca, pensava nas ficções futuras, lia bastante e recebia amigos do mundo inteiro, incluindo artistas e políticos. A biblioteca, aliás, foi pensada para ser um local de encontro, afeto e união.

Saramago foi um simpático anfitrião, como percebemos durante a leitura. Ele tinha, inclusive, enorme respeito pelos jornalistas (como fica explícito na obra em um capítulo), que sempre o solicitavam para entrevistas e iam até Lanzarote debater com o Português. O escritor tinha principalmente enorme respeito também pelos leitores e pelas pessoas que queriam adaptar os seus trabalhos ao cinema ou teatro.

Além disso, José foi um grande humanista. Viajou bastante apoiando um sem fim de causas sociais, porque se revoltava com, justamente, a falta de humanidade de certos governos, de certos modos de pensar o mundo que não incluía os menos favorecidas em suas políticas públicas.

No escritório da sua casa em Lanzarote

Um fato curioso, entre tantas passagens curiosas, é Pilar del Río contar que Saramago não conseguia passar mais de duas semanas n’Acasa, por conta dos tantos convites de palestras, lançamentos e eventos diversos ao redor do planeta. Mesmo antes do Nobel, em 1998, ele já era celebrado no mundo e fazia questão de estar perto de quem o queria por perto. No Brasil, por exemplo, ele vinha sempre e fazia questão de visitar os amigos, como Jorge Amado. Essa característica de Saramago em ser solícito, talvez tenha sido por ele ter enfrentado tantas coisas para afirmar a sua arte, como deixa supor Pilar nas muitas histórias contadas no livro, não apenas durante o período em Lanzarote.

José Saramago e Jorge Amado na Bahia

Algumas coisas  chamaram atenção nas observações de Pilar sobre o marido. A primeira delas: o amor dele aos livros. O projeto da biblioteca na Casa veio primeiro, depois todo o resto da residência. Segundo, a maneira como ele pensava nas histórias que iria escrever. Quase sempre as ideias surgiam em coisas bem corriqueiras, mas que ele segurava com as duas mãos quando percebia que poderia desenvolver algo importante a partir das primeiras impressões e tinha a preocupação em fazer daquelas histórias uma poderosa fonte de reflexão. Foi assim, por exemplo, com ‘Ensaio sobre a cegueira”, “Todos os nomes”, “O evangelho segundo Jesus Cristo”, “Caim” e “A viagem do elefante”, entre outros.

Crédito: Armando Franca

Por último, mas não menos importante, impressionou muito em A intuição da ilha o enorme respeito que ele tinha por quem estava começando no ofício da escrita. Ele lia os mais jovens que o procuravam, recebia-os com carinho, ajudava, tentava dar um norte aos iniciantes etc. Tanto que deixou criarem uma fundação com o seu nome para servir de auxílio aos novos escritores. Também pensou em fazer da sua Casa uma residência literária. Isso, infelizmente, ele não teve tempo de fazer.

Enfim, Pilar del Río nos mostrou nessas páginas o quão grande foi o homem e o escritor José Saramago. Uma pessoa rara, que deixou uma obra inesgotável, que começava as suas histórias com uma dúvida: “E se….?”, depois prendia o leitor com camadas e camadas dessa realidade cruel que nos rodeia desde que o mundo é mundo.

Não deixem de ler este livro tão ótimo. Vale demais a leitura.

Fotos retiradas de: O melhor blog do mundo
Hoje A Casa de Saramago é um museu

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