No mês que celebra os 100 anos de Clarice Lispector, um olhar sobre a última obra da autora

Por Ney Anderson

“Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho”, diz Rodrigo S.M. nas primeiras linhas de A hora da estrela, o último livro de Clarice Lispector, publicado meses antes da sua morte prematura aos 56 anos, em 9 de dezembro de 1977, um dia antes do seu aniversário. No mês que marca os 100 anos de Lispector, os livros dela permanecem sendo relançados dentro e fora do Brasil, como a reedição de toda obra da escritora pela editora Rocco, que detém os direitos de publicação no país.

Em A hora da estrela, a nordestina Macabéa é uma mulher muito pobre, que vive com um subemprego de datilógrafa no Rio de Janeiro. Sem família, ela passa os dias sem sobressaltos, apenas seguindo uma rotina morna. Mesmo se tratando de uma narrativa por vezes muito parada, ela não deixa de ser envolvente, porque mesmo sendo uma personagem muito solitária, ela carrega extrema esperança com o desconhecido, que acredita ser o destino. Não apenas isso, claro, causa o interesse no leitor. O fato do narrador Rodrigo S.M. conduzir toda a história, nos dá a aparente ideia de alguém que vamos conhecendo em sua totalidade. E é esse um dos grandes méritos da obra.

É como se Clarice dissesse, através do seu narrador, “venha, vou lhe mostrar como se escreve uma história”. E é assim que acontece. Mesmo se tratando de um alter-ego, a voz masculina, lógico, se impõe. A ideia para a história, segundo o narrador, surgiu no momento que ele viu “de relance” o olhar de uma “nordestina amarelada”. Nesse instante a personagem surgiu de corpo inteiro. Ele comenta ainda do interesse, por ter morado no Nordeste, na infância. Dessa forma, Rodrigo vai explicando a montagem da história. Não se trata, no entanto, de apenas narrativa, mas de vida, como ele pontua. Rodrigo, inclusive, ironiza o fato da necessidade de ser um narrador homem para contar a história de Macabéa. Por que, caso contrário, a mulher pode lacrimejar piegas e estragar a história.  Ele afirma que a história precisa ser dura, sem sentimentalismos.

Clarice evoca esse machismo na obra para desconstruí-lo pouco a pouco, porque o narrador vai percebendo a narrativa, sentindo as dores da personagem, ficando de corpo e alma envolvido com o texto, carregado de sentimentalismos. Também existe o preconceito estereotipado contra o Nordeste, desenhado muito bem pela autora.

Escrevendo de forma aparentemente intuitiva, Rodrigo S.M. afirma que não é fácil escrever. A história é simples, mas de elaboração difícil. Ele diz que a personagem é tão viva quanto ele e se sente próximo dela. É até irônico, por Rodrigo ser também um artificio ficcional. Logo no início já sabemos na carta da autora que A hora da estrela é um livro urgente, “em estado de emergência e de calamidade pública”. Uma história que não deixa de ser estranha, porque Macabéa não sabe direito quem é, o que quer ou para onde vai. Ela vai descobrindo a si própria aos poucos, conforme o narrador avança.

Nova edição lançada pela Rocco, com pintura da própria Clarice na capa

A ideia da existência, o mistério humano e a criação são a base deste livro. Rodrigo S.M. diz que a história não tem técnica, nem estilo, ela é “ao Deus dará”. A criatividade da autora, no entanto, se apresenta de forma sublime com essa afirmação. Porque, ao mesmo tempo que afirma isso através do narrador, está impondo uma técnica e uma maneira diferente de contar a vida da sua personagem enigmática. E o leitor, por tabela, acaba se tornando o seu refém.  É um trabalho de carpintaria, com as várias ferramentas sofisticadas que a autora dispõe. Macabéa tem 19 anos e “apenas” vive, por exemplo, mesmo com a impaciência do seu criador, que também é desconhecido de si mesmo.

Mas de qual realidade fala Rodrigo? Talvez seja a realidade que ultrapassa, transgredindo o ato ficcional. Este livro é uma enorme pergunta. Existem muitas reflexões sobre o tempo e a existência, os motivos da ficção e do ato de escrever, todas teorias baseadas na força que a solidão provoca. Ele (Rodrigo) vai colocando coisas dele também na história, passagens do próprio passado. E entende aos poucos o que está escrevendo, enquanto percebe ser a alternativa que lhe mantém com vontade de viver.

“Quanto a mim, só me livro de ser apenas um acaso porque escrevo, o que é um ato que é um fato. É quando entro em contato com forças interiores minhas, encontro através de mim o vosso Deus. Para que escrevo? E eu sei? Sei não. Sim, é verdade, às vezes também penso que eu não sou eu, pareço pertencer a uma galáxia longínqua de tão estranho que sou de mim. Sou eu? Espanto-me com o meu encontro”.

Rodrigo S.M é um narrador, aliás, muito agressivo com Macabéa. Apesar do seu aspecto ranzinza, ele é um apaixonado pela personagem que criou, por ela ter muito dele mesmo. E vai preenchendo o silêncio como resposta ao enorme mistério no qual está envolvido. E acaba se sentindo mais pleno (e apavorado) por ter o destino nas mãos e por não suportar a rotina de ser a si mesmo.

A obsessão de Rodrigo na jovem conduz o leitor por uma miríade de sensações. Macabéa sempre acreditou em si mesma, inclusive com questões espirituais, mesmo rezando sem Deus. É uma mulher de aparência doente, mas não apenas isso. O passado e presente dela vão sendo desenhados linha após linha, não de forma linear. Nada sobra das palavras de Rodrigo S.M. É uma personagem que se apresenta como tal, tomando a cabeça do narrador. Ele imprime para Macabéa algo que não consegue para si mesmo, com as altas doses de realidade. Embora seja essa realidade muito pouca para completar alguém como Macabéa.

“O fato é que tenho nas minhas mãos um destino e no entanto não me sinto com o poder de livremente inventar: sigo uma oculta linha fatal”

A hora da estrela é o encontro de Macabéa com ela mesma, representando o papel de ser. Alguém que descobre novas palavras através de um programa de rádio, que acredita em anjos, por isso mesmo eles acabam existindo. O nome dela, inclusive, foi uma promessa da mãe a Nossa Senhora da Boa Morte. E isso não é por acaso, porque desde de o início existe um clima de morte no ar. Na atmosfera lúgubre da personagem.

A narração se entrecruza e os pensamentos dela começam a se desprender do seu criador. Algumas ações internas ditam novos ritmos à trama. Outros personagens começam a figurar o seu caminho, como o namorado Olímpico, algumas amigas de repartição e uma cartomante, determinante na condução no ápice do livro. Rodrigo apresenta o retrato completo de Macabéa. Mas a partir da metade da obra, a personagem começa a se desgarrar, sofrendo todas as interferências do mundo externo. E aí a história vai apresentando surpresas.

Mesmo com tanta falta de atributos, por exemplo, Rodrigo S.M. reconhece em Macabéa uma sensualidade diferente das demais mulheres. O grande sonho dela era ser Marylin Monroe. Macabéa é alguém que não se pode dar ao luxo da tristeza, mesmo sendo uma pessoa muito pobre, embora com muita liberdade interior. Por esta razão, nunca notou a sua vida tão ruim como afirmou uma cartomante que ela procurou para saber do seu futuro.  

“Mas é só na cara que sou triste porque por dentro eu sou até alegre. É tão bom viver, não é?”.

É um texto que diz muito sobre a função da literatura, a busca incessante pela palavra no escuro. A história que afeta o autor, literalmente, pois é escrita com toda a força da alma. A literatura que invade e atormenta, mas que é extremante necessária para a sobrevivência (a saúde) psíquica.  Questões filosóficas e existenciais potentes, como se deve perdoar quem trucida, humilha ou machuca de alguma forma. Rodrigo chega a conversar intuitivamente com Macabéa sobre isso, nessa maravilha criativa de Clarice Lispector.

Este é um texto sobre a grande hora da estrela de cinema de Macabéa, que mostra que a vida mais do que qualquer outra coisa, é um soco no estômago. Rodrigo é um narrador que se confronta a todo momento, e escreve não para acumular, mas para se desnudar do mundo a sua volta. Em determinado momento ele se questiona do que se trata a história. “É um melodrama?”, pergunta. Essa é uma história com muitas perguntas e quase nenhuma resposta objetiva. Um livro, por si só, inacabado em sua complexidade.

Em uma autora como Clarice Lispector, cada palavra, cada frase e cena tem uma razão de existir. Uma escritora extremamente técnica, mas que soube como ninguém soltar a mão do seu narrador e deixar em ebulição a cabeça dos seus leitores. Para ler Clarice não é necessário pressa. Aliás, a pressa é inimiga de qualquer leitura, mas isso fica ainda mais evidente lendo Lispector, porque ela trabalha nos silêncios, nas sombras e sobras do ser humano. Pinta personagens com a delicadeza de um yougui, preenchendo-os com o mistério da vida. A hora da estrela foi a sua última carta ao mundo, publicado meses antes da sua prematura morte. Não deixa, claro, de ser muito significativo. Nada em Clarice é acaso.

Tal qual uma feiticeira, ela jogou no mundo a sua magia, que até hoje nos encanta e alegra.  Como ela mesma diz em emblemático trecho do livro, “trata-se de um livro inacabado porque lhe falta a resposta. Resposta esta que espero que alguém no mundo me dê”.

One thought on “No mês que celebra os 100 anos de Clarice Lispector, um olhar sobre a última obra da autora

  1. Ney, gostei muito da resenha! Capta e diz devtoda sutileza do texto e subtextos de A hora da estrela. Parabéns!

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