Submundo da medicina e os limites da bioética são a base do eletrizante romance policial Corpos hackeados, de Andrea Nunes

Por Ney Anderson

O sonho de boa parte da humanidade é se tornar imortal. Como não pensar, por exemplo, na ideia anterior à imortalidade, quando uma quantidade considerável de pessoas ao redor do mundo busca, através de procedimentos estéticos, que os seus corpos não apresentem as marcas do tempo, tornando-os mais agradáveis a si mesmo. E, em grande medida, agradáveis aos olhos da sociedade.

Essa é uma brevíssima reflexão, porque o livro de Andrea Nunes, Corpos hackeados (Cepe Editora), não fala de imortalidade. Mas, em sua essência, propõe a sobrevida através de transplantes de órgãos feitos em equipamentos ultramodernos (as bioimpressoras), que podem produzir fidedignamente órgãos humanos iguais aos reais.

Toda a revolução, no entanto, esbarra em várias questões. A produção de órgãos em laboratório suscita neste livro debates sobre a ética médica, (nesse caso aqui a bioética), a religião, e a ideia do pecado, quando alguém pensa, de acordo com os dogmas da igreja, em querer ser deus, e principalmente, o tráfico internacional de órgãos. imaginem quando a produção em larga escala de órgãos for uma realidade, quanto prejuízo vai causar em quem atua nas sombras? digo isso, da realidade no futuro, baseado em uma ficção, porque a literatura tem esse poder de previsão.

E é justamente a partir dessas questões que a trama de Corpos hackeados começa a ficar empolgante. Quando os transplantados com a nova modalidade da medicina começam a morrer em circunstâncias misteriosas logo após as cirurgias. E o impacto na mente humana causado com esse hackeamento dos corpos.

No centro da narrativa, acompanhamos o cientista Gustavo, que criou o método de reproduzir estruturas humanas em impressoras na Fundação Bio, um hospital de renome no qual trabalha, e a advogada Pietra, auditora de sinistros de uma seguradora que tem convênio com os pacientes deste hospital. Mas ainda vários outros personagens, que têm de lidar com esse mistério, que envolve uma organização ultraconservadora. E ainda, o banditismo histórico do Nordeste no passado: o cangaço.

É um livro que fala muito sobre a área dos planos de saúde, as fraldes, as transações nebulosas que envolvem a medicina, tudo isso conectando arte renascentista, fanatismo religioso e principalmente o obscurantismo. é romance recheado com muita ação, diálogos, digressões e ótimos personagens. Pitadas de psicanálise também e filosofia também fazem parte do enredo.

A história de Corpos hackeados se passa em um período pós pandemia da Covid-19, com as cicatrizes ainda abertas por tanto sofrimento que a doença causou. Opção, aliás, que é feita sob o prisma da esperança. Porque o sofrimento que a humanidade passou, agora muda com a expectativa por dias melhores através dessa criação da medicina.

Mas um romance policial nunca é lógico, ele tem por natureza que conseguir surpreender o leitor. as mortes dos primeiros pacientes mudam todo o prisma da esperança no pós-humanismo. o que era para ser a revolução (ou a evolução) da medicina, acaba virando para um outro caminho. se torna um pesadelo.

Corpos hackeados é um livro com mistério dentro de mistério, onde várias sub-tramas incrementam a narrativa, tornando a história ainda mais densa e povoada por conexões com o tema central. É um livro que a gente não lê, apenas, mas assiste tal qual um filme. Nos tornamos, então, muito mais do que leitores dessa obra, mas espectadores reféns.

Um bom livro alimenta as dúvidas (cria perguntas) e não respostas. neste romance de Andrea Nunes saímos cheio de perguntas. Corpos hackeados é um livro, sobretudo, que trata de guerra de poder. Essas novas formas de poder da sociedade contemporânea. Do mundo atual.

Talvez, o que define o livro é justamente uma frase de um dos personagens, quando ele diz assim: “às vezes, a medicina é pouco para salvar vidas”.

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