Matheus Peleteiro: “a literatura não ilumina quase nada, mas permite enxergar a escuridão que existe ao redor”

Crédito das fotos: João Regis

Por Ney Anderson

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

 

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Matheus Peleteiro – Nascido em Salvador – BA em 1995, escritor, bacharel em direito e tradutor, Matheus Peleteiro publicou em 2015 o seu primeiro romance, Mundo Cão, pela editora Novo Século. Após, lançou a novela intitulada Notas de um Megalomaníaco Minimalista (editora Giostri, 2016); o livro de poemas Tudo Que Arde Em Minha Garganta Sem Voz (editora Penalux, 2016); a coletânea de contos Pro Inferno com Isso (Edição do Autor, 2017); a distopia satírica O Ditador Honesto (Edição do Autor, 2018), e, em 2019, a coletânea poética intitulada Nossos Corações Brincam de Telefone sem Fio. Além disso, em 2018, assinou, ao lado do tradutor Edivaldo Ferreira, a tradução do livro A Alma Dança em Seu Berço (Editora Penalux), do premiado autor dinamarquês, Niels Hav.

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O que é literatura?

Faulkner escreveu que a literatura é como um fósforo acendido durante a escuridão da noite, “não ilumina quase nada, mas permite enxergar a escuridão que existe ao redor”. Penso que, depois dessa definição, não me resta mais espaço para defini-la. É exatamente isso.

O que é escrever ficção?

Para mim, é uma maneira de me livrar dos pensamentos que atormentam a minha cabeça. Um revide. É uma atividade exaustiva, mas que proporciona plenitude ao final.

No Brasil, também significa ver o seu esforço constantemente superado pela realidade.

Vocação, talento, carma, destino… o escritor é um predestinado a carregar adjetivos que tentam justificar o ofício?

Destino é uma forma conveniente de nomear tudo o que acontece. Se acontecer, foi o destino. Se não acontecer, também foi por conta dele. Portanto, acho irrelevante discutir essa tal predestinação.

Porém, acredito que o escritor é formado por um misto de dedicação e vocação, que se resume no desenvolvimento natural de uma sensibilidade aguçada às sutilezas.

Qual o melhor aliado do escritor?

A vida em si, fora das bibliotecas. As experiências, conversas, o amor e o ódio que ela nos possibilita sentir.

E qual o maior inimigo?

A paz. O marasmo. A falta de coisas acontecendo.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Nem sempre, mas quase sempre. Eu diria que expor a sua obra é um ato político. Publicar, dizer algo. Às vezes, você pode apenas rabiscar uns versos para compreender a si próprio, e a escrita serve como uma mera terapia. Particularmente, vejo a escrita como uma forma de gritar ou abraçar. Então, penso sim nela como um ato político.

Quais os aspectos que você leva em conta no momento que começa a escrever?

Escrevo sempre considerando o que pensaria caso eu mesmo fosse o leitor. Questiono-me, o tempo inteiro, se a obra me interessaria, se o vocabulário está entre o popular e o sofisticado, se a escrita mescla o natural com o extraordinário… Também me preocupo com repetições e com o que chamaria de palavras certas, pois, como dizia Rubem Fonseca, não existem sinônimos.

A literatura existe para entendermos o começo, o meio ou fim?

Raul Seixas cantava “eu sou o início, o fim e o meio”, e eu acho que Raul Seixas era uma personificação da arte ideal. Então, diria que a literatura existe para que possamos refletir sobre o início, o fim e o meio, mas nunca entender.

Se escreve para buscar respostas ou para estimular as dúvidas?

Estimular dúvidas, sempre. Caso contrário, vira propaganda, panfletagem.

Criar é tatear no escuro das incertezas?

Talvez, para alguns. Eu tateio na clareza das minhas incertezas. As vejo com precisão.

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

“— Estávamos conversando sobre isso ontem — ele disse. — Propus que a vida era um fermento, um levedo que devorava mais vida para poder viver, e que viver não passa de uma mesquinharia bem-sucedida. Ora, se oferta e demanda fazem algum sentido, a vida é a coisa mais barata que existe. Há uma quantidade finita de água, de terra, de ar; mas a vida que exige nascer é infinita. A natureza é esbanjadora. Veja os peixes e seus milhões de ovas. Nem precisamos ir tão longe. Pense em nós dois, nos milhões de vidas possíveis armazenadas em nossas glândulas. Se tivéssemos tempo e condições de aproveitar cada gota da vida não nascida que carregamos conosco, seríamos pais de nações inteiras e povoaríamos continentes. Vida? Ah! Ela não tem nenhum valor. É a coisa mais barata que existe. Está mendigando por toda parte. A natureza a desperdiça com mão generosa. Onde há espaço para uma vida, ela enfia uma centena, e estas vidas se devoram até que prevaleça a vida mais forte e mais mesquinha.”, O lobo do mar, de Jack London, em tradução de Daniel Galera.

É possível recriar o silêncio com as palavras? Como?

Eu sinceramente não sei. Talvez seja possível apenas provocar o silêncio com palavras, mas posso mudar de ideia a qualquer momento.

Você acredita que qualquer pessoa pode escrever uma história? Mas, então, o que vai fazer dela escritora, de fato?

Sim, acredito. Considero escritor qualquer um que escreva com o intuito de publicar, e penso que qualquer um pode escrever uma história e fazer jus à alcunha, o que, obviamente, não garante que a sua obra terá valor. Não sou uma pessoa que se preocupa com classificações. Se alguém escreve textos “dando enter” e chama de poesia, tudo bem, chame de poesia ou não poesia – como fez Nicanor Parra. Só me preocupo com o quanto aquilo me toca e me fascina para estimar o sujeito pelo seu ofício. Quando se trata de arte, apontar um modelo a ser seguido é muito perigoso.

É preciso saber olhar o mundo com os olhos da ficção? O mundo fica melhor ou pior a partir dessa observação?

Ah, penso que é preciso saber pensar na ficção com um olhar mundano. Todos os dias jornais surpreendem ficcionistas, de modo que o mundo fica pior a partir dessa perspectiva. Afinal, a ficção acaba sendo uma espécie de recorte de melhores momentos da realidade com um tom do olhar do artista. Por essa razão, se faz vital que ele possua uma sensibilidade extraordinária.

Todo texto ficcional, mesmo os mais extensos, acaba sendo apenas um trecho ou fragmento da história geral? Digo, a ficção lança o seu olhar para as esquinas das situações, sendo praticamente impossível se ter uma noção do todo?

Acho que a ficção se apropria desses fragmentos da história real e criam o seu próprio “todo”. A ficção transforma pequenos instantes em grandes histórias, ou grandes histórias em pequenos instantes. É aí que está a magia.

Nesse sentido, uma história nunca tem início, meio e fim?

Ainda que o texto ficcional tenha nascido a partir de um trecho ou fragmento da história geral, a partir da sua gestação, ele passa a ter vida própria. De qualquer modo, sou da linha que aprecia as reflexões promovidas, e não o enredo em si. Então, poucas vezes me preocupo em saber como tudo começou ou acabou. Um amigo disse que os meus contos são como montanhas-russas que acabam no exato momento em que ela está no topo e vai descer. Gosto disso. Então, creio que, sim, é possível que uma história tenha início, meio e fim, mas, no fim, não faz diferença.

Você escolhe os seus temas ou é escolhido por eles?

Sou escolhido por eles, sempre. Optei, desde o início da minha carreira, por não prezar por uma identidade, embora alguns críticos tenham me definido justamente por essa razão. Passeio por gêneros, temas e tons narrativos como quem não tem compromisso algum, senão com a literatura que apreciaria como leitor.

É necessário buscar formas de expressão cada vez menos sujeitas ao cânone, desafiando a língua, tornando-a mais “suja”, para se aproximar cada vez mais da verossimilhança que a história pede? Ou seja, escrever cada vez “pior”, longe da superficialidade de escrever “certinho”, como disse Cortázar, talvez na tentativa de fugir da armadilha do estilo único?

Não, não é necessário. Aliás, isso é bem perigoso. Já li livros que pareciam reuniões de comentários do Twitter. Acho vital que as narrativas acompanhem as variações linguísticas e o vocabulário atual do ambiente que as fez surgir, no entanto, percebo que essa busca pela originalidade através das vias da língua contemporânea acaba deixando muitas obras enfadonhas. Penso que é necessário, sim, a busca do equilíbrio entre essa tal linguagem “suja” e a linguagem sofisticada.

Quando é que um escritor atinge a maturidade?

Quando, depois de ler e escrever muito, ele consegue ler um texto seu e, depois de um ano ou mais, reler e não querer mudar nada. Creio que é a partir daí que se deve pensar na publicação, embora ninguém tenha me advertido disso antes, rs.

O leitor torna-se cúmplice do escritor em qual momento?

Acho que nunca. O escritor está sempre sozinho. Com a leitura, o leitor apenas o abraça e vai embora.

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

O mito de Sísifo, de Albert Camus. Já que não teria a Terra para voltar, preferia este, que considero o livro que desenvolveu da melhor maneira como deve ser encarada a condição humana.

Qual a sua angústia criadora?

São várias. A minha escrita começa com um nó na garganta, assim como escreveu Robert Frost. A certeza de que aqueles que amo vão morrer, a falta de perspectivas quando se pensa no futuro, o desprezo ao conhecimento, a banalização da arte, o Brasil contemporâneo em si.

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