Fernando Monteiro: “o escritor é um maldito – pela própria vontade – e trabalha diante de uma janela aberta para a morte”

Por Ney Anderson

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

 

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Fernando Monteiro –  nasceu no Recife, em 1949. Escritor, poeta e cineasta, estreou com o livro Memória do Mar Sublevado (Editora Universitária, 1973), poema longo como os que seguiu publicando em 1981 — Leilão Sem Pena (Edições Pirata) — e, em 1993, quando lançou, pelo selo de Massao Ohno Editor, o premiado Ecométrica. Voltou-se para o romance em 1997, quando foi lançado, em Portugal, o também premiado Aspades, Ets Etc, pela prestigiosa editora Campo das Letras. Seu segundo romance foi distinguido com o primeiro Prêmio Nacional BRAVO! de Literatura/1998, e vieram, nos anos seguintes, A Múmia do Rosto Dourado do Rio de Janeiro Armada América (pela W11 Editora, SP), O Grau Graumann pela Editora Record e As Confissões de Lúcio pela Francis Editora. Em 2009, ano em que foi o Homenageado do sétimo Festival de Literatura [“A Letra e a Voz”] retornou ao verso com o poema longo Vi uma foto de Anna Akhmátova, a que se seguiu Mattinata (2012), em co-edição da Sol Negro com a Nephelibata Edições. Em 2017, foi o autor homenageado da Bienal Internacional de Literatura de Pernambuco, e prosseguiu na poesia com Museu da Noite (Editora Confraria do Vento, 2018). Neste ano de 2021, acaba de lançar o poema longo Os Vivos(?) e os Mortos –– com ilustrações de Chico Díaz — mais uma vez pela Sol Negro Edições.

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O que é literatura?

A literatura é essa velha arte narrativa que (quase) já não interessa a muita gente. E isso não porque ela não saiba mais como contar histórias ou como dilatar as consciências com poesia, mas porque o antigo coração acolhedor do leitor agudo (conforme Dickens talvez referisse) está agora como que “danificado” na atenção, na sutileza, no poder cognitivo e na sua capacidade de ficar sozinho consigo mesmo – e um livro na mão. (Quem sabe, até, a pandemia atual possa ter contribuído para recuperar um pouco dessa deficiência etc, na obrigatoriedade do “isolamento social” protocolos devidamente obedecidos.)

O que é escrever ficção?

Escrever ficção corre o risco de superação pelo “surrealismo” versus artificialidade da sociedade que nas últimas décadas surgiu, sociedade que era, já, de consumo de massa fútil e imediatista a partir de meados do século XX. Desde então, ela vem patinando, ainda por cima (ou por baixo) no pântano da internet & outras virtualidades mais. Eu abandonei o cansado gênero do romance – após prêmios e boa recepção crítica (eu admito) – mas o vício ainda me leva a escrever contos, aqui e ali, para não “perder o jeito”, vamos dizer assim, embora eu desconfie que já tenha perdido, sim.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Eu acho que só não é político, talvez, o ato de escovar os dentes, Digo “talvez” porque, se você compra alguma escova americana importada (de mais de 500 cerdas insensíveis à fricção continuada), é possível que até essa comprinha “distraída” na área de higiene dental das farmácias ou dos supermercados Carrefour [não-boicotado etc[, esteja sendo um ato político induzido por falsas propagandas ou pela indiferença à morte de clientes (e pobres cães) dentro de shoppings multinacionais etc.

Você escreve para oferecer o quê ao mundo?

Escrevo para oferecer (?) uma coisa mentalmente suada – e que não cheire mal (porque não existe desodorante eficaz para a literatura ruim).

O que pretende tocar com a palavra literária, com a ficção?

Se eu respondesse “o cerne das coisas”, eu mesmo gargalharia diante de tal resposta, porque o cerne das coisas agora se deslocou para dentro dos quarks (que são as partículas mais fundamentais que formam o núcleo atômico, e agora se aguarda para saber mais sobre as subdivisões possíveis deles). Então, é possível que eu escreva para provar que estou, estive e pretendo – vaidosamente – estar vivo, quando, em 2049 (cem anos depois do meu nascimento) alguém ainda esteja lendo Aspades, Ets Etc ou Ecométrica ou…

Um mundo forjado em palavras. Se o tempo atual pudesse ser resumido no título de um livro, seja ele hipotético ou não, qual seria?

O Livro do Apocalipse.

A incompletude faz parte do trabalho do ficcionista? No sentido de que nunca determinado conto, novela ou romance, estará totalmente finalizado?

Crédito: Chico Ludermir

Pelo contrário, acho eu. Um conto, uma novela ou um romance (verdadeiros) dizem, de várias maneiras, a um autor que não seja um Malcolm Lowry: “terminou, acabou, chega. Vá tomar um banho e saia para a rua, seguindo o fluxo das pessoas, sem nenhum rumo determinado – se o que você quer é continuar, continuar, continuar com as coisas”…

Qual o pacto que deve ser feito entre o escritor e a história que ele está escrevendo?

Nenhum. A história conta o autor – nas entrelinhas e até na costura da cueca ou da calcinha (dependendo do gênero, essa palavra da moda, no campo da autoria).

O que pode determinar, do ponto de vista criativo, o êxito e o fracasso de uma obra literária?

Hoje? Se for HOJE, creio que vulgaridade parece que está ajudando muito, por aí, no chamado “êxito” – enquanto o fracasso rimbaudiano continua parecendo mais atraente para os outsiders, pelo menos.

Como surgiu em você o primeiro impulsivo criativo?

Eu levei uma queda de escada, aos seis anos de idade, desmaiei e, quando eu acordei (minha saudosa mãe contava), “a primeira coisa que você pediu foi pra cair de novo”. O psiquiatra infantil a quem ela me levou disse (à minha mãe) que isso era “muito criativo” da minha parte, e passou a mão bem em cima do galo protuberante na minha cabeça. Secretamente, desejei que ele morresse.

As suas leituras acontecem a partir de quais interesses?

A partir de ter a certeza de que não vou perder meu tempo lendo nenhum livro produto de alguma “oficina literária” & quejandos. O resto, tá valendo.

Escrever e ler são partes indissociáveis do mesmo processo de criação. Como equilibrar o desejo de ler com o de escrever?

Ler é absolutamente necessário para vir a escrever – tanto quanto se torna até perigoso para aquele que já sabe o que quer dizer (e como). Então, alcançado esse pequeno milagre, só se deve ler o que nos ajude quanto a isso, e não o que atrapalhe, isto é, nos distraia com farta dose de insinceridade impressa em páginas falsas.

Um escritor é escritor 24 horas por dia? É, ao mesmo tempo, uma benção e uma maldição?

Escrever é uma maldição, sempre. Uma vez eu disse exatamente isso ao Raimundo Carrero, e imediatamente ele fez o sinal da cruz e disse que escrever “era uma benção” e que ele rezava o “Pai-Nosso” sempre que se sentava para escrever. Puxa. Tive vontade de que o velho Buk fosse vivo, para que eu pudesse recomendar isso tudo para o velho Charles…

O crítico Harold Bloom falava sobre o fantasma da influência. Você lida bem com isso?

Todos lidamos (no início, pelo menos). Quem responder que não lida, estará mentindo.

O escritor sempre está tentando escrever a obra perfeita?

Perfeita, não – mas a verdadeira, sim.

Como Flaubert disse certa vez, escrever é uma maneira de viver?

Escrever é uma maneira (provavelmente) de superar a morte. Superar a vida fica para os fracos… rs.

Quando você chega na conclusão de que alcançou o objetivo na escrita (na conclusão) da sua história?

Quando a história obviamente está me expulsando dela. Quando isso não acontece, é porque, provavelmente, a história não é boa ou não está narrada com a forma que ela pedia (a cada narrativa, corresponde uma forma – e é por isso que oficinas não funcionam senão para carros).

A literatura precisa do caos para existir?

A literatura não existiria sem o sofrimento. Num mundo perfeito, ela não seria necessária.

O escritor é um eterno inconformado com a vida?

O escritor é um maldito – pela própria vontade – e trabalha diante de uma janela aberta para a morte (como diria o Khomeini).

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

“O homem é um cadáver morto de ilusões perdidas”, conforme escreveu o português Vasco do Carmo no seu conto Tênis Brancos.

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

“Os Sete Pilares da Sabedoria”, de T. E. Lawrence.

Qual a sua angústia criadora?

Eu aspiro à perfeição do silêncio (nas madrugadas, por exemplo) ou, em outros tempos, no cimo do Himalaia que, certamente, eu nunca escalaria para encontrar a carcaça que, dizem, foi lá encontrada.

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