Alê Motta: “O bom texto, no meu entender, incomoda”

Por Ney Anderson

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

 

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Alê Motta nasceu em São Fidélis, interior do estado do Rio de Janeiro. É arquiteta formada pela UFRJ.  Participou da antologia 14 novos autores brasileiros, organizada pela escritora Adriana Lisboa. É autora de Interrompidos (Editora Reformatório, 2017) e Velhos (Editora Reformatório, 2020). É colunista da Revista Vício Velho.

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 1 – O que é literatura?

É a deliciosa arte de trabalhar com as palavras.

2 – O que é escrever ficção?

É a montagem de narrativas que não se limitam aos fatos.

É colocar no papel ou na tela as estórias que nascem em nós, fruto do que vivemos, observamos, amamos e até odiamos.

3 – Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Mesmo que a intenção não seja política, acho pouco provável que a escrita não reflita o que se vive, o que se experimenta dia a dia. O bom texto, no meu entender, incomoda.

4 – Você escreve para oferecer o quê ao mundo?

Escrevo porque não consigo não escrever.

Se o meu texto agarrar o leitor, o fizer refletir, trouxer surpresas e indagações, estou feliz.

5 – O que pretende tocar com a palavra literária, com a ficção?

O leitor – sua razão, sua emoção – no ato da leitura.

6 – Um mundo forjado em palavras. Se o tempo atual pudesse ser resumido no título de um livro, seja ele hipotético ou não, qual seria?

Pode ser uma trilogia? Dificuldade, Negação e Impotência.

7 – A incompletude faz parte do trabalho do ficcionista? No sentido de que nunca determinado conto, novela ou romance, estará totalmente finalizado?

Creio que a incompletude está na ficção porque depois que o livro nasce ele não pertence somente ao autor que o escreveu.

Ele é um pouco de cada leitor que observa detalhes, se assusta com as surpresas, deduz o que vai nas entrelinhas.

8 – Qual o pacto que deve ser feito entre o escritor e a história que ele está escrevendo?

Que pergunta difícil, Ney.

Talvez um pacto de envolvimento total. O escritor totalmente entregue ao tema para que a estória nasça no tempo que deve nascer e como deve ser.

9 – O que pode determinar, do ponto de vista criativo, o êxito e o fracasso de uma obra literária?

Você aceita respostas ridículas? Acho que darei uma.

Acredito que o fracasso seja a escrita amarrada. Sem espaço para mudanças, modificações e trabalho árduo. O êxito pode ser o contrário disso.

10 – Como surgiu em você o primeiro impulsivo criativo?

Não faço ideia 😃🥺

11 – As suas leituras acontecem a partir de quais interesses?

Gosto de ler contos, romances, poesia. Os interesses são variados.

12 – Escrever e ler são partes indissociáveis do mesmo processo de criação. Como equilibrar o desejo de ler com o de escrever?

Há dias em que o desejo de ler ganha todo o espaço e há dias em que o desejo de escrever é vencedor.

Em resumo, pelo menos para mim, o equilíbrio  ainda é uma meta! 😊

13 – Um escritor é escritor 24 horas por dia? É, ao mesmo tempo, uma benção e uma maldição? 

Prefiro optar pela primeira opção. Sou otimista, acho que é uma bênção.  Mas isso não significa que é sempre fácil, tranquilo. 😊

E sim, não dá para separar umas horinhas do dia e apenas nelas ser escritor.

O escritor escreve enquanto observa, quando lê, quando experimenta circunstâncias boas e difíceis.

Não apenas quando escreve no papel, no computador ou celular.

 

14 – O crítico Harold Bloom falava sobre o fantasma da influência. Você lida bem com isso?

Não é um problema. Acho que crescemos quando lemos, analisamos vários autores de vários gêneros.

15 – O escritor sempre está tentando escrever a obra perfeita?

Eita! Perfeição é tão difícil. Em tudo, na vida.

Acho que o escritor está sempre tentando escrever o melhor possível.

16 – Como Flaubert disse certa vez, escrever é uma maneira de viver?

Não sei se  escrever é uma maneira de viver mas sei que na minha vida a escrita faz toda a diferença.

17 – Quando você chega na conclusão de que alcançou o objetivo na escrita (na conclusão) da sua história? 

Isso acontece depois de abandonar e voltar ao texto num exercício repetitivo e louco de paixão e afastamento. Até o momento em que sinto – está pronto. Ou pelo menos admito– é tempo de parar. 😊

18 – A literatura precisa do caos para existir?

O caos ajuda imensamente! Mas creio que a Literatura existe. Ponto.

19 – O escritor é um eterno inconformado com a vida?

Com a vida ou com o seu texto? 😊

20 – Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

Muitas obras me marcaram profundamente, fica difícil escolher uma.

Vou citar um trecho pequeno de um conto que gosto muito, do Carrascoza. O título do conto (mesmo título do livro) é “Aquela água toda.”

“Quando se deu conta, cochilava no sofá, exausto pelo esforço de preparar o dia seguinte. Esforçava-se para que, antes de dormir, a manhã fosse aquela certeza, e ela seria mesmo sem a sua pobre contribuição. Ignorava que a vida tinha a sua própria maré. O mar existia dentro de seu sonho, mais do que fora. E de repente, sentia-se leve, a caminhar sobre as águas – o pai o levava para a cama, em seus braços de espuma.”

21  – Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

A Bíblia. Para ler as aventuras incríveis e inesperadas do Velho Testamento.

Se pudesse levar mais um, levaria Cem anos de solidão.

22 – Qual a sua angústia criadora? 

Não vivemos todos num paradoxo?

Carregamos a angústia (que nos consome) e a alegria (que nos impulsiona) ao escrever?

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