Jefferson Tenório: “por mais que se planeje, a palavra literária sempre nos escapa ao controle total”

Crédito: Carlos Macedo

 

Por Ney Anderson

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

 

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Jefferson Tenório nasceu no Rio de Janeiro, em 1977. Radicado em Porto Alegre, é doutorando em teoria literária pela PUCRS. Estreou na literatura com o romance O beijo na parede (2013), eleito o livro do ano pela Associação Gaúcha de Escritores. Teve textos adaptados para o teatro e contos traduzidos para o inglês e o espanhol. É autor também de Estela sem Deus (2018). O avesso da pele (2020) é seu romance mais recente, publicado pela editora Companhia das Letras.

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O que é literatura?

Difícil chegar num conceito. A literatura pode ser muitas coisas. Talvez a resposta que mais me deixa apaziguado é a de pensar que a literatura é um certo arranjo de palavras que serve para causar um determinado efeito estético. É e não é uma manipulação linguística, pois por mais que se planeje, a palavra literária sempre nos escapa ao controle total.

O que é escrever ficção?

Escrever ficção é um modo de desnaturalizar o mundo. É se afastar do real, para voltar a ele com mais lucidez. Escrever ficção é um modo de perceber a realidade com mais honestidade.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Partindo do pressuposto de que somos seres políticos, acredito que escrever é a consequência dessa condição. Escrevo porque não concordo com a vida. Discordar do mundo e das coisas faz parte do processo de quem escreve e isso nos torna político num certo sentido.

Para além do aspecto do ofício, a literatura, de forma geral, representa o quê para você?

A literatura representa uma espécie de libertação. Um espaço em se pode exercer a liberdade. Talvez a única liberdade possível.

O escritor é aquela pessoa que vê o mundo por ângulos diferentes. Mesmo criando, por vezes, com base no real, é outra coisa que surge na escrita ficcional. A ficção, então, pode ser entendida com uma extensão da realidade? Um mundo paralelo?

É interessante pensar desse modo. Certamente nos apoiamos na realidade, mas a realidade em si não é e não pode ser literatura, pelo simples motivo que literatura não aceita o que é real demais. A literatura repele o real, porque a literatura não representa a realidade, mas funda um novo real.

Quando você está prestes a começar uma nova história, quais os sentimentos e sensações que te invadem?

São sentimentos difusos e difíceis de descrever, mas creio que sinto um entusiasmo, uma certa alegria e uma vontade imensa de começar. Esse entusiasmo inicial é importante para levar o projeto até o fim.

A leitura de outros autores é algo que influencia bastante o início da carreira do escritor. No seu caso, a influência partiu dos livros ou de algo externo, de situações cotidianas, que te despertaram o interesse para a escrita?

Certamente a leitura de outros autores me ajudou muito. Lembro que quando comecei a escrever aos vinte e poucos anos eu imitava escritores como Rubem Fonseca, Clarice Lispector, Ernest Hemingway por exemplo. Foram autores importantes e que de certo modo me influenciaram.

Você escreve para tentar entender melhor o que conhece ou é justamente o contrário? A sua busca é pelo desconhecido?

A busca é pelo desconhecido que me habita. Um escritor é quele que migra de si para si, e ao fazer esse movimento ele revela esses sujeitos estranhos que são transformados em personagens. Escrevo para lidar com o desconhecido, com o medo e com o assombro.

O que mais te empolga no momento da escrita? A criação de personagens, diálogos, cenas, cenários, narradores….etc?

Acho que a possibilidade de criar um mundo. De criar vidas. Os personagens me fascinam. Antes de escrevê-los eu convivo com eles. Eu os escuto. Fazem parte da minha rotina. São os personagens que num certo sentido me obrigam a escrever.

Um personagem bem construído é capaz de segurar um texto ruim?

Creio que não. Um livro não é só um personagem bem construído, mas é também o seu conjunto: enredo, diálogos e ritmo.

Entre tantas coisas importantes e necessárias em um texto literário, na sua produção, o que não pode deixar de existir?

Acredito que contar uma boa história é o que sustenta a narrativa. No fim das contas é isso que e o escritor faz: conta uma história e escolhe entre tantas formas, um único modo de contá-la

Nesse tempo de pandemia, de tantas mortes, qual o significado que a escrita literária tem?

Quando uma realidade é dura demais, a escrita literária nos permite imaginá-la. A realidade precisa ser sonhada. A arte e a literatura são fundamentais em tempos tão difíceis porque nos permite um certo descolamento da do real.

No Brasil, o ofício do escritor é tido quase com um passatempo por outras pessoas. Será que um dia essa realidade vai mudar? Existem respostas lógicas para esse questionamento eterno?

Talvez isso tenha a ver com todo o sistema editorial que precisa se profissionalizar. Somos um país como graves problemas estruturais. Estamos num país em que pessoas voltaram a passar fome. Além disso, temos um governo genocida que ataca constantemente os mais vulneráveis. Assim, o ofício da escrita e sua valorização fica em segundo plano. A realidade vai mudar quando tivermos condições estruturais. E creio que infelizmente estamos longe disso.

A imaginação, o impulso, a invenção, a inquietação, a técnica. Como domar tudo isso?

Não se escreve sem disciplina. O mundo da vida, como as pulsões, o desejo e as inquietações fazem parte do nosso cotidiano. Não conseguimos domar essas questões, mas podemos conviver com elas, entrando numa espécie de pacto. E é desse pacto que nasce a disciplina necessária para escrever.

O inconsciente, o acaso, a dúvida…o que mais faz parte da rotina do criador?

Acho que viver num sentido mais amplo. Para escrever é preciso passar por determinadas experiencias.

O que difere um texto sofisticado de um texto medíocre?

Creio que podemos diferenciar a partir do trabalho linguístico e da manipulação da palavra para causar um determinado efeito estético.

O leitor torna-se cúmplice do escritor em qual momento?

Não sei se o leitor torna-se cúmplice do escritor, talvez o leitor torna-se cumplice dos personagens e do narrador, o que me parece mais vantajoso para quem lê.

O leitor ideal existe?

Não existe.

O simples e o sofisticado podem (e devem) caminhar juntos?

Certamente. Aliás a simplicidade é algo difícil de se conseguir em termos literários. O Arranho simples de palavras pode ter ocasionar num efeito bastante sofisticado dependendo do trabalho com a linguagem.

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

“Ficamos nos perguntando se não somos apenas um fantasma na mente de outras pessoas. Uma criatura, digamos, um pesadelo que aquele que está dormindo tenta destruir com toda a sua força”.

Homem invisível, Ralph Ellison

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

Dom Quixote

Qual a sua angústia criadora?

Terminar um livro. Saber quando ele está de fato pronto.

 

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