Antônio Torres: “sou um escritor em busca de um país. E de si mesmo”

Foto: Guilherme Gonçalves

Por Ney Anderson

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

 

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O baiano Antônio Torres (Sátiro Dias, 1940) é autor de extensa obra, traduzida em muitos países, da Argentina ao Vietnã, e da qual se destaca a trilogia formada por Essa Terra, O cachorro e o lobo, e Pelo fundo da agulha.  Membro da Academia Brasileira de Letras, ele tem no prelo da Editora Record o seu 12º. romance, Querida Cidade. Entre os prêmios que conquistou, figura a comenda de Chevalier des Arts et des Lettres, do governo francês, pelos seus livros publicados na França, entre eles Um táxi para Viena d’Áustria. 

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O que é literatura?

Poderia começar por uma definição dicionarizada: ”Arte de escrever trabalhos artísticos em prosa ou verso”. Simples assim. Ou remeter o (possível) leitor destas linhas ao livro do filósofo, dramaturgo, romancista e contista Jean-Paul Sartre, cujo título é o mesmo da pergunta acima, para a qual, imagino, não se espera aqui uma resposta didática. Logo, vejo a literatura como uma paixão à primeira leitura, acontecida na escola da minha infância. Foram duas, aliás. A da professora Serafina, na qual se lia poesia em voz alta, todo dia. Castro Alves (Ó bendito o que semeia/ Livros… livros à mão cheia…), Olavo Bilac (Criança, não verás país nenhum como este…) etc. Na segunda, da professora Teresa, a leitura começou pelos verdes mares bravios da minha terra natal, onde canta a jandaia, na fronde da carnaúba. A um menino da roça que teve a sorte de ser alfabetizado (nem todos os do seu tempo a tiveram), Dona Literatura surgiu em sua vida para lhe oferecer a oportunidade de trocar o cabo de uma enxada, a que estava destinado, por uma caneta, salve ela! Preciso dizer mais?

O que é escrever ficção?

Contar histórias. Com arte e beleza.

 Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Pertenço a uma geração que se projetou na literatura nos anos de 1970, em plena ditadura militar. Ela vai de Moacyr Scliar, em Porto Alegre, a Márcio Souza, em Manaus, passando por Ignácio de Loyola Brandão, em São Paulo, Nélida Piñon, Ana Maria Machado e Sérgio Sant’Anna, no Rio, Roberto Drummond, em B.H., João Ubaldo Ribeiro na Bahia, só para citar alguns nomes. Éramos muitos. E cada um, à sua maneira, empunhava a palavra em protesto ao sufoco que estávamos vivendo. Um clima, aliás, que impregnou o meu romance de estreia, Um cão uivando para a Lua, de 1972. O impacto causado por ele, tanto na crítica quanto no público, pode ser medido pelo título de uma resenha do professor pernambucano Fernando Antônio Azevedo (hoje na Universidade Federal de São Carlos, SP), publicada no Jornal do Comércio, de Recife: “Uma geração uivando para a Lua”. Por essas e outras é que digo: sim, dependendo das circunstâncias históricas, escrever pode ser um ato político. Como vemos agora com o surgimento de tantas autoras e autores cuja produção se insere, de modo necessário, nas agendas inclusivas das causas feministas e de gênero em geral e do antirracismo.

Para além do aspecto do ofício, a literatura, de forma geral, representa o quê para você?

Um prazer. E um aprendizado. Leio os clássicos para me embasar e os contemporâneos para me reciclar.

O escritor é aquela pessoa que vê o mundo por ângulos diferentes. Mesmo criando, por vezes, com base no real, é outra coisa que surge na escrita ficcional. A ficção, então, pode ser entendida com uma extensão da realidade? Um mundo paralelo?

Troquemos a palavra extensão por reinvenção e estamos conversados.  Não me lembro se a célebre frase “a arte existe porque a vida não basta” é do português Fernando Pessoa ou do nosso Ferreira Gullar. Seja de quem for, responde por mim.

Quando você está prestes a começar uma nova história, quais os sentimentos e sensações que te invadem?

Crédito: Marcelo Correa

Alegria, por me sentir de novo com água no pote, ou café no bule. Ansiedade, nervosismo, medo – este, o mais humano dos sentimentos, como dizia o finado Millôr Fernandes. Ah, esse medo de bater nas teclas e as palavras não responderem! Será a angústia do escritor em frente da tela em branco igual à do goleiro diante do pênalti?

A leitura de outros autores é algo que influencia bastante o início da carreira do escritor. No seu caso, a influência partiu dos livros ou de algo externo, de situações cotidianas, que te despertaram o interesse para a escrita?

Leituras, memórias, sonhos, rostos, vozes, cinema, teatro, música: dos violeiros das feiras livres do Nordeste de antigamente e as cantorias ao pé de um fogão de lenha para espantar o medo da noite, a tudo o mais que vim a ouvir pela vida afora. É nisso que a minha escrita se embasa. Um exemplo concreto: o já citado título do meu primeiro romance surgiu numa noite paulistana sem a menor possibilidade de estrelas, quando percebi que tinha algo nas mãos para começar e, quem sabe, dessa vez seria para valer. Estava sozinho num quarto de hotel, ouvindo um disco de Miles Davis – um gigante do jazz -, e repetindo a mesma faixa, o tempo todo: uma velha e terna balada norte-americana chamada My funny Valentine. Essa música, do Dia dos Namorados, tão melosa na voz de Frank Sinatra, se tornava um uivo lancinante no trompete de Miles Davis. Imaginei-a abafando os gritos dos torturados nos porões da ditadura militar. E foi assim que um trompetista soprou nos meus ouvidos o título Um cão uivando para a Lua, que viria a puxar outros, sendo que um deles, Um táxi para Viena d’Áustria, foi inspirado por Wolfgang Amadeus Mozart em sua Missa em dó maior, ou Missa da coroação. E vai ver ao fundo do meu romance Adeus, Velho está uma música cantada por Luiz Gonzaga, o Rei do Baião: Mundo Novo, adeus/ Adeus, minha amada/ Eu vou pra Feira de Santana/ Eu vou vender minha boiada. Em tributo a ele, o memorável Luiz Lua Gonzaga, fecho dizendo que Eu penei, mas aqui cheguei. Sim, Exma. Sra. Palavra Escrita: chegar ao vosso reino foi a minha descoberta do mundo.  

Você escreve para tentar entender melhor o que conhece ou é justamente o contrário? A sua busca é pelo desconhecido?

Sou um escritor em busca de um país. E de si mesmo.

O que mais te empolga no momento da escrita? A criação de personagens, diálogos, cenas, cenários, narradores… etc.?

Tudo isso junto e misturado. Mas, sobretudo, quando bato e o teclado responde com uma frase surpreendente, e, melhor ainda, um parágrafo que não trocaria por outro. Como no começo de Carta ao Bispo: “Agora ele está só. Tão desgraçadamente só quanto no dia em que nasceu. Mas agora ele dispensa a parteira e não precisa mais berrar ao mundo que está só”. O ritmo disso ainda me empolga.

Um personagem bem construído é capaz de segurar um texto ruim?

Pode até funcionar satisfatoriamente na TV e no cinema. No romance ou no conto, capenga. O prazer de ler começa pelo texto. Pelo menos para o leitor que aqui fala.

Entre tantas coisas importantes e necessárias em um texto literário, na sua produção, o que não pode deixar de existir?

Literariedade.

Nesse tempo de pandemia, de tantas mortes, qual o significado que a escrita literária tem?

Pesquisas realizadas por encomenda de entidades representativas do setor editorial vêm demonstrando que a venda de livros cresceu muito nessa pandemia. E o dado que mais me chamou a atenção nesse crescimento é o aumento do interesse por obras brasileiras, especialmente no campo da ficção. Isso leva a crer que se busca na literatura em geral um refúgio para esse tempo sombrio, e na nossa, em particular, uma compreensão mais aguda do país, através dos seus textos.

No Brasil, o ofício do escritor é tido quase com um passatempo por outras pessoas. Será que um dia essa realidade vai mudar? Existem respostas lógicas para esse questionamento eterno?

Uma vez, quando fazia parte do Projeto Escritor Visitante da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (de 1999 a 2005), e ali coordenava oficinas literárias, um estudante entrou na sala em que elas eram realizadas e me fez a seguinte pergunta: “Professor, escrever dá dinheiro”? Respondi-lhe: “Se você veio aqui apenas à procura de uma resposta para essa pergunta, perdeu a viagem. Mas, se quiser descobrir o que a escrita pode lhe oferecer de enriquecedor para além dos valores do mercado, chegue à frente, sente-se, relaxe e aproveite”. Foi o que ele fez. E acabou se revelando um dos melhores participantes daquela turma. Nunca encarei o ofício de escrever como um passatempo. Sempre me dediquei a ele de forma profissional. Acontece, porém, que o escritor, juntamente com o seu editor, propõe, e os leitores dispõem. Para receber as bênçãos deles, é preciso se ter a sorte de chegar com o livro certo na hora certa. Essa é a minha impressão. A questão levantada aqui é bem complexa e me leva a outra: por que raramente vemos uma obra literária, nacional ou estrangeira, nas listas dos livros mais vendidos no Brasil? Com a palavra os analistas do mercado.

A imaginação, o impulso, a invenção, a inquietação, a técnica. Como domar tudo isso?

Seguindo a receita do doutor James Joyce: silêncio, exílio e astúcia.

O inconsciente, o acaso, a dúvida…o que mais faz parte da rotina do criador?

Alguém já disse – não me lembro quem – que ao escritor bastam 1% de inspiração e 99% de transpiração. Ou seja, a sua rotina é feita mesmo é de trabalho. Persistente.

O que difere um texto sofisticado de um texto medíocre?

Na minha adolescência eu lia com entusiasmo um livro de título exclamante (“Amo!”), que continha um poema assim: “Amo a poesia que escrevo/ E entusiasta a declamo/ Àqueles que como eu/ Têm a alegria de amar”. Aí chegou à cidade (Alagoinhas, Bahia) um poeta chamado Eurico Alves Boaventura, que se correspondia com Manuel Bandeira e Jorge de Lima. Convidado para participar dos saraus que ele fazia em sua casa, nunca mais eu iria ler poesia da mesma maneira. É só comparar um verso de qualquer um dos nossos modernistas com os que citei aqui para se perceber a diferença.

O leitor torna-se cúmplice do escritor em qual momento?

Essa é uma pergunta que de alguma maneira está respondida em Que é literatura? de Jean-Paul Sartre, citado logo no início desta entrevista. Para ele, é o esforço conjugado do autor com o leitor que fará surgir esse objeto concreto e imaginário chamado de obra literária, que só se completa no ato da leitura. Faço minhas as suas palavras: “A leitura é um exercício de generosidade, e aquilo que o escritor pede ao leitor não é a aplicação de uma liberdade abstrata, mas a doação de toda a sua pessoa, com suas paixões, suas prevenções, suas simpatias, seu temperamento sexual, sua escala de valores”. Falou e disse.    

O leitor ideal existe?

Sim, e se chama Raimundo José de Souza Torres. É o mais novo dos meus tios, do qual sou 3 anos mais velho. Quando o Essa Terra foi publicado, em 1976, li e ouvi muita coisa sobre ele, Brasil adentro e afora, mas nada me surpreendeu tanto quanto o que me disse o tio Raimundo: “Nelo (o protagonista da história) é você. Totonhim (o narrador) é o seu irmão Décio”. Tratava-se, evidentemente, de uma identificação simbólica desses dois personagens. A minha surpresa foi que, ao que eu sabia, aquele meu tio – um dos meus melhores amigos de infância – jamais havia estado num divã de um psicanalista ou estudado psicanálise.

O simples e o sofisticado podem (e devem) caminhar juntos?

Jamais deveríamos fazer tal separação. Talvez seja mais fácil chegar à sofisticação do que à simplicidade. Há um conto de Ernest Hemingway que começa assim: “Estavam todos bêbados”. Nessa curta e simplérrima frase ele conta toda a história.

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

“Quando a sombra do caixilho apareceu nas cortinas era entre sete e oito horas e então eu já estava no tempo outra vez, ouvindo o relógio. Ele era do avô, e quando o pai o deu para mim disse: Quentin, eu lhe dou o mausoléu de toda esperança e de todo desejo; é mais do que penosamente possível que você irá usá-lo para adquirir o reducto absurdum de toda experiência humana, mas não satisfará as suas necessidades individuais, como não satisfez as dele ou as de seu pai. Eu o dou a você não para que se lembre do tempo, mas para que o possa esquecer por alguns momentos e não gaste todo o seu fôlego tentando conquistá-lo. Porque nenhuma batalha se vence, ele disse. Elas não são nem ao menos disputadas. O campo de batalha revela ao homem somente a sua loucura e desespero, e a vitória é uma ilusão dos filósofos e loucos”. William Faulkner, em O som e a fúria.   

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Uma obra-prima irretocável, sob qualquer ângulo que a leiamos: histórico, político, literário. Sobretudo por este.

Qual a sua angústia criadora?

A primeira frase.

13 thoughts on “Antônio Torres: “sou um escritor em busca de um país. E de si mesmo”

  1. Dizer de Antônio Torres, aqui ou alhures, é, se não nos contivermos, escrever um livro completo. Assim me sinto, assim o vejo!
    Sua obra é magnífica e nos ensina a ser leitor, torcedor, fã, tiete, às vezes coadjuvante, artista principal, protagonista, personagem geral. Quem se detiver a ler seus livros jamais será outra pessoa. A partir dali passa a ser uma criatura dotada de conhecimentos, alegrias, amarguras, aflorados e partindo para novas buscas, questionamentos e constatações.
    Quer experimentar? Leia “Essa Terra” e depois me diga se vamicê é o(a) mesmo(a)!
    Está lançando o desafio

  2. Acho que Roland Barthes deve ter se inspirado na obra de TORRES PARA ESCREVER «  O prazer do texto/ Le plaisir du texte »! Ler e escutar Torres é sempre um aprendizado prazeroso. Um mestre na arte da escrita, excelente entrevista!

  3. Antônio Torres é um dos maiores escritores contemporâneos. Sua obra é constitui uma síntese do nosso país. Um escritor consciente, crítico, que não perde a fé na literatura e tem a esperança de que esse país encontre seu destino perante o mundo. Uma entrevista lúcida, certeira, instigante.

    1. Mestríssimo Aleilton Fonseca, grande romancista de “Nhô, Guimarães”/ “O pêndulo de Euclides” e o poeta do recentíssimo “A Terra em Pandemia”: muito obrigado.

  4. A simplicidade sofisticada de Antônio Torres é realmente comovente. Sua obra é pura carnalidade, devoção no confronto do homem com a sua história. Na literatura de Torres, a sensibilidade é manifestada por sensações experienciadas em complexa operação de dobras e desdobras, implicando o espelhamento de marcas identitárias, de evocação de memórias.

  5. Escrever sobre o escritor Antônio Torres não é fácil. E, por mais que busque palavras para tentar nomear suas narrativas esta não é uma tarefa fácil. Contos ou Romances? Biográficos ou Memorialísticos? Suas envolventes histórias líricas podem ser colocadas nestas denominações especiais deste homem baiano e natural do Junco. Conhecê-lo é uma honra diante de sua simplicidade extraordinária e generosidade sem limites. Eis um escritor que permanecerá nos anais da Literatura Brasileira e Universal.

  6. Tenho toda a obra do Antonio Torres.Ensinou-me a conquistar o leitor através da primeira frase que abre a ficção.A simplicidade de sua narrativa é tão sofisticada que chega a nos comover.Um mestre.Meu mestre.

  7. A entrevista do ficcionista Antônio Torres: do Junco, da Bahia, da ABL, do Brasil, do mundo… do nosso tempo (da passagem finissecular dos séculos 20 e 21) é a mais literária que já li de um literato! Aplausos, de pé, e com direito a bis, ao ‘Angústia Literária’, ao Ney Anderson e ao romancista Antônio Torres; o escritor brasileiro com obra aberta, que no meu entender, mais à fundo, “pelo fundo da agulha”, adentra e percorre a dimensão da palavra literária na inesgotável viagem chamada literatura.

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