Patrícia Melo: “a literatura tem a intensidade da vida”

Crédito: Kyrhian Balmelli

Por Ney Anderson

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

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Patrícia Melo, 58, é uma das mais importantes escritoras da atualidade. Seus doze romances,  traduzidos em dezesseis línguas, abordam a violência estrutural da sociedade brasileira. Seu livro O Matador (1995) foi finalista do o Prix Femina, um dos mais importantes da língua francesa, e conquistou os prêmios Deux Océans e Deutscher Krimipreis. A autora foi finalista do prestigioso International Dublin Literary Award com Valsa Negra. Também foi agraciada com o prêmio Jabuti em 2000, além dos prêmios Literaturpreiss e Deutcher Krimipreiss (pela segunda vez), com os romances Ladrão de cadáveres e Fogo-Fátuo.  Seu último romance, Mulheres Empilhadas (2019) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, e está sendo lançado na Alemanha pela Unionsverlag com grande sucesso de público e crítica.  Atualmente, a autora vive na Suíça e escreve um novo romance.

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O que é literatura?

Uma hipótese.

O que é escrever ficção?

É criar um mundo.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Sim. Escrever sempre é um ato de resistência. Toda hipótese se dá a partir de um descontentamento com a realidade.

Você escreve para oferecer o quê ao mundo?

Uma experiência.

O que pretende tocar com a palavra literária, com a ficção?

A sensibilidade de um leitor.

Um mundo forjado em palavras. Se o tempo atual pudesse ser resumido no título de um livro, seja ele hipotético ou não, qual seria?

Viragem

A incompletude faz parte do trabalho do ficcionista? No sentido de que nunca determinado conto, novela ou romance, estará totalmente finalizado?

Sim. Sim. Acho que existe uma incompletude estrutural na literatura. Um livro só se completa na leitura.

Qual o pacto que deve ser feito entre o escritor e a história que ele está escrevendo?

O pacto da diligência. Da liberdade. E do sonho.

O que pode determinar, do ponto de vista criativo, o êxito e o fracasso de uma obra literária?

Pensar em êxito e fracasso enquanto se escreve.

Como surgiu em você o primeiro impulsivo criativo?

Aos dez anos, quando decidi escrever um diário de viagem. Lembro até de uma das frases que achei linda na época: “a estrada era feita de muitas retas e algumas curvas”.

As suas leituras acontecem a partir de quais interesses?

Estético. Quando leio, a forma me parece sempre mais importante do que o conteúdo.

Escrever e ler são partes indissociáveis do mesmo processo de criação. Como equilibrar o desejo de ler com o de escrever?

Lendo e escrevendo. Todos os dias.

Um escritor é escritor 24 horas por dia? É, ao mesmo tempo, uma benção e uma maldição?

Tenho escrito menos, com a idade. Mas continuo pensando no meu livro 24 horas por dia. Não acho que isto seja nem benção, nem maldição. A literatura tem a intensidade da vida.

O crítico Harold Bloom falava sobre o fantasma da influência. Você lida bem com isso?

Depois de doze romances publicados acredito que tenho minha dicção e minha gramática. Só minhas.

O escritor sempre está tentando escrever a obra perfeita?

O escritor está sempre tentando escrever. A obra perfeita é aquela que ainda não foi escrita.

Como Flaubert disse certa vez, escrever é uma maneira de viver?

Escrever é uma forma de sonhar uma vida possível. Ler é uma maneira de viver outra vida.

Quando você chega na conclusão de que alcançou o objetivo na escrita (na conclusão) da sua história? 

Não tenho regras. Mas acho que tenho uma editora dentro de mim.

A literatura precisa do caos para existir?

A literatura precisa do espanto. Da liberdade. Da resistência. E de sonho, sempre.

O escritor é um eterno inconformado com a vida?

Sim. Com muitos momentos de encantamento pela vida.

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

Não sei o trecho de cor. Mas lembro da sensação de encantamento que me tomou quando li Vassili Grossman defender que liberdade e vida são uma coisa só, em Vida e Destino.

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

Um só? Um dicionário. Para abastecer minhas fábulas.

Qual a sua angústia criadora?

Encontrar a forma de contar a minha história.

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