Bruno Gaudêncio: “a ficção é a forma mais nobre e popular de reinvenção humana”

Por Ney Anderson

 

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

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Bruno Gaudêncio (Campina Grande, PB, 1985), escritor, jornalista e historiador. Doutorando em História Social pela Universidade de São Paulo. Publicou 18 livros, entre coletâneas de poemas, ensaios, contos e roteiros em quadrinhos biográficos. Em breve deve estrear com duas novelas.

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O que é literatura?

Mais um modo de inscrever no mundo. Nem mais, nem menos especial que outras formas, porém que carrega em sua estrutura um simbolismo documental e afetivo que só a arte possui.

O que é escrever ficção?

Acredito que a ficção dentro da própria literatura se tornou devido as suas especificidades uma espécie de “alteza do mundo das letras”. Desta forma, eu diria que a ficção é a forma mais nobre da literatura e a mais popular também. Indo diretamente a resposta: a ficção é a forma mais nobre e popular de reinvenção humana.

Vocação, talento, carma, destino… O escritor é um predestinado a carregar adjetivos que tentam justificar o ofício?

Como se diz a literatura é uma forma de arte que se preocupa a todo o momento em falar sobre seu processo interna de criação. Há uma espécie de cobrança intrínseca nisso. O próprio leitor tem essa curiosidade e o próprio mercado editorial incentiva a mostrar os bastidores do fazer literário. Para isso o escritor vai criando a sua própria mitologia de si. Os mitos da predestinação são tão iguais àqueles que justificam a literatura como algo bancado por acaso pelos autores. Costumo concordar com um amigo Marco Antônio Mendes que diz: o artista é um mestre de obra. Ou seja, no fundo ser ficcionista é um ofício intelectual.

Qual o melhor aliado do escritor?

O tempo. Explico: se o escritor definir bem o seu tempo ele cria, mesmo com todas as outras dificuldades.

E qual o maior inimigo?

O tempo. A morte pode chegar antes que qualquer coisa possa ser realizada de maneira significativa.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Sou daqueles que acreditam que todo ato é político. Escrever se inclui nisso. Principalmente por se encontrar inserido ao campo das ideias e da mobilização intelectual.

Quais os aspectos que você leva em conta no momento que começa a escrever?

A pesquisa. Não só na prosa, que pode ser ficcional ou não, mas na poesia também. Eu só começo a escrever quando eu tenho escrito um volume de dados desordenados nos meus cadernos, no computador e na minha mente. O livro começa quando ele já se encontra avançado no mundo das “ideias soltas”.

A literatura existe para entendermos o começo, o meio ou fim?

Acho que os três. As descontinuidades fazem parte do processo.

Se escreve para buscar respostas ou para estimular as dúvidas?

Há escritores que buscam respostas e outros para estimular as dúvidas. Prefiro aquele tangenciado pelo segundo grupo.

Criar é tatear no escuro das incertezas?

E na claridade das certezas absolutas.

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

Vou citar um que li recentemente. Estou com preguiça de procurar meu Dostoievski. Segue:  “Da crise de tantos anos atrás ambos apreendemos que, para viver juntos, é preciso dizer bem menos do que calamos” (Laços, Domenico Starnone)

É possível recriar o silêncio com as palavras? Como?

A consciência do silêncio pode ser um alimento para a escrita. Entendo o silêncio como um discurso interior. Acho que a frase acima do Starnone responde também essa pergunta.

Você acredita que qualquer pessoa pode escrever uma história? Mas, então, o que vai fazer dela escritora, de fato?

Somos demarcados por narrativas, sejam orais, escritas, televisadas. Portanto, acredito que temos uma população bastante criativa e digna de reinventar o mundo através da ficção. Porém, alguns se dedicam e possuem um grau de consciência de linguagem maior e escolhem oficio da escrita para isso. É como se tivéssemos um funil, a vida, a formação, as oportunidades, a cultura letrada, as amizades, a questão econômica, a sensibilidade vai moldando determinadas pessoas a escolherem a se aventurar na escrita. Boas ou ruins, só a crítica, a academia e os leitores vão dizer.

É preciso saber olhar o mundo com os olhos da ficção? O mundo fica melhor ou pior a partir dessa observação?

Depende dos olhos de cada um. Conheço pessoas que se tornaram melhores com a leitura literária, outras são o que são, mesquinhas, vaidosas. Acho que depende mais de personalidade de cada um.

Todo texto ficcional, mesmo os mais extensos, acaba sendo apenas um trecho ou fragmento da história geral? Digo, a ficção lança o seu olhar para as esquinas das situações, sendo praticamente impossível se ter uma noção do todo?

Sou daqueles que compreendem a literatura também como um documento. Há ficcionistas, por exemplo, que conseguem ir além dos fragmentos, recriando um mundo, um país, uma identidade, de maneira complexa, de forma universalizante, escrevendo sobre um pequeno microcosmo que seja. Garcia Márquez, Guimaraes Rosa e José Saramago são exemplos.

Nesse sentido, uma história nunca tem início, meio e fim?

Sim, mas podem e devem ser organizado de diversas maneiras.

Você escolhe os seus temas ou é escolhido por eles?

Os dois. Depende muito do projeto. E isso vem da sensação na verdade. Tem temas que estão contigo a vida toda e não produzem artisticamente, já outros nascem de ocasião e tomam conta de tudo, pressionando o artista para que faça ali, já, aquele produto.

É necessário buscar formas de expressão cada vez menos sujeitas ao cânone, desafiando a língua, tornando-a mais “suja”, para se aproximar cada vez mais da verossimilhança que a história pede? Ou seja, escrever cada vez “pior”, longe da superficialidade de escrever “certinho”, como disse Cortázar, talvez na tentativa de fugir da armadilha do estilo único?

Acho que cada escritor deve usar a sua maneira a sua caixa de ferramentas. Não existe manual.

Quando é que um escritor atinge a maturidade?

Desconfio que maturidade é mais um dos mitos dos escritores. Conheço alguns que mesmo na velhice nunca se tornaram maduros.

O leitor torna-se cúmplice do escritor em qual momento?

Começou a ler, virou cumplice. Se esse pacto for bom, ele vai até o final.

 Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

Eu levaria Dom Quixote. Passaria algumas eras lendo e relendo o nosso Miguel de Cervantes. Claro, desde que não seja aquela tradução empolada do Visconde de Castilho e Azevedo.

Qual a sua angústia criadora?

Neste momento é uma percepção de que o meu lugar geográfico me faz ser esquecido e pouco visibilizado. Sinto-me excluído por viver na periferia da periferia do Brasil, no interior do Nordeste, em que não existe um mercado editorial regional, com pouca conexão entre os escritores dos estados vizinhos. Morrei em São Paulo e quando voltei me dei conta que nós aqui do Nordeste, como o Norte e o centro-oeste somos colonizados demais pelos estados do Sul-Sudeste. Isso me angustiou bastante. Gostaria de um dia ver o meu Nordeste com um sistema literário próprio (redes de livrarias, editoras e jornais e sites literários em conexão, criando um microcosmo cultural independente, mas claro em diálogo com todo o Brasil).

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