Márcia Barbieri: “eu escrevo para devolver o que o mundo me ofereceu”

Crédito da foto: Grazi Brum

Por Ney Anderson

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

*********************

Márcia Barbieri nasceu em Indaiatuba, São Paulo, em 1979.  Formou-se em Letras pela Unesp e é mestra em Filosofia pela Unifesp. Participou de várias antologias e tem textos nas principais revistas literárias brasileiras. Foi uma das idealizadoras do Coletivo Púcaro, do canal Pílulas Contemporâneas e do projeto Pinot Noir Literatura. Publicou os livros de contos Anéis de Saturno (ed. independente, 2009), As mãos mirradas de Deus (Multifoco, 2011) e O exílio do eu ou a revolução das coisas mortas (Appaloosa, 2018). Entre os romances figuram Mosaico de rancores (Terracota, 2013) lançado no Brasil e na Alemanha (Clandestino Publikationen, 2016), A Puta (Terracota, 2014/Reformatório, 2020), foi contemplado este ano com uma bolsa de tradução pela PEN America. O enterro do lobo branco (Patuá, 2017), finalista como melhor romance de 2017 pelo Prêmio São Paulo de Literatura 2018 e A casa das aranhas (Reformatório, 2019), finalista do Prêmio Guarulhos e semifinalista do Prêmio Oceanos.

*********************

O que é literatura?

Tudo que pode ser traduzido em palavras.

O que é escrever ficção?

Viver atormentada por uma ideia, uma história, uma palavra.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Até se levantar da cama é um ato político.

Você escreve para oferecer o quê ao mundo?

Eu escrevo para devolver o que o mundo me ofereceu.

O que pretende tocar com a palavra literária, com a ficção?

Tocar outro ser humano.

Um mundo forjado em palavras. Se o tempo atual pudesse ser resumido no título de um livro, seja ele hipotético ou não, qual seria?

Tempo de cão, meu romance em construção.

Crédito: Thaís Barbeiro

A incompletude faz parte do trabalho do ficcionista? No sentido de que nunca determinado conto, novela ou romance, estará totalmente finalizado?

Acredito que estamos sempre reescrevendo o mesmo livro.

Qual o pacto que deve ser feito entre o escritor e a história que ele está escrevendo?

Qualquer coisa, menos o abandono.

O que pode determinar, do ponto de vista criativo, o êxito e o fracasso de uma obra literária?

Não existe fracasso literário.

Como surgiu em você o primeiro impulsivo criativo?

Difícil determinar… mas, me lembro que na quarta série fiquei extasiada ao escrever um poema para o meu pai, embora mal compreendesse o que era ser escritor e o que era um poema…

As suas leituras acontecem a partir de quais interesses?

Eu leio mais ficção do que outros gêneros, no entanto, qualquer assunto me interessa, pode partir de qualquer curiosidade.

Escrever e ler são partes indissociáveis do mesmo processo de criação. Como equilibrar o desejo de ler com o de escrever?

Eu leio muito mais do que escrevo, não porque escolhi, mas porque a escrita exige muito mais de mim.

Um escritor é escritor 24 horas por dia? É, ao mesmo tempo, uma benção e uma maldição?

Eu prefiro acreditar que seja uma benção.

O crítico Harold Bloom falava sobre o fantasma da influência. Você lida bem com isso?

No começo tinha bastante receio da influência, hoje não me incomoda mais, se está na minha mente já atravessou a minha subjetividade.

O escritor sempre está tentando escrever a obra perfeita?

Não, está tentando sempre escrever uma obra imperfeita com um tanto de perfeição.

Como Flaubert disse certa vez, escrever é uma maneira de viver?

Existe outras? Eu conheço só essa.

Quando você chega na conclusão de que alcançou o objetivo na escrita (na conclusão) da sua história? 

Eu nunca chego, por isso, escrevo novos romances.

A literatura precisa do caos para existir?

Não sei se precisa, mas não conheço nada que não seja caótico.

O escritor é um eterno inconformado com a vida?

Não sei responder, eu acho que eu sou conformada com a minha vida.

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

“Tu podes ir e ainda que se mova o trem, tu não te moves de ti” H.H., trecho tatuado na minha costa.

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

O obsceno pássaro da noite, do José Donoso

Qual a sua angústia criadora?

Escrever

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *