Cássia Penteado: “entre o desejo de escrever e o prazer de ter escrito, reside essa angústia criadora”

Por Ney Anderson

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

 

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Cássia Penteado é escritora, advogada e tradutora. Foi colaboradora do Jornal Diário da Região, em São José do Rio Preto. É autora de peças de teatro infantil, O Coelhinho Joca e A Verdadeira História do Meu Computador, com as quais conquistou prêmios em Festival de Teatro da Região de São José do Rio Preto. Em 2018, lança o romance EntreMeios, pela Editora Reformatório. Em 2019, participa com o poema Cenas da Antologia de Poesia Contemporânea, Além da Terra, Além do Céu. Volume IV, Editora Chiado. Em 2021, participa da Antologia 2020, o Ano Que Não Começou, pela Editora Reformatório, com o conto 2020, o Ano do Rato que o Vírus Roeu. Atualmente trabalha em seu segundo romance.

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O que é Literatura?

Gosto de pensar na Literatura como a arte de inaugurar olhares sobre algo e registra-los esteticamente na linguagem.

O que é escrever ficção?

Eu advogava, para redigir as petições havia de ser muito precisa com os termos, jamais perder o foco de seu significado jurídico. Cerceava-me, também, a necessidade de provar o alegado e o cuidado para não ser excessiva a ponto de enfadar aquele que julgaria o caso.

Escrever ficção é libertador. Multiplicar, ampliar, extrapolar o sentido da palavra, contar uma história sem compromisso estrito com fatos, criar enredos; ainda que eu salpique um tanto de verdade, fonte segura de verossimilhança, de conforto aos leitores – tecer a trama de ficção demanda outros cuidados, os que esbarram nos limites menos rigorosos das técnicas literárias e da sensibilidade.

Vocação, talento, carma, destino… o escritor é um predestinado a carregar adjetivos que tentam justificar o ofício?

Houve épocas bastante perturbadas, eu travava batalhas internas, lutava por uma definição que me conduziria, por fim, à dedicação primordial à literatura.

Escrever é mergulhar em águas frias, há de se ter coragem para enfrentar o desconforto, as dores provocadas pelo choque térmico, a água que entra nos ouvidos e teima por permanecer, a falta de clareza visual, o fôlego que encurta no primeiro contato; a respiração passa a ser consciente. Mas, depois de algumas braçadas, quando o intervalo entre as tomadas de ar já se definiram mais naturais, quando o fôlego começa a ser restituído, (impressionante a capacidade humana de adaptação), as trocas térmicas entre o corpo e o meio se estabilizam equilibradas, já se é parte do todo universal, não há o peso da força da gravidade, há leveza, flutua-se em harmonia, prazer. Recupera-se nesse mergulho, o vigor. A energia vital. O que será isso? Vocação? Talento? Carma? Destino…

Qual o melhor aliado do escritor?

Creio que a leitura e o ócio. As sementes e a terra fértil para o plantio.

Qual o maior inimigo?

Eu diria que, nesse momento, quando a pandemia nos obriga a cumular funções, a falta de tempo tem sido meu pior inimigo. Ter que interromper a escrita quando ela flui bem, com hora marcada para iniciar as ingratas atividades domésticas, por vezes me frustra. Mas, contornar as situações, encontrar meios de solucioná-las, não deixa de ser um exercício de criatividade e descoberta. De aprendizado desse novo modo de viver.  Penso no quanto sou privilegiada por ter saúde, por ter um teto sob o qual me abrigar e abrigar minha família, por poder me alimentar de maneira saudável, por não estar sozinha. Então, por todos os outros que perderam essa guerra ou travam piores batalhas contra essa pandemia, eu me levanto e realizo as funções que se fizerem necessárias.

Escrever é um ato político? Por qual razão?

Eu defini literatura como arte. Arte é um ato político, pela arte se manifesta a resistência, a insubordinação, a benquerença. Hoje, na linha de frente das livrarias encontram-se obras especialmente de autoras, que tratam de racismo, de feminismo. Obras que denunciam as atrocidades cometidas contra outras tantas minorias. Não é um ato político? Escrever sobre esses temas é como ter em mãos o insumo da vacina contra o mal que se pretende combater. É poderoso! Muito já foi feito, e é certo que ainda há um vasto caminho a ser percorrido nessas searas. No entanto, ser um ato político não é inerente à literatura. O compromisso da literatura é com a linguagem. Se esse compromisso for tido como ato político, então escrever é um ato político.

Quais os aspectos que você leva em conta no momento que começa a escrever?

Eu escrevo o tempo todo, todos os dias, nem que seja uma palavra anotada às pressas no celular. Fiquei pensando nessa questão “começar a escrever”, e não posso identificar esse momento. Quando literalmente me sento à frente do computador, eu tenho uma torrente de palavras borbulhando em mim. Eu me afogo nas histórias que vêm em correnteza, não quero perder uma gota de palavra que estoura como uma onda na areia branca da tela do meu computador. Depois, como as ondas, faço o caminho de volta. Em águas profundas encontro os personagens e suas minúcias.

A literatura existe para entendermos o começo, o meio ou o fim?

A literatura existe para perdermos a noção de começo, meio e fim. Aí me vem à lembrança o antirromance, como o próprio autor definiu, “O jogo da amarelinha”, do Cortázar onde, a certa altura, ele oferece ao leitor opções na ordem de leitura dos capítulos. Se você segue pelo caminho sugerido por ele, vai acabar por perceber que não há um fim, mas um ciclo contínuo de trechos indicados.  À literatura nada cabe explicar.

Se escreve para buscar respostas ou para estimular as dúvidas?

Escrevo na ânsia de provocar a multiplicidade de olhares,  não importa se lícitos, se aceitos socialmente, ou não.

À literatura não cabe julgar.

Busco ampliar os portos de chegada e de partida na esperança de que esse exercício de extrapolar, como o movimento de um pêndulo, propicie o derreter dos icebergs de certezas, ainda que pela inquietação, pelo desconforto, mesmo que volte ao mesmo ponto de partida, voltaria mais experiente, mais rico de argumentos, mais convicto.

Procuro oferecer a ideia de redefinir, de ressignificar, propiciando a tomada de consciência da diversidade.

No meu romance de estreia, EntreMeios, lançado em 2018 pela Editora Reformatório, sobre o qual você fez uma resenha inigualável para o site Angústia Criadora, eu trouxe ao mares da literatura, dentre outras, a questão do homicídio. Esvaziado de todo e qualquer valor ético, ou moral, coube discutir seu aspecto plástico. Inquietante? Freud explica.

Criar é tatear no escuro das incertezas?

Pobre de quem tem certezas.

Começo a escrever com uma ideia, ou com um personagem sobre o qual pretendo desenvolver uma história. Mesmo nas crônicas, ou nos contos, textos mais curtos, enredos mais concisos, sempre houve mudanças no desenrolar da escrita. São palavras que se recusam a entrar no texto, outras que se impõe e, muitas vezes, conduzem a desfechos diferentes dos quais eu me propunha no início. No romance no qual venho trabalhando, tive que mudar o nome de uma personagem por razão de transformação de seu temperamento no momento que escrevia sobre ela. Aliás, era uma personagem secundária, criada para alicerçar outro personagem. Escrevia sobre um menino e quis saber quem era a mãe dele. E ela veio para a história. Ganhou um capítulo todo para si, me obrigou a realizar novas pesquisas e quase digo que rouba o protagonismo. Não digo pois ainda não terminei. Quem sabe?

Cite um trecho de uma obra que  te marcou profundamente.

“Os parentes caminhavam na estação ao lado do trem a vapor. A cada passo acenavam com os braços levantados.

Um jovem estava parado atrás da janela do trem. Acomodava seus braços sobre o vidro. Segurava diante de seu peito um buquê de flores brancas despetaladas. Seu rosto estava rígido.

Uma jovem mulher carregava uma criança pálida para fora da estação. A mulher tinha uma corcunda.

O trem ia para a guerra.

Desliguei o televisor.

Meu pai estava num caixão no meio da sala. Nas paredes havia tantos retratos que não se via a parede.

Numa foto, meu pai tinha a metade da altura da cadeira na qual se segurava.

Vestia um camisolão e ficava de pé sobre pernas tortas que estavam cheias de dobrinhas de gordura. Sua cabeça tinha a forma de uma pera e era careca.

Numa outra foto meu pai era o noivo. Via-se apenas a metade de seu peito. A outra metade estava encoberta por um buquê de flores brancas despetaladas que minha mãe segurava nas mãos. Suas cabeças estavam tão próximas que os lóbulos de suas orelhas se tocavam.

Numa outra foto meu pai estava parado ereto diante de uma cerca. Sob seus sapatos grossos havia neve. A neve era tão branca que meu pai estava parado no vazio. Sua mão estava levantada acima da cabeça num cumprimento. Sobre a gola de seu casaco havia runas.

Na foto ao lado, meu pai segurava uma enxada sobre os ombros. Atrás dele havia um pé de milho que se erguia para o céu. Meu pai tinha um chapéu na cabeça. O chapéu fazia uma grande sombra e encobria o rosto de meu pai.

Na outra foto, meu pai estava sentado ao volante de um caminhão. O caminhão estava carregado de bezerros. Meu pai levava, toda semana, os bezerros para o matadouro da cidade.

O rosto de meu pai era magro e possuía traços duros.

Em todas as fotos, meu parecia como se tivesse sido imobilizado no meio de um gesso. Em todas elas parecia assim, como se não soubesse continuar. Mas meu pai sempre soube como continuar, por isso todas as fotos não eram verdadeiras. De tantas fotos falsas, de todas suas falsas expressões, a sala tornou-se fria. Eu queria me levantar da cadeira, porém meu vestido havia congelado na madeira. Meu vestido era preto transparente. Quando eu me movimentava, ele estalava. Levantei-me e toquei o rosto de meu pai. Ele estava mais frio que os objetos da sala. Lá fora era verão…”

Do conto “O discurso fúnebre” do livro

Depressões  –  Herta Müller .

É possível recriar o silêncio com palavras? Como?

“Não há um único silêncio. E todo silêncio é música em estado de gravidez”. Mia Couto – O afinador de silêncios.

Quando digo; gosto das pessoas que carregam o silêncio em si.

Essas pessoas exalam o silêncio pela pele. Um silêncio presente e concreto. Um silêncio impossível de não ser ouvido.

Outro silêncio é o da indignação.

“Enchi meus pulmões de silêncio” . (do romance que escrevo).

São silêncios criados com as palavras, não?

Você acredita que qualquer pessoa pode escrever uma história? Mas, então, o que vai fazer dela escritora, de fato?

Acredito que qualquer pessoa pode escrever uma história, como na música, qualquer pessoa pode aprender a tocar um instrumento. Haverá, contudo, os mais dedicados, os persistentes; dentre eles hão de se destacar os talentosos. E ainda há os abençoados que nasceram com o dom; porém os dons também carecem de lapidação.

É preciso saber olhar o mundo com os olhos da ficção? O mundo fica melhor ou pior a partir dessa observação?

Uma pitada de Rubem Alves, de Manoel de Barros e levaremos nossos olhos para passear num quintal maior que o mundo, seremos capazes de inventar memórias.

Todo texto ficcional, mesmo os mais extensos, acaba sendo apenas um trecho ou fragmento da história geral? Digo, a ficção lança o seu olhar para as esquinas das situações, sendo praticamente impossível se ter uma noção do todo?

Vejo o todo em cada esquina.

Essa manhã eu li um trecho do livro O mesmo mar de Amós Oz, que me deixou plena. O instante descrito na cena abaixo contém a plenitude, o todo.  Tive que esperar um pouco, deixa-lo afastar-se de mim,  aliviar o sentido, pois não haveria lugar para mais nada. Vou dividir com vocês:

“ Depois ele vagueia um pouco e volta ao bulevar Rothschild.

E quando saiu a chuva passou. O bulevar é uma menina surrada e despida por uma gangue, largada ali, deitada de costas toda rasgada e ensopada. Agora ela ouve as copas das árvores prometendo uma espécie de segundo silêncio, que tem seu lugar ao final das vergonhas da degradação, um pequeno silêncio, como nascer: não mais erguerei meus olhos para as montanhas mas estarei aqui agora deitada quieta na poça de águas barrentas e estagnadas. Aí está o vento, aí o sussurro das asas dos pássaros, alinhavando um ar úmido, descosturando, recosturando, descosturando de novo. Tudo agora é cinzento é macio. No seu lugar. Na sua cama. Sinto o perfume da boa chuva e o perfume da terra. Tudo passou.”

(Interessante que ele fala aqui de outros silêncios. Como o nascer.)

Nesse sentido, uma história nunca tem inicio, meio e fim?

Um dia somos gerados, termo inicial de nossa jornada pessoal a caminho da morte, o termo final. Isso é fato. Isso é para todos os seres viventes.

O desenrolar desse caminho é único. Podemos interferir nesse intervalo entre os termos inicial e final. É o processo de viver. São as propostas que a vida nos faz, as nossas escolhas. As possibilidades que se apresentam, as pedras que implodimos, ou nos desviamos; as circunstâncias alheias a nossa vontade nas quais nos vemos envolvidos. Os acertos, os enganos.

Nesse tecer de circunstâncias as histórias são escritas.

Não posso chamar esse complexo de inúmeras relações de interdependência simplesmente de “meio”. Assim é o todo que se nutre de cada situação.

Você escolhe os temas ou é escolhido por eles?

O que tenho percebido é que as personagens femininas conduzem meus textos. Em EntreMeios, a personagem já era desde o inicio aquela mulher, artista plástica. Mas nesse romance que escrevo, eram pai e filho. Porém, havia uma poetisa e uma mulher hospitalizada. Elas estão roubando as cenas. Tenho notado… E ainda, há outra história engavetada, adivinhe se não começou por uma personagem feminina? Eu não busquei isso. A mim me importa contar uma história e  a linguagem por meio da qual ela se apresenta.

É necessário buscar formas de expressão  cada vez menos sujeitas ao cânone, desafiando a língua, tornando-a mais “suja”, para se aproximar cada vez mais da verossimilhança que a história pede?  Ou seja, escrever cada vez “pior” longe da superficialidade de escrever “certinho”, como disse Cortázar, talvez na tentativa de fugir da armadilha de um único estilo?

A língua é um instrumento de comunicação. É preciso expressar-se e é preciso que o outro compreenda. A língua é viva, sujeita a transformações, sujeita aos costumes temporais e regionais. É válido lançar mão dessas transformações, até mesmo provocá-las, a fim de se projetar com maior fidelidade e precisão as imagens, os personagens que se cria. Não seria possível respeitar a ortografia e reproduzir um diálogo entre dois analfabetos. Seria irreal. Esse escrever “pior”, pode enriquecer, dar o tom a história. Só para ilustrar, há um livro do Mia Couto cujo título é Estórias Abençonhadas. Ele ousa criar tantas palavras. Não poderia ser melhor.

Quando é que um escritor atinge a maturidade?

Não creio que isso aconteça. Acredito, como disse, no dom da escrita, na labuta com as palavras, no esforço, no desafio cotidiano.

O leitor torna-se cumplice do escritor em qual momento?

No momento que o leitor sente que o escritor o toma pela mão e diz: “vem comigo”  – e ele não pode resistir.

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

O mesmo mar – Amós Oz. Ele iria comigo até se eu fosse subitamente arrebatada.

Qual sua angústia criadora?

Sempre dizemos: escrever é bom, o melhor é ter escrito.

Entre o desejo de escrever e o prazer de ter escrito, reside essa angústia criadora. É a mola propulsora da escrita. Esse estado de inquietude que mina minha atenção para as coisas racionais. Se estou em contato com a natureza, a angustia criadora galopa em êxtase, e a escrita em estado alterado de consciência toma as rédeas.

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