Luigi Ricciardi: “escrever é um recorte, não se chega nunca à completude”

Crédito da foto: Rafaela Barbieri

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

 

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Luigi Ricciardi é professor de francês e literatura. Tem mestrado e doutorado em Estudos Literários. Nascido em Londrina, vive em Maringá. Fundou a revista Pluriverso e mantém a Acrópole Revisitada, blog de resenhas literárias. Publicou os livros de contos: Anacronismo moderno (2011), Notícias do submundo (2014), Criador e criatura (2015), Antes fosse uma metáfora morta (2018) e A aspereza da loucura (2018). Os passos vermelhos de John é seu primeiro romance.

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O que é literatura?

É o que ainda me mantém de pé.

O que é escrever ficção?

É a continuação, na idade adulta, do fabular de criança.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Sim, porque falar do humano em sociedade é ser político.

Você escreve para oferecer o quê ao mundo?

Nada.

O que pretende tocar com a palavra literária, com a ficção?

Tocar o fundo de mim mesmo.

Um mundo forjado em palavras. Se o tempo atual pudesse ser resumido no título de um livro, seja ele hipotético ou não, qual seria?

“Caos: história do homo sapiens”

A incompletude faz parte do trabalho do ficcionista? No sentido de que nunca determinado conto, novela ou romance, estará totalmente finalizado?

A última linha escrita dá início à primeira linha não escrita. Escrever é um recorte, não se chega nunca à completude. E o que está escrito é só uma versão que se decidiu publicar.

Qual o pacto que deve ser feito entre o escritor e a história que ele está escrevendo?

O de se confiarem mutuamente.

O que pode determinar, do ponto de vista criativo, o êxito e o fracasso de uma obra literária?

Não acreditar na própria história.

Como surgiu em você o primeiro impulsivo criativo?

Necessidade de me expressar de alguma maneira.

As suas leituras acontecem a partir de quais interesses?

Do humor e da vontade do dia.

Escrever e ler são partes indissociáveis do mesmo processo de criação. Como equilibrar o desejo de ler com o de escrever?

Não faço ideia. Só sei que sou mais leitor que escritor.

Um escritor é escritor 24 horas por dia? É, ao mesmo tempo, uma benção e uma maldição?

Eu não suportaria ser escritor por tanto tempo. Sou por apenas alguns breves períodos.

O crítico Harold Bloom falava sobre o fantasma da influência. Você lida bem com isso?

Sim, não acho que seja assim de tão fácil contaminação.

O escritor sempre está tentando escrever a obra perfeita?

A obra perfeita é apenas a obra perfeita para aquele momento. Dois dias se passam e então a obra perfeita já se torna outra.

Como Flaubert disse certa vez, escrever é uma maneira de viver?

É se eternizar depois de ter partido.

Quando você chega na conclusão de que alcançou o objetivo na escrita (na conclusão) da sua história? 

Quando contei o que queria contar.

A literatura precisa do caos para existir?

Precisa dele e luta pelo fim dele.

O escritor é um eterno inconformado com a vida?

O artista, num geral, é. As páginas são: ou nosso ideal de substituição da realidade ou nossa raiva em relação a essa realidade.

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

“Comecemos por uma célebre tarde de novembro, que eu nunca esqueci…”

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

O que estiver mais ao alcance da mão.

Qual a sua angústia criadora?

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