Eduardo Sabino: “a literatura existe para experimentarmos outros começos, meios e fins, enquanto o nosso próprio fim não chega”

Crédito das fotos: Cristiano Silva Rato

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

 

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Eduardo Sabino é escritor e editor na Caos & Letras, com quatro livros de contos publicados, entre eles Limbo (2021), Estados Alucinatórios (2019) e Naufrágio entre Amigos (2016). Venceu com o conto “Sombras” o prêmio Brasil em Prosa 2015, organizado pelo jornal O Globo e a Amazon. Já teve textos publicados em Portugal, Argentina e Moçambique.

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O que é literatura?

Para o leitor que sou, literatura é tudo o que tem alguma força para me transportar, comover, desconfortar, impactar através da palavra. Tudo em peso e medida particular e variável ao longo do tempo.

O que é escrever ficção?

Uma forma de escrever pessoas, compor mundos, narrar outras vidas, expressar visões de mundo, codificar os furacões de meu espírito. Às vezes também escrevo movido por uma necessidade misteriosa de escrever, explorar a linguagem, por desejo, hábito, vício: para me permitir um mergulho no inconsciente e em motivações que jamais estarão muito claras para mim.

Vocação, talento, carma, destino…..o escritor é um predestinado a carregar adjetivos que tentam justificar o ofício?

Sim, todas as pessoas carregam justificativas. As pessoas contam histórias para as outras e para si mesmas sobre por que fazem o que fazem. Com o escritor não é diferente. Você se mete num canto escuro da casa para narrar uma história que está te tirando o sono, enquanto sua família dorme; você troca a vida real que está transcorrendo na sua frente para ficar horas enfiado numa ficção que nem final tem porque você não a terminou (nem sabe se vai conseguir a terminar de forma satisfatória). Normal que em algum momento você se pergunte por que está fazendo isso. Se isso pode ser mais que um hábito. Se é algo que você quer desenvolver, aprofundar, se dá sentido à sua vida tanto ou mais que outras coisas importantes para você. Esses termos; carma, destino não deixam de ser uma história que o ficcionista conta a si mesmo para continuar escrevendo. Assim como qualquer pessoa tenta amarrar sua biografia em justificativas para continuar vivendo. De minha parte, não acredito em histórias de predestinação. Minha história com a literatura é feita de escolhas boas, escolhas ruins e teimosia.

Qual o melhor aliado do escritor?

O tempo: de prática, descoberta e reinvenção.

E qual o maior inimigo?

A necessidade (absolutamente normal, mas perigosa) de aceitação.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Sim. O escritor escreve de uma perspectiva social e política. Disso não dá pra fugir. Ainda que tenha uma relação subjetiva com o mundo e gere um objeto à parte, a literatura joga com forças políticas a todo momento.  Seja pela transgressão, pela ironia, pela contradição. Pelas escolhas autorais: a construção dos personagens, o modo como falam, o olhar sobre o mundo presente na obra, a linguagem, se a forma é mais conservadora, canônica; ou mais contemporânea. Não há saída: o autor escreve e vai fazendo escolhas, que também são políticas, não apenas artísticas.

Quais os aspectos que você leva em conta no momento que começa a escrever?

Começo tentando configurar os elementos que vão ditar o rumo do texto. O tom, o ritmo, a ambientação, a voz narrativa. O início para mim é a hora também de colocar à prova o que me incomodou a ponto de motivar a escrita. Tentar encontrar nas palavras o que antes era algo visual e caótico. Quando forma e ideias não batem, o primeiro parágrafo muitas vezes me aponta. Então levo em conta principalmente que o início precisa traduzir o meu incômodo de forma que me satisfaça, senão nem vou adiante.

A literatura existe para entendermos o começo, o meio ou fim?

Talvez para experimentarmos outros começos, meios e fins, enquanto o nosso próprio fim não chega.

Se escreve para buscar respostas ou para estimular as dúvidas?

A dúvida é um motor da escrita. Assim como a raiva, o medo, a imaginação, a angústia. Também pode ser o fim. Prefiro tudo o que gira em torno do mistério, mas também a busca por respostas pode mover os personagens, a narrativa e estimular as dúvidas.

Criar é tatear no escuro das incertezas?

Sim, e às vezes tatear também o que parece claro, banal, luminoso, óbvio e encontrar mesmo assim pontos cegos e incertezas.

 Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

“Aos dezesseis anos matei meu professor de Lógica. Invocando legítima defesa – e qual seria mais legítima? – logrei ser absolvido por 5 votos contra 2, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. Deixei crescer a barba em pensamento, comprei um par de óculos para míope, passava noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos. Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Rui Barbo, depois finalmente Astrogildo, que é como me chamo ainda hoje, quando me chamo”.

A lua vem da Ásia, Campos de Carvalho.

É possível recriar o silêncio com as palavras? Como?

É possível recriar muitas coisas pela linguagem. Mas há limitações. O silêncio absoluto é um estado anterior à criação. A treva, a folha em branco. Se uma palavra existe, se passa a existir, ela corta esse vazio. Mas outros tipos de silêncio, as fendas do texto, o que os personagens calam, o que não é dito e o leitor intui, esses são tão importantes quanto o que está claro e sonoro. Não dizer tudo, usar elipses narrativas são formas de compor com palavras e silêncios.

Você acredita que qualquer pessoa pode escrever uma história? Mas, então, o que vai fazer dela escritora, de fato?

Sim. A condição é ser alfabetizada apenas. O que vai fazer dela escritora é o hábito, a insistência, a leitura, o amadurecimento dentro da vertente que ela deseja escrever. O que vai fazer dela uma boa escritora envolve tantas coisas e percepções diferentes que não cabe aqui discutir.

Mas os escritores, assim como outros artistas, constroem uma singularidade que os diferencia dos demais. Acho que se fazer escritor é uma luta constante e passa por aí.

É preciso saber olhar o mundo com os olhos da ficção? O mundo fica melhor ou pior a partir dessa observação?

O olhar da ficção talvez amplie a nossa visão sobre a condição humana, a complexidade das pessoas e deste tempo, mas não altera o mundo. Muitas vezes o olhar que lança sobre ele só ajuda a mostrar, como disse Faulkner, “a escuridão que há em volta”.

Todo texto ficcional, mesmo os mais extensos, acaba sendo apenas um trecho ou fragmento da história geral? Digo, a ficção lança o seu olhar para as esquinas das situações, sendo praticamente impossível se ter uma noção do todo?

Sim. E acho que não alcançar o todo, ser incompleta, insuficiente é o que fez a ficção e a arte em geral perdurarem. O que não está completo não tem fim, não se esgota. Sempre haverá mais um texto por escrever, explorando uma nova esquina, sempre haverá um outro filme a ser feito com uma mistura de referências singular. Definitivo é um adjetivo mentiroso para qualquer obra que seja associado. Haverá sempre uma brecha que será ponto de partida para outro trabalho artístico. A ficção será sempre uma experiência particular. Até a noção do todo que alguém pode ter ao juntar tudo o que leu e viu na vida será uma noção do todo particular.

 Nesse sentido, uma história nunca tem início, meio e fim?

Nesse sentido sim, acredito nisso. Algo como a biblioteca de Borges.

Você escolhe os seus temas ou é escolhido por eles?

Sou escolhido, cada vez mais. O tema tem que invadir a mente e incomodar. Ficar ali pedindo enredo, personagens e forma. E ir se construindo aos poucos como algo que valha a pena ser escrito.

É necessário buscar formas de expressão cada vez menos sujeitas ao cânone, desafiando a língua, tornando-a mais “suja”, para se aproximar cada vez mais da verossimilhança que a história pede? Ou seja, escrever cada vez “pior”, longe da superficialidade de escrever “certinho”, como disse Cortázar, talvez na tentativa de fugir da armadilha do estilo único?

Acho que as formas literárias são muitas, umas mais contemporâneas e ousadas, outras mais conservadoras/canônicas. Uma forma-padrão, qualquer que seja, pode ser limitadora. Para dar um exemplo, Rubem Fonseca foi um baita contista e renovou o conto brasileiro. Poucos duvidam disso. Mas se ele se tornar um modelo de estilo a ser reproduzido ou simulado, e durante certo tempo talvez tenha sido, temos aí a armadilha da busca de um estilo único para um texto que não tem nada de certinho.

A diversidade de linguagens potencializa a literatura, sempre. Aumenta suas vertentes e possibilidades.

O pior e o melhor existem no contexto específico de cada narrativa. De acordo com os pesos e medidas ali manipulados. O escritor deve ter liberdade para fazer uso do que bem entender, da gíria ao palavrão, dos recursos convencionais aos mais transgressores e variar as formas conforme as necessidades de seu projeto.

Quando é que um escritor atinge a maturidade?

Vou levar essa pergunta comigo para quando eu me sentir maduro o suficiente para respondê-la (risos).

O leitor torna-se cúmplice do escritor em qual momento?

Quando estão completamente sozinhos, o escritor nas páginas do livro, o leitor em um cômodo frio, conectados noite adentro.

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

Ficções, de Borges.

Qual a sua angústia criadora?

Puxar inutilmente um cabo de força: contra a morte, contra o mundo e contra mim.

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