Mariana Paiva: “é possível usar palavras para abrir portas”

Crédito das fotos: Iracema Chequer

Por Ney Anderson

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

 

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Mariana Paiva é escritora, jornalista e professora de escrita.  Mestre em Cultura e sociedade pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e doutoranda em teoria e crítica literária na Universidade de Campinas (Unicamp). É autora de cinco livros: Vermelho-Vida (Patuá, 2018), Canto da rua (Penalux, 2016), Damário Dacruz: um homem, uma surpresa (Edições ALB, 2015), Lavanda (Kalango, 2014) e Barroca (P55 Edição, 2011).

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O que é literatura?

Essa é a pergunta de um milhão de reais, né? Pra além das definições de livros – que qualquer minuto no Google resolve – pra mim literatura é toda vez que a palavra pulsa num mundo novo.

O que é escrever ficção?

Acho que escrever ficção é nossa possibilidade de criar mundos através da palavra.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Sou suspeita, porque realmente acredito que TUDO que vem da ação humana é um ato político, e escrever não foge à regra. A gente sempre escreve de um lugar, que inevitavelmente significa não estar em outros. São escolhas feitas a partir de nosso repertório pessoal, imagético, de palavras. Por que escrever isso e não aquilo? Quem é que está escrevendo? Gosto sempre de pensar nisso: escrever é recortar, e por isso mesmo, um ato político, um jeito de estar no mundo, de se posicionar.

Para além do aspecto do ofício, a literatura, de forma geral, representa o quê para você?

Um jeito de agarrar o mundo. De viver outras vidas além da minha – nossa experiência na Terra é infinita mas também limitada pelo corpo, pelo entorno em que vivemos. A literatura é meu jeito de transcender, de ir além do que meus olhos podem ver, do que meus ouvidos ouvem, de minha própria experiência individual de estar no mundo. Ler enriquece a gente nesse sentido de que podemos saber ou imaginar mais, criar imagens mentais de como seria aquele mundo que lemos, isso pensando em ficção. Acho que o grande trunfo da arte é exatamente o de mapear a vida, as possibilidades, abrir portas, e isso é lindo.

O escritor é aquela pessoa que vê o mundo por ângulos diferentes. Mesmo criando, por vezes, com base no real, é outra coisa que surge na escrita ficcional. A ficção, então, pode ser entendida com uma extensão da realidade? Um mundo paralelo?

Talvez seja bom pensar na ficção como extensão da realidade interior de quem escreve, mais do que da realidade externa. É lindo – e também assustador – pensar que tudo pode existir ou acontecer no terreno da arte. Do lado de fora dela, somos limitados pelo corpo, pela geografia, pela ciência. Na ficção podemos fazer uma chuva torrencial não ser capaz de apagar um incêndio. Essa falta de limite é bonita mas também assusta, como eu disse antes…

Quando você está prestes a começar uma nova história, quais os sentimentos e sensações que te invadem?

Começo a escrever sempre por causa de uma inquietação: o tema fica martelando até que eu enfim vá escrever. A ideia está ali, e às vezes eu deixo que ela descanse um pouco, anoto num caderninho e esqueço. Um dia, folheando, a ideia já volta mais segura de si, mais estabelecida, e começo a escrever. Nesse meio tempo fico pensando sobre ela, que vai crescendo até que seja escrita. Acho ótimo que o próprio nome do site, Angústia criadora, vem desse entendimento: que criar é uma inquietação, uma angústia, que vai crescendo até virar arte. Para mim é assim que funciona, e é bem bonito ver quando uma ideia toma conta da gente, pede pra sair do corpo e habitar o mundo.

A leitura de outros autores é algo que influencia bastante o início da carreira do escritor. No seu caso, a influência partiu dos livros ou de algo externo, de situações cotidianas, que te despertaram o interesse para a escrita?

Eu amo ler. Acho que ler outros autores e outras autoras foi o que me trouxe até aqui, e honro cada uma dessas vozes que me ensinou e me ensina a escrever melhor. Além disso, mudou minha vida conhecer Mabel Velloso quando eu tinha cinco ou seis anos. Ela foi na minha escola participar de uma feira de livro e contou como era ser escritora. Vê-la ali, em carne e osso, me fez entender que eu podia escolher ser escritora. Devo muito a esse momento e a Mabel, que segue comigo para onde quer que eu vou: ela escreveu a apresentação de meu primeiro livro e eu escrevi a quarta capa do livro mais recente dela. É uma honra, uma alegria grande demais até mesmo pras palavras.

Você escreve para tentar entender melhor o que conhece ou é justamente o contrário? A sua busca é pelo desconhecido?

Adoro o que não sei, o que não faço a menor ideia, adoro o lugar onde não estou. Pra mim é o que mais me motiva a escrever, o que desconheço.

O que mais te empolga no momento da escrita? A criação de personagens, diálogos, cenas, cenários, narradores….etc?

A escolha das palavras, saber como quem narra vai se expressar, como as personagens vão…é o que eu mais amo.

Um personagem bem construído é capaz de segurar um texto ruim?

Acho que não, e nem deve. É muita pressão para a coitada da personagem. Melhor ser pescada do texto e ser inserida num contexto melhor…

Entre tantas coisas importantes e necessárias em um texto literário, na sua produção, o que não pode deixar de existir?

Coragem. Quem tem medo não escreve.

Nesse tempo de pandemia, de tantas mortes, qual o significado que a escrita literária tem?

Um respiro. Menos para as mulheres, que sabemos que andam mais do que atarefadas em suas casas, com filhos, roupas pra lavar, chão pra limpar e maridos – em sua maioria, claro – absolutamente ineficientes para viver a dois. Pra pensar isso, aliás, tem gente bem melhor que eu, que é Virginia Woolf, em seu livro Um teto todo seu.

No Brasil, o ofício do escritor é tido quase com um passatempo por outras pessoas. Será que um dia essa realidade vai mudar? Existem respostas lógicas para esse questionamento eterno?

Considerando que estamos vivendo cada vez mais imersos numa atmosfera neoliberal, em que tempo é dinheiro, e que bom mesmo é gerar riquezas, ações na bolsa, mesmo que isso nos custe o planeta, acho difícil que as pessoas tenham mais sensibilidade com quem cria (literatura ou outra forma de arte). Veja bem: não acho que ninguém tem que jogar seu iPhone no lixo nem fechar sua conta em banco. Mas é preciso ter pensamento crítico para não validar somente o que parece produtivo à primeira vista e desvalorizar o trabalho criativo.

A imaginação, o impulso, a invenção, a inquietação, a técnica. Como domar tudo isso?

Não domando, deixando rolar, deixando acontecer naturalmente, como diz aquele pagode famoso. Escrever é um exercício de perder o controle, mais do que controlar.

O inconsciente, o acaso, a dúvida…o que mais faz parte da rotina do criador?

O olhar atento. Não adianta ter técnica se não tem olhar: é como fotografar. Não adianta saber manejar a máquina com perfeição se não sabe enxergar nas coisas o essencial.

O que difere um texto sofisticado de um texto medíocre?

Não sei se acredito em textos medíocres. Acho que cada texto tem seu mérito e seu lugar de estar no mundo. Há textos para os quais não sou uma leitora a ser considerada, e não são medíocres por isso, apenas são escritos para outras pessoas lerem. Penso nisso também em relação aos textos sofisticados, que também podem ser herméticos demais e não me servirem. Acredito que se as pessoas estivessem escrevendo mais tudo estaria melhor, principalmente no Brasil. Mas isso é, sobretudo, uma questão de políticas voltadas para a educação.

O leitor torna-se cúmplice do escritor em qual momento?

No momento em que gruda no texto e quer continuar a ler mesmo podendo escolher ver Netflix…

O leitor ideal existe?

Pra mim não, e eu acharia muito chato que existisse. Cada leitor, com suas imperfeições, complementa, com sua leitura, a obra incompleta e imperfeita do autor da autora imperfeita. Acho que a graça da coisa está exatamente aí.

O simples e o sofisticado podem (e devem) caminhar juntos?

Ah, sem sombra de dúvida! Em minha experiência enquanto escritora, mas também como jornalista e professora de escrita, cada vez mais eu acho isso: é possível ser profundo sem ser hermético, sem falar somente para iniciados. É possível usar palavras para abrir portas.

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

É o trecho final de As cidades Invisíveis, de Italo Calvino

“O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.”

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

Eu vou mudar essa resposta toda semana, mas vamos lá: Léxico familiar, de Natalia Ginzburg.

Qual a sua angústia criadora?

Ter tempo de criar…

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