Helena Cerello: “criar é ter coragem de se descobrir vazio. E coragem de dar passagem para o que está nesse silêncio”

Crédito: Talita Miranda

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

 

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Helena Cerello nasceu em 1977 em São Paulo. Estudou administração de empresas na Fundação Getúlio Vargas (FGV/SP) e teatro no teatro-escola Célia-Helena. Trabalha como atriz desde 2000, com destaque para a sua trajetória no teatro paulistano, em especial com sua companhia Vadabordo, com a qual realiza o monólogo ‘O Peso do Pássaro Morto’, inspirado no livro de Aline Bei; e a sua experiência junto à companhia teatral Le Plat du Jour, onde recebeu, junto ao grupo, dentre outros, o prêmio APCA. Além de ser atriz, escreve ficção e lançou o romance Ninguém abandona o Paraíso pela porta da frente (Editora Quelônio).

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O que é literatura? 

É um espaço para a ressignificação, é liberdade, é invento, nesses tempos que vivemos é coisa que salva, projeta outros mundos, é mergulho, salto, a chance de não termos uma única história ao se tratar de um coletivo, um povo, uma civilização e ao mesmo tempo a chance de termos uma história única.

O que é escrever ficção? 

Ficção é a filha rebelde da literatura, aquela que acha que pode tudo.

Vocação, talento, carma, destino…..o escritor é um predestinado a carregar adjetivos que tentam justificar o ofício?

O escritor muitas vezes escreve para fugir de tudo isso, vocação, talento, carma, destino. É como se precisasse também negar tudo isso, pra aceitar o que vem.

Qual o melhor aliado do escritor? 

A melhor aliada do escritor é a fluidez. Aquela que você procura simplesmente te encontrar.

E qual o maior inimigo?

O querer controlar a escrita.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Crédito: João Caldas

Sim, acredito que é um ato político, pois aquele que expressa o sente e pensa do que vive e como vive está alterando o seu entorno. Traduzir a vida em linguagem, inevitavelmente, é um ato político, mesmo que o conteúdo em si não seja político. É possível escrever totalmente de modo alienado do mundo, desde que seja algo consciente, sabendo que esse silêncio também é uma escolha, e tem consequências. Imagina se todos os escritores escrevessem sobre a pandemia? Agora imagine, se todos não escrevessem? Acredito que nossa escrita pode, mas não precisa se pautar apenas pela realidade. Acredito na diversidade de nossas vozes.

Quais os aspectos que você leva em conta no momento que começa a escrever? 

Levo em conta a urgência do que preciso dizer a partir do que sinto que está no ar pra ser dito por mim.

A literatura existe para entendermos o começo, o meio ou fim? 

Literatura existe, na minha humilde opinião, para tocarmos nesse mistério que é vivermos em uma ilusão, que é o tempo. O tempo só existe em relação. Nós só envelhecemos porque temos um corpo, e se não tivéssemos? A literatura vem para expandir nossa forma de estar aqui, nessa vida, nessa relação com a realidade versus o invisível. É como se pudéssemos nos conectar com esse mistério, e ao mesmo tempo experimentar esse outro tempo e espaço dentro de nós mesmos, seja no momento de ler ou escrever. Nós podemos isso, graças a arte. A literatura, em especial, eu acho que é um ato de alquimia, de profunda entrega ao presente. Gosto de um conceito do Einstein que se chama presente estendido. É como se pudéssemos dilatar o presente, acessar outras dimensões do tempo. Literatura existe, entre outros motivos, para tocarmos nesse mistério, de vivermos tão imersos em uma ilusão, que é o tempo, o começo, o meio e o fim.

Se escreve para buscar respostas ou para estimular as dúvidas? 

Escrevo hoje porque contar histórias é o que tenho de melhor pra dar ao mundo, no sentido de me ouvir e de ouvir o mundo que está ao meu alcance. Me pergunto hoje, que histórias contar? Eu, uma mulher cis branca heterossexual, isso me convida a exercitar minhas vozes internas, e como narradora tenho tido mais dúvidas ultimamente que respostas. Dizem que atraímos o que somos não o que queremos. Estou com muitas dúvidas nesse momento para trazer respostas com minha escrita.

Criar é tatear no escuro das incertezas? 

Criar é ter coragem de se descobrir vazio. E coragem de dar passagem para o que está nesse silêncio.

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

“Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende”

João Guimarães Rosa

Trecho de Grande Sertão Veredas:

“Reza é que sara da loucura.

Hem? Hem? O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é a salvação da alma… Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio… Uma só, para mim, é pouca, talvez não me chegue. (…) Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca. (…) Muita gente não me aprova, acham que lei de Deus é privilégio, invariável”

É possível recriar o silêncio com as palavras? Como?

Creio que a poesia tem essa vocação. De desnudar o que não exatamente existe para ser dito. É o limiar da linguagem. Escrever poesia e dançar o silêncio é muito próximo. A Pausa faz parte do movimento, o silêncio do gesto. Hoje em dia, em tempos difíceis que estamos vivendo, é como olhar a alegria e o desespero, eles estão sempre de mãos dadas, assim é o silêncio, sempre ao lado de um bom poeta. Dizendo, está bom assim, está dito, não precisa dizer mais nada.

Você acredita que qualquer pessoa pode escrever uma história? Mas, então, o que vai fazer dela escritora, de fato? 

Acredito que todos podem escrever, mas o que te torna mesmo um escritor, eu não acredito que é o reconhecimento, e sim as horas de voo. Veja Van Gogh, na pintura. Uma vez ouvi de um escritor que admiro muito, Lourenço Mutarelli, eu perguntei. ‘Lourenço, quando saber que um texto está pronto? Que não precisamos mais mexer nele’. Ele disse: ‘O dia que você souber isso, pode saber, você se tornou um escritor’.

É preciso saber olhar o mundo com os olhos da ficção? O mundo fica melhor ou pior a partir dessa observação? 

Sim, ainda que seja uma forma de defesa ou de fragilidade absoluta. Um perigo ou uma mordaça.

Essa medida só o tempo e a alma pra dizer.

Todo texto ficcional, mesmo os mais extensos, acaba sendo apenas um trecho ou fragmento da história geral? Digo, a ficção lança o seu olhar para as esquinas das situações, sendo praticamente impossível se ter uma noção do todo? 

Acho que tem os dois lados.

Dizem que o Anton Tchekhov tinha o hábito de escrever, escrever e depois cortar o início e o final do texto, porque ele dizia que ali estavam os excessos. Acho que é muito particular da escrita de cada um esse revelar. Eu tenho o hábito de escrever e reescrever. Mas tem escritores que escrevem muito e depois cortam, centenas de páginas, o Reinaldo Moraes, já li ser assim. Acho bela essa arqueologia de olhar para o texto e imaginá-lo como uma arquitetura incompleta, em construção. É como ouvir uma letra de música e tentar desvendar o que estava no coração do compositor no momento a composição.

Nesse sentido, uma história nunca tem início, meio e fim? 

Acho que há uma escolha do escritor, dentre as inúmeras possibilidades, e ela é a resposta.

Você escolhe os seus temas ou é escolhido por eles?

Sou perseguida por eles.

É necessário buscar formas de expressão cada vez menos sujeitas ao cânone, desafiando a língua, tornando-a mais “suja”, para se aproximar cada vez mais da verossimilhança que a história pede? Ou seja, escrever cada vez “pior”, longe da superficialidade de escrever “certinho”, como disse Cortázar, talvez na tentativa de fugir da armadilha do estilo único?

Acredito na fluidez, no escrever como quem dança com suas muletas, tentando não precisar delas.

Quando é que um escritor atinge a maturidade? 

Quando ele sozinho consegue escrever algo, e ter a real sensação de que não precisa escrever mais. De que é aquilo que ele escreveu é o queria ter dito. É manter-se no fluxo da escuta com seu próprio texto.

O leitor torna-se cúmplice do escritor em qual momento? 

Quando o escritor capta a alma de uma geração. Uma dor coletiva. Algo que precisa ser transmutado no todo. Alguém lê e diz para o outro: “você precisa ler esse livro”. Quando o leitor torna-se cúmplice da sua dor ou do seu êxtase, ele se tornou o seu leitor.

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria? 

A queda do céu de Davi Kopenawa.

Qual a sua angústia criadora? 

Não conseguir interlocução. De estar tão entregue à febre, à loucura, e não ser compreendida.

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