Mário Baggio: “o escritor mente quando escreve, com a ilusão de pintar a realidade com um pouco mais de cor e textura”

Por Ney Anderson

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

 

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Mário Baggio é jornalista, escritor e blogueiro. Mantém o blog www.homemdepalavra.com.br, em que divulga diariamente sua produção literária. Publicou quatro livros de contos: A (extra)ordinária vida real (Autografia, 2016), A mãe e o filho da mãe e outros contos (Autografia, 2017), Espantos para uso diário (Coralina, 2019) e Verás que tudo é mentira (Coralina, 2020).Teve textos publicados em várias revistas eletrônicas, entre elas Vício Velho, Diversos Afins, LiteraturaBR, Literatura&Fechadura, Gueto, Ruído Manifesto, Crônicas Cariocas, Escrita Droide, InComunidade e Subversa. Participou da “Antologia Ruínas”, da Editora Patuá, e da coletânea “Fragua de Preces”, editada em espanhol.

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O que é literatura?

Uma mentira. A literatura é uma mentira feita de palavras, expressões, impressões, frases coladas umas às outras, que dão a sensação de que alguém está contando uma história. O ato de escrever, a quem o pratica, permite ludibriar a realidade e criar regras próprias – burlando, fingindo, enganando, iludindo, mentindo! -, sem que ninguém peça ou dê explicações. Nós, os seres humanos, temos uma atração irresistível pelo engano. Gostamos de acreditar que é de verdade o coelho que o mágico tira da cartola, porque sabemos que é tudo uma grande mentira. Se fosse verdade, estaríamos em pânico.

O que é escrever ficção?

Escrever ficção é dar vida a um fingimento, a uma fantasia, à imaginação. É inventar: pôr em palavras algo que não existe ou, se existe, não é como foi descrito pelo escritor. Escrever ficção é subverter a realidade, fazer de conta que ela não existe, fingir que ela não dá toda a base para que a imaginação do escritor ganhe forma e conteúdo. Em verdade, a ficção só é possível porque a realidade a sustenta.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Tudo o que fazemos é um ato político. Fazer algo pressupõe escolhas e renúncias: escolhemos fazer isso porque não queremos fazer aquilo. Se escolhemos uma coisa, renunciamos a outra. Essa escolha é sempre carregada de nossas histórias pessoais, nosso mapa de vida, nossas experiências existenciais. Se alguém decide escrever, é porque decidiu não misturar cimento para levantar uma parede, por exemplo.

Você escreve para oferecer o quê ao mundo?

Esta é uma pergunta que levará quem a responder a um lugar pouco agradável, mesmo que involuntariamente: o da arrogância. Ainda assim, arrisco uma resposta: oferecer consolo ao mundo. Para isso escrevo.

O que pretende tocar com a palavra literária, com a ficção?

O coração e a mente dos leitores. Tirá-los da letargia, de alguma maneira, partindo do princípio de que a literatura deve ser transgressora.

Um mundo forjado em palavras. Se o tempo atual pudesse ser resumido no título de um livro, seja ele hipotético ou não, qual seria?

“Verás que tudo é mentira” – esse seria o título.

A incompletude faz parte do trabalho do ficcionista? No sentido de que nunca determinado conto, novela ou romance, estará totalmente finalizado?

Eu creio que sim. Falo por mim: sempre que releio meus textos já publicados (o que não acontece com muita frequência), vislumbro mil outras possibilidades que não tinha percebido quando coloquei o ponto final. É uma tortura.

Qual o pacto que deve ser feito entre o escritor e a história que ele está escrevendo?

O pacto da lealdade. O escritor deve ser leal à mentira que está contando aos leitores. Deve vesti-la bem, perfumá-la e adorná-la para que, uma vez transformada em palavras e frases, faça uma bonita figura.

O que pode determinar, do ponto de vista criativo, o êxito e o fracasso de uma obra literária?

Isso é um mistério. Não creio que exista algo tangível que determine o sucesso ou o fracasso de uma obra. É como um filme: o diretor é respeitado, o elenco é estrelado, a equipe técnica é de excelência, o roteiro é perfeito e a história é eletrizante – mas o espectador não percebeu nada disso e rejeitou o que viu na tela. O mesmo acontece com um livro. Há explicação para isso? Eu creio que não.

Como surgiu em você o primeiro impulsivo criativo?

Meu primeiro livro de contos teve por título “A (extra)ordinária vida real” (2016). Eu ouvia histórias na rua, no elevador, no supermercado, na fila do banco e sentia que elas, de alguma maneira, precisavam vir à tona, precisavam ser contadas para mais pessoas. Comecei a escrever sobre minhas observações e, num determinado momento, achei que daria um livro. Deu.

As suas leituras acontecem a partir de quais interesses?

As injustiças, as desigualdades, a violência, o amor, a solidariedade. A vida comezinha, de uma maneira geral.

Escrever e ler são partes indissociáveis do mesmo processo de criação. Como equilibrar o desejo de ler com o de escrever?

Eu alterno momentos de ler e de escrever. Há dias em que não escrevo nada, só leio. Penso que seja uma maneira de me nutrir de ideias, conhecimentos e aprendizado. Por outro lado, há dias em que escrevo compulsivamente. Coloco no papel tudo o que minha imaginação captou em minhas leituras.

Um escritor é escritor 24 horas por dia? É, ao mesmo tempo, uma benção e uma maldição?

Falo novamente por mim: sim, um escritor é escritor 24 horas por dia. Mesmo que não esteja na frente do computador, minha mente não descansa. Escrevo “no pensamento” e depois faço minhas anotações. Isso acontece o tempo todo comigo, até quando estou calmamente tomando um café na padaria.

O crítico Harold Bloom falava sobre o fantasma da influência. Você lida bem com isso?

Lido perfeitamente bem e nunca escondi minhas principais influências: Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, Sérgio Sant’Anna, Ivan Ângelo, Luiz Vilela, entre outros. Comecei a escrever imitando Trevisan, querendo escrever como ele: o texto curto, as frases pequenas, a palavra escolhida, o tom cortante. Ainda hoje vejo que faço isso de vez em quando. Para mim não são fantasmas dos quais eu queira me distanciar, pelo contrário. Eu não leio Trevisan, eu estudo Trevisan.

O escritor sempre está tentando escrever a obra perfeita?

Eu creio que sim, mesmo sabendo ser impossível.

Como Flaubert disse certa vez, escrever é uma maneira de viver?

Acho que escrever é uma maneira de suportar o mundo como ele é. Por isso o escritor mente quando escreve, com a ilusão de pintar a realidade com um pouco mais de cor e textura.

Quando você chega na conclusão de que alcançou o objetivo na escrita (na conclusão) da sua história? 

Quando minha imaginação se esvazia. Isso é um paradoxo, porque, como disse acima, se releio o que publiquei vislumbro mil outras possibilidades. Mas, no momento primeiro da escrita, essas possibilidades não se dão a conhecer, então dou a escrita por finalizada. Repetindo: é uma tortura.

A literatura precisa do caos para existir?

A literatura precisa de uma história para existir. Precisa das palavras certas para existir e ser considerada arte.

O escritor é um eterno inconformado com a vida?

Penso que sim. Ele escreve para dar consolo ao mundo e a si mesmo.

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

“Os ratos estão roendo, roendo, perto dali, no canto do soalho… Talvez seja a própria tábua do soalho que eles estão roendo… Estuda bem a questão: se os ratos roem dinheiro… Vê os ninhos, os papéis picados, miudinhos, picadinhos, uma moinha… uma poeira… Sente um pavor e um frio amargo dentro de si!” (“Os ratos”, de Dyonélio Machado).

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

“Morangos mofados”, de Caio Fernando Abreu.

Qual a sua angústia criadora?

Saber que nunca, nunca meus dedos acompanharão a velocidade da minha imaginação. Nunca poderei transformar em palavras, com a rapidez necessária, as mentiras que minha mente engendra.

One thought on “Mário Baggio: “o escritor mente quando escreve, com a ilusão de pintar a realidade com um pouco mais de cor e textura”

  1. Que entrevista esclarecedor , reveladora É como os bastidores de um peça Obrigado
    Mário, continue nos presenteando com suas mentiras.

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