Henrique Komatsu: “escrever literatura é reorganizar os restos para desafiar o vazio que nos separa do que se perdeu”

Fotos: divulgação

Por Ney Anderson

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

 

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Henrique Komatsu nasceu em Pereira Barreto/SP. Formou-se em Filosofia pela UFPR e em Direito pela UFMS. Lançou seu primeiro livro A Igreja de Pedra no último ano da faculdade de filosofia. Após a graduação em filosofia trabalhou como cozinheiro num navio de cruzeiros por cerca de um ano. No retorno ao Brasil, em 2006, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde escreveu e publicou o livro de contos Cidade Dormitório (https://www.smashwords.com/books/view/115692). Em 2008 mudou-se para o Estado de Mato Grosso do Sul. Em 2017 publicou pela editora Confraria do Vento o livro infantil “A Menina que viu Deus” (http://www.confrariadovento.com/editora/catalogo/item/167-a-menina-que-viu-deus.html) e, em 2019, o livro de contos Ototo. Em 2019 teve o ensaio “Dead Time” (Tempo Morto, traduzido por Catherine V. Howard) publicado na revista “Manoa” da Universidade do Havaí/EUA em volume dedicado à literatura brasileira contemporânea ( https://uhpress.hawaii.edu/becoming-brazil/ ) e realizou uma residência literária em Rianxo/Espanha a convite da Editora Axóuxere e da Deputação da Corunha, ocasião em que ministrou curso sobre escrita na biblioteca municipal de Rianxo ( https://vimeo.com/377769458 ) e apresentou uma “aula aberta” sobre literatura brasileira à comunidade acadêmica da Universidade de Santiago de Compostela (USC) ( https://brasilgaliza.wixsite.com/brasilgaliza/copia-aulas-abertas ). Ao retornar da residência literária, exibiu no SESC/MS o documentário galego “Porta Para o Exterior”, de Ramon Pichel e Sabela Fernandes sobre a língua galega e sua estreita relação com o Português. Na ocasião houve debate sobre o tema da identidade com a psicanalista Tatiana Siqueira Ribeiro. No ano de 2020 teve o conto “Reflexos” publicado na Revista Literária Mathilda (editada por Alexandre França e Iamni Reche Bezerra) e foi finalista do Prêmio Jabuti com o livro de contos “Ototo” (Confraria do Vento), que trata do silêncio no seio familiar.

Em Campo Grande/MS participa do grupo de leitura “Vórtice Literário” que se reúne uma vez por mês para discutir literatura. Contribuiu para a revista Desordem, editada pelo escritor de Campo Grande/MS, Leonardo Triandópolis.

Durante a pandemia compôs a canção “Pegada” com o compositor paranaense Troy Rossilho, sobre as angústias e os delírios do isolamento social ( https://youtu.be/sVuQjvyvhaE )

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O que é literatura?

Pô, Anderson… achei que a gente era amigo. Por que começar nosso encontro com um chute desse na canela? Olha, antes de qualquer coisa eu quero dizer que estou muito feliz de participar dessa celebração de dez anos do “Angústia Criadora”… esse lugar que você vem inventando e reinventando há tanto tempo. E eu não digo isso só de confete, não. Eu acredito, muito, nesses espaços criados pela galera independente – que eu acho que é a nossa galera – para se pensar e discutir literatura. Isso porque esses espaços nos dão uma sensação de familiaridade. Esses lugares independentes, criados pelos pares, nos dão essa ideia de pertencimento. O “Angústia Criadora”, por exemplo, é um espaço em que as obras de escritores independentes se encontram desde o ponto de vista de um crítico independente, e um “leitor independente” tem a chance de encontrar uma perspectiva diferente de literatura nesses cantos inventados. Há uma certa igualdade, uma certa camaradagem entre esses atores… escritores, crítico e leitores. Essa horizontalidade entre leitor, escritor e crítico, acho que não existe nos cadernos culturais dos grandes jornais, por exemplo. Ali há uma assimetria, não há?…Então, parabéns! E obrigado pelo convite. Feito esse devaneio, deixa eu voltar para a pergunta. Eu acho que um monte de gente interessante deu várias respostas muito legais para essa pergunta “O que é literatura?”. Ultimamente eu tenho achado que uma boa definição é aquela dada pelo John Berger: “A poesia não é capaz de reparar uma perda, mas ela desafia o espaço que separa… por meio do seu contínuo trabalho de reordenar o que foi fragmentado”. Acho que essa é uma boa forma de olhar a literatura. Essa ideia do John Berger de que nós vivemos num mundo povoado pelos restos de algo que se perdeu é interessante. E que a literatura seria, então, uma forma possível de estar sempre reorganizando esses restos para podermos lidar com e suportar a perda. Bom, eu tenho achado que isso é literatura.

O que é escrever ficção?

Eu ando supondo que escrever literatura seja justamente esse reorganizar os restos para desafiar o vazio que nos separa do que se perdeu. Então escrever ficção, por essa via, antes de tudo é estar atento a essas perdas que constituem a nossa vida e estar atento aos restos. E depois, com algum engenho, reorganizar os vestígios. Eu olho o armário com um pedaço de pano para fora da gaveta. Nessa experiência eu perco a parte de trás do armário, eu perco o que está dentro da gaveta, eu perco quem deixou aquele pedaço de roupa para fora, porque aquela ponta de tecido ficou daquele jeito, etc. E com esses restos a gente tenta recuperar o que perdeu. Mesmo essa entrevista, há diversos aspectos do Ney Anderson que para mim estão perdidos… o que eu tenho são vestígios, restos… o site “Angústia Criadora”, a publicação do “Espetáculo da Ausência”, essas vinte e duas perguntas sobre literatura… são com esses restos que eu tento suprir o que está para sempre perdido nessa nossa relação. Acho que esse é um jeito de se escrever ficção.

Vocação, talento, carma, destino…..o escritor é um predestinado a carregar adjetivos que tentam justificar o ofício?

Acho que não. Se é um ofício, o que se carrega – o que se quer carregar, o que se pode carregar e o que se deve carregar – é uma ética.

Qual o melhor aliado do escritor?

Aliado? Acho que depende do conflito em que o escritor se meteu. Você, por exemplo, no “Espetáculo da Ausência” se meteu num “conflito” específico para o qual você precisou de aliados específicos. Agora, quando sua briga é com a crítica literária do “Angústia Criadora”, a “briga” é outra e requer outros aliados. Não é? Acho que tudo depende da peleja. A desgraça é que nem sempre os aliados que a gente precisa estão disponíveis…. Mas aí, até os gregos tiveram que lutar sem Aquiles um tempo né… faz parte.

E qual o maior inimigo?

O de sempre: O próprio escritor.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Acho que sim. Não é necessariamente um ato partidário, mas é um ato político. E é um ato político porque a escrita, dentro dos seus limites, dá corpo e dá forma à cultura. Um livro, uma peça de teatro, um conto, um ensaio é reflexo de uma cultura, de um certo tempo, de um certo lugar, não é? E a cultura é a manifestação de um povo. E o povo é o que constitui, é o elemento humano de uma nação. Então escrever, nesse sentido, é um ato político.

Quais os aspectos que você leva em conta no momento que começa a escrever?

O começo, começo mesmo, geralmente é uma cena ou uma frase que fica vindo na cabeça. Então, o aspecto que eu levo em consideração é a insistência com que essa frase ou essa cena surge.

A literatura existe para entendermos o começo, o meio ou fim?

Não sei se tem relação com entendimento. O começo, o meio ou o fim são questões que podem ser angustiantes. E a literatura permite que a gente se aproxime dessas questões de um modo suportável, intermediado pelas palavras, por uma narrativa. É uma aproximação a essas questões de maneira mais estética e menos existencial. Agora, não sei se há entendimento ou compreensão envolvidos nessa abordagem.

Se escreve para buscar respostas ou para estimular as dúvidas?

Suspeito que nenhum dos dois. Acho que escreve-se para descobrir possibilidades de discursos e de usos das palavras. Se a escrita levar a essas descobertas, então aí vão se colocar perguntas e respostas. Mas acho que a escrita não se ocupa em perguntar ou responder, ao menos não num primeiro momento.

Criar é tatear no escuro das incertezas?

Tateia-se. Mas não se tateia no absoluto breu, nem na absoluta incerteza. Há algo que se conhece ali. Não se sabe exatamente o que, mas que se conhece. E, nesse processo de escrita, você acaba encontrando coisas que você fala: “Ah! Era isso que eu estava procurando!”… ou seja… não é tão incerto, nem tão escuro… mas é um tatear.

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

Rapaz… aquela cena dos Velhos Marinheiros em que o comandante Vasco Moscoso manda ancorar o navio Ita com todas as amarras, todos os ferros, todas as manilhas, todas as espias, todos os “strings”, e arriar o ancorete com amarra e cabo de aço! Tudo sob o olhar irônico e risonho dos marujos e oficiais. Bem no finalzinho do livro. Essa é uma cena que está sempre comigo. Parece que ela vai ser o ponto de virada na narrativa, parece que nós vamos descobrir quem é Vasco Moscoso de Aragão, Capitão de Longo Curso… mas daí…

É possível recriar o silêncio com as palavras? Como?

Meu último livro de contos Ototo foi uma tentativa de retratar diversas formas de silêncio. Os silêncios do meu pai. Não sei se fui bem-sucedido. Acho que, se não é possível recriar o silêncio, ao menos é possível descrever as sensações causadas pelo silêncio, é possível descrever o que nos causa a proximidade e a convivência com o silêncio.

Capa do livro “Ototo”

Você acredita que qualquer pessoa pode escrever uma história? Mas, então, o que vai fazer dela escritora, de fato?

Sim. Algumas escrevem histórias com a voz, outras com o corpo, com coisas, objetos, com ações políticas, com gestos de afeto (amor indiferença, ódio, arrependimento, etc) e outras escrevem histórias com palavras. É fato que a maioria dos escritores estão nesse último grupo, mas nem todos. O que vai fazer de alguém escritor é algo que está fora da história e fora da mídia pela qual se escolheu contar a história… está mesmo fora do próprio escritor ou da própria escritora.

É preciso saber olhar o mundo com os olhos da ficção? O mundo fica melhor ou pior a partir dessa observação?

Eu acho que é tudo uma grande mentira… mas não a mentira do embuste, da falácia, daquela contada pelo mentiroso. Acho que é tudo uma grande mentira no sentido da mentira da obra, daquela construída pelo ofício do “mentidor”. O poeta é um “mentidor”, parafraseando Pessoa. O sufixo -oso do mentiroso tem uma carga negativa, quase patológica. O sufixo -or, não; ele carrega a ideia do ofício. É preciso olhar o mundo com os olhos do “mentidor”, desse que tem o ofício de inventar o mundo. O mundo não vai ficar nem melhor, nem pior, mas acho que ele fica mais aberto.

Todo texto ficcional, mesmo os mais extensos, acaba sendo apenas um trecho ou fragmento da história geral? Digo, a ficção lança o seu olhar para as esquinas das situações, sendo praticamente impossível se ter uma noção do todo?

Acho que é isso, né: As esquinas, com suas sombras. A mentira do “mentidor” precisa desses ângulos, da profundidade, da perspectiva, do jogo entre luz e sombra, do tempo, do espaço, ou seja, da realidade. Esse é o material do “mentidor”… Até porque não existe “o todo”. O todo é coisa de algum mentiroso.

Nesse sentido, uma história nunca tem início, meio e fim?

Talvez…. Talvez… mas o texto, o texto tem início, meio e fim. Não esqueçamos disso.

Você escolhe os seus temas ou é escolhido por eles?

A vida que a gente vive, as pessoas que a gente encontra, as coisas que experimentamos, os livros que a gente lê… e também a vida que a gente não vive, nos aproximam de alguns temas, de alguns furos abertos no tecido da existência. Às vezes a gente chega tão perto desses temas que acaba sendo sugado pela força gravitacional desses buracos. Se há ou não escolha parece ser uma questão menos importante. A questão mesmo é… como dançar ao redor desses buracos, sem cair.

É necessário buscar formas de expressão cada vez menos sujeitas ao cânone, desafiando a língua, tornando-a mais “suja”, para se aproximar cada vez mais da verossimilhança que a história pede? Ou seja, escrever cada vez “pior”, longe da superficialidade de escrever “certinho”, como disse Cortázar, talvez na tentativa de fugir da armadilha do estilo único?

Depende. Depende do buraco em que você se meteu. Em alguns buracos essa é a maneira que tem para você não se afundar. Mas acho que não existe só esse buraco aí. O mundo da literatura é uma buraqueira só… com tudo que é tipo de questão.

Quando é que um escritor atinge a maturidade?

Não sei. Mas tem um pessoal que parece que nasce maduro né? Jorge Amado, Shakespeare, Hume, Freud. A gente pode pensar num critério “biológico”! Quer dizer, quando uma obra é capaz de gerar outras obras, poderíamos dizer que ela atingiu a maturidade (risos)! Mas do aspecto emocional, psíquico, não sei. Se eu algum dia amadurecer, eu te conto.

O leitor torna-se cúmplice do escritor em qual momento?

Cúmplice? Como em cúmplice de um crime? Acho que existe um tipo de livro muito específico que precisa de leitores-cúmplices nesse sentido. São esses livros que querem pegar o leitor pela mão e fazer com que ele acompanhe os “crimes do escritor” sem contar nada a ninguém, nem a si mesmo, sem refletir sobre que está acontecendo, enredando-se nos acontecimentos.  Acho que o leitor vira cúmplice quando deixa de pensar, quando abandona o espírito crítico.

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

Acho que a gente está sempre em busca desse livro que nos livre do final do mundo. Em cada livro que a gente abre, estamos buscando esse livro. Para essa situação que você descreve, teria que ser um livro com muitas histórias, muitos personagens…talvez as Mil e Uma Noites, talvez a Bíblia, talvez uma enciclopédia (se pudermos contá-la como um único livro). É uma resposta meio borgeana, mas quem escapa de Borges?

Qual a sua angústia criadora?

A suspeita, quase paranoica, de que, talvez, as palavras não tenham sentido.

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