Rosângela Vieira Rocha: “literatura não é panfleto e nem livro didático, não é feita para educar. Seu compromisso é muito mais amplo”

Crédito: Vasco Ribeiro

Por Ney Anderson

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

 

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Rosângela Vieira Rocha nasceu em Inhapim, MG, e mudou-se para Brasília em 1968. Jornalista, escritora e professora aposentada do Departamento de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da UnB, é advogada e Mestre em Comunicação Social pela ECA/USP. Tem catorze livros publicados, para adultos e crianças. Véspera de Lua, Editora da UFMG, (romance), 1990, ganhador do Prêmio Nacional de Literatura Editora UFMG – 1988; Rio das Pedras, Secretaria de Estado de Cultura, 2002, novela vencedora da Bolsa Brasília de Produção Literária 2001, Menção Especial no Prêmio Graciliano Ramos, da União Brasileira de Escritores, além de ter sido classificada entre os dez finalistas da 4ª. Bienal Nestlé de Literatura Brasileira; Pupilas Ovais, (contos), LGE Editora, 2005, selecionado para obter o apoio do FAC/DF; A festa de Tati (infantil), Franco Editora, 2008; Fome de Rosas (romance), FAC/Nossa Cidade, 2009; Dias de Santos e Heróis (infantil), Editora Prumo, 2009, Três contra um (infantil), Franco Editora, 2011, Nem tudo foi carnaval, (juvenil), Editora RHJ, 2012; Janaína, a bailarina (infantil), Franco Editora, 2012; O macuco Felício (infantil), Editora Cortez, 2014; e O vestido da condessa (infantil), Franco Editora, 2014; O indizível sentido do amor (romance), Editora Patuá, 2017; Nenhum espelho reflete seu rosto (romance), Arribaçã Editora, 2019; e O coração pensa constantemente (romance), Arribaçã Editora, 2020. Participou de várias antologias de contos e crônicas, entre as quais se destacam + 30 Mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira, Editora Record, 2005 (org. por Luiz Ruffato), e Antifascistas – Contos, crônicas e poemas de resistência, Editora Mondrongo, 2020, (org. por Leonardo Valente e Carol Proner). Assina uma coluna de crônicas na revista literária digital Germina, intitulada Com luvas de pelica, além de colaborações na Ruído Manifesto e Revista Ser Mulher Arte. É militante do Movimento Mulherio das Letras, desde sua criação. Participou de diversas comissões julgadoras de concursos literários nacionais e regionais.

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O que é literatura?

Não é uma pergunta de fácil resposta. Existem vários conceitos de literatura. Eu diria, de modo sintético e talvez um tanto redutor, que literatura é uma maneira de mostrar determinada visão de mundo utilizando a palavra como instrumento, mas com liberdade para mudar, inclusive, o seu significado em certo contexto. Literatura é liberdade – o/a escritor/a não se prende, necessariamente, às regras gramaticais ou semânticas da língua em que escreve. Nem tampouco tem compromisso com a realidade tal como ela é; ele/a pode criar realidades não necessariamente verdadeiras. A verossimilhança é a palavra-chave, e não a veracidade. Essa liberdade se estende à combinação das palavras, das frases e dos parágrafos. Há escritores – Guimarães Rosa seria um exemplo clássico, no Brasil – que foram magníficos inventores de palavras. Usar as palavras de maneira inovadora é um dos segredos da literatura, que é, antes de tudo, arte. O seu terreno é o da estética e por isso não tem obrigação de cumprir os parâmetros da norma culta, podendo, inclusive, transgredi-los.

O que é escrever ficção?

O ofício do ficcionista, apesar de trabalhoso, é essencialmente lúdico.  Brincamos o tempo todo inventando gente que não existe, garimpando gestos, palavras e imagens que percebemos e ouvimos pelas ruas. Em algum lugar da memória esse material fica guardado, e posteriormente – nunca se sabe quando – é selecionado, filtrado e vem à luz em forma de personagens que passam a ter vida. O mundo ficcional é muito mais interessante que o real. Por isso, considero um privilégio poder escrever, ser capaz de criar “oásis” em meio à realidade que, por vezes, é muito dura de se aguentar. Quando se fala em ficção, em contar histórias, sempre me lembro de Gabriel Garcia Márquez e de sua declaração quando soube que tinha ganhado o Prêmio Nobel de Literatura: eles acreditaram, meu Deus! Eles “engoliram” aquela lorota toda! Concordo com ele. Escrever ficção é um jeito especial de contar lorotas, que passam a ter um sentido diferente e único.

Vocação, talento, carma, destino…. O escritor é um predestinado a carregar adjetivos que tentam justificar o ofício?

Não acredito em destino. Prefiro o termo pendor, mas sempre aliado à disciplina. Ter facilidade para escrever e imaginação fértil não faz de ninguém escritor/a. Perseverança e força de vontade contam muito, também.

Qual o melhor aliado do escritor?

Há vários aliados, a meu ver: autocrítica, autoconfiança, sensibilidade, resistência para ouvir críticas nem sempre favoráveis, além do conhecimento profundo de suas ferramentas, como o idioma, por exemplo. E, claro, bons revisores e editores.

E qual o maior inimigo?

Ao lado da procrastinação, a pressa. É interessante ver como palavras com significados tão diferentes podem ser igualmente prejudiciais. O ritmo, na escrita, é muito importante. Procrastinar pode gerar ansiedade e pressa. Escrever é como bordar, há que se atentar para o risco do bordado, geralmente cheio de minúcias. É um trabalho artesanal, por natureza, feito com lentidão e cuidado.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Crédito: Bete Coutinho

Escrever é uma forma de participar e de contribuir. Os livros mudam as pessoas, por oferecerem novas ideias e visões. É um ato político, sim, no sentido amplo do termo. Há livros capazes de renovar grande número de leitores, revelando, por vezes, realidades que desconheciam completamente. Certas obras nos causam impressões muito fortes, inclusive em relação à história do nosso país. Cito, como exemplo, o magistral “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves. Nunca tinha ouvido falar nos malês, os escravizados muçulmanos que foram levados para a Bahia e, diferentemente de outros, sabiam ler e escrever. A revolta dos malês, fato importantíssimo na história do Brasil, não consta dos currículos escolares ou pelo menos não constava na época em que estudei. Há centenas de livros que poderiam ser citados como exemplos de narrativas que deslumbram e informam, apresentando novas maneiras de ver e de entender o mundo, ampliando as visões pré-existentes. Menciono o romance de Ana Maria Gonçalves por seu valor histórico.

Quais os aspectos que você leva em conta no momento que começa a escrever?

Tenho catorze livros publicados, sete infanto-juvenis e sete para o público adulto. Destes últimos, um livro de contos, Pupilas Ovais, que recebeu crítica muito boa. Os outros seis são romances, alguns com prêmios nacionais importantes, como Véspera de lua, que obteve o Prêmio Nacional de Literatura Editora UFMG 1988, na época muito prestigiado. Nos últimos quatro anos publiquei três romances, O indizível sentido do amor, ed. Patuá, 2017, Nenhum espelho reflete seu rosto, ed. Arribaçã, 2019, e O coração pensa constantemente, igualmente pela Arribaçã, no final de 2020, em plena pandemia. Relato isso para ressaltar que meu gênero predileto é o romance, eu sou uma romancista. É a narrativa longa que realmente me atrai, como escritora. Quando começo a escrever uma história, tenho, claro, o tema geral, sobre o qual pensei durante meses, às vezes anos. Sempre escrevo por uma necessidade interna, não presto muita atenção nos fatos, quando me disponho a criar, a narrar. Sou movida pela intuição, pela percepção das “energias” circundantes, que são sempre subjetivas. Às vezes uma palavra, frase ou imagem se instala dentro de mim e então sei que o “estrago” foi feito, ou seja, que só terei sossego quando começar a trabalhar aquela ideia e materializá-la no papel.

A literatura existe para entendermos o começo, o meio ou fim?

Não creio que a literatura tenha uma função específica. É tão independente e autônoma que seu valor é intrínseco, sua finalidade termina em si mesma. Ela não precisa servir a nada, a causa alguma, tem total liberdade. Não a vejo vinculada ao que quer que seja e não é feita para que o leitor entenda alguma coisa. Se é de boa qualidade, aí sim, pode conduzir o leitor a uma visão diferente de mundo, mesmo que o/a autor/a não tenha levado em conta nenhum objetivo determinado, no momento da criação. Literatura não é panfleto e nem livro didático, não é feita para educar. Seu compromisso é muito mais amplo.

Se escreve para buscar respostas ou para estimular as dúvidas?

Como autora, sempre tento buscar respostas a questões que me preocupam, a dúvidas urgentes que gritam dentro de mim. Mas trata-se de uma utopia, pois não existem respostas, elas sempre me levam a novas dúvidas. Acredito que com o leitor ocorra o mesmo. Literatura não é oráculo, não tem respostas prontas para coisa alguma.

Criar é tatear no escuro?

Sem dúvida alguma. Quando começo a escrever um livro, não tenho a menor ideia do que vai sair. Há escritores que trabalham com sinopses, calculam o número de capítulos, seguem um método mais cartesiano, digamos. Não é o meu caso. Depois de escolher o tema geral, começo a pesquisar – estudo muito, leio obras ficcionais sobre o assunto, livros científicos, textos acadêmicos, vejo inclusive vídeos no Youtube, dependendo do assunto – há youtubers muito bem-preparados, que prestam um serviço importante à sociedade. Depois começo a fazer uma extensa lista dos subtemas, das ideias que serão tratadas na história. Na medida em que escrevo, vou marcando na relação o item que já foi trabalhado. Muitas vezes, ocorre de eu abandonar a lista no meio do caminho, puxar os fios de outras meadas. É uma das coisas que mais me fascinam, no ato da escrita, esse desconhecimento do que virá. Sempre me surpreendo, pois não sei dizer de onde essas ideias saem e nem como surgem.

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

“É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro, possuidor de uma boa fortuna, deve estar necessitado de esposa.

Por pouco que os sentimentos ou as opiniões de tal homem sejam conhecidos ao se fixar numa nova localidade, essa verdade se encontra de tal modo impressa nos espíritos das famílias vizinhas que o rapaz é desde logo considerado a propriedade legítima de uma das suas filhas.”  (Assim se inicia Orgulho e preconceito, de Jane Austen, que considero “o livro da minha vida”, pois o li aos dez anos de idade e me abriu uma nova percepção do mundo).

É possível recriar o silêncio com as palavras? Como?

Creio que existem várias maneiras de recriar o silêncio, especialmente quando misturamos dados da realidade com dados ficcionais, numa história. Sempre há lacunas a serem preenchidas, informações às quais não tivemos acesso ou que destoam do restante da narrativa. Esses hiatos, essas quebras, essas “zonas cinzentas” do não-dito podem ser aclarados, sim, com palavras. Faz parte do trabalho do escritor.

Você acredita que qualquer pessoa pode escrever uma história? Mas, então, o que vai fazer dela escritora, de fato?

Creio que nesse caso entram muitos fatores, tais como a profundidade com que o assunto é tratado, a capacidade de estabelecer empatia com o leitor e, claro, a maneira de narrar. Uma mesma história pode adquirir nova dimensão dependendo da forma com que é contada. Um/a bom/boa escritora cria laços com o leitor durante a leitura, firma um compromisso, é sempre uma via de mão dupla. Se o livro for sobre a morte de uma personagem, por exemplo, essa morte precisa tocar na “chave” do compartimento em que estão os mortos que aquele leitor amou. Ele deve se reconhecer naquela perda, a perda da personagem evoca as suas próprias perdas, com todas as emoções cabíveis na situação. Não sei se respondi à pergunta, mas somente escritores são capazes disso.

É preciso saber olhar o mundo com os olhos da ficção? O mundo fica melhor ou pior a partir dessa observação?

Não posso afirmar se fica melhor ou pior, creio que ganha maior intensidade, as formas se tornam mais substantivas, tudo adquire um peso maior. Se isso é bom ou ruim, vai depender do critério de cada pessoa. O que seria olhar o mundo com os olhos da ficção? De que estamos falando, afinal? Creio que nos referimos basicamente à subjetividade e seus contornos, não é? Seria, talvez, estar mais presente e atento a cada instante? Deixar a imaginação correr de maneira mais solta, ser menos pragmático, menos racional? Ver, por exemplo, um envelope aberto caído no chão e logo imaginar que ali dentro, em algum momento, havia uma carta de amor ou de rompimento? Criar uma situação a partir disso?  Se entendi bem a pergunta, penso que o mundo se torna muito mais amplo, a partir do olhar ficcional.

Todo texto ficcional, mesmo os mais extensos, acaba sendo apenas um trecho ou fragmento da história geral? Digo, a ficção lança o seu olhar para as esquinas das situações, sendo praticamente impossível se ter uma noção do todo?

Acredito que um livro é escrito a partir de todos os livros existentes, o que não significa que não seja um universo independente e único. Mas essa noção da totalidade é impossível, a meu ver. E essa tarefa não caberia à literatura, pois ela trata de visões individuais, ainda que presentes no inconsciente coletivo.

Nesse sentido, uma história nunca tem início, meio e fim?

Creio que a resposta se encontra na questão anterior. Uma história pode ter, sim, princípio, meio e fim, mas não deixa de ser um recorte, fruto das escolhas feita pelo/a autor/a. De todas as histórias possíveis, de todas as maneiras de contar das quais poderia lançar mão, ele/ela escolheu aquela. Que irá integrar o conjunto de todas as histórias existentes até aquele momento, inclusive as que estão por vir.

 Você escolhe os seus temas ou é escolhido por eles?

Eu escolho os temas. Considero um tanto mística essa ideia de que os temas nos escolhem. Tema não tem vida própria. É o meu livre-arbítrio que me faz optar por um ou outro tema. Ocorre que certos temas se tornam meio obsessivos dentro da gente e talvez por isso há quem diga que o tema o escolheu. Mas no final das contas, quem dá a última palavra é sempre quem escreve e não poderia ser diferente.

É necessário buscar formas de expressão cada vez menos sujeitas ao cânone, desafiando a língua, tornando-a mais “suja”, para se aproximar cada vez mais da verossimilhança que a história pede? Ou seja, escrever cada vez “pior”, longe da superficialidade de escrever “certinho”, como disse Cortázar, talvez na tentativa de fugir da armadilha do estilo único?

Essa questão me parece muito importante, por sua atualidade. Como mencionei antes, a literatura não tem obrigações com as normas da língua culta. Essa opção depende do tema da história, da classe social das personagens, do contexto, enfim, são muitas as variáveis. Não vejo problema nenhum nesse tipo de transgressão, se for para enriquecer a história, torná-la mais acessível, crível e palatável. Mas repito – isso vai depender do assunto a ser tratado. Os/as escritores/as têm liberdade para contar de maneira diferente, utilizando a linguagem que lhes parecer mais adequada. Isso inclui escrever “errado”, não utilizar a pontuação adequada, suprimir maiúsculas, e tudo mais.

Quando é que um escritor atinge a maturidade?

Não creio que exista um momento específico. Usualmente, considera-se que a leitura, a prática da escrita e o número de livros publicados, por exemplo, contam na aquisição dessa maturidade. Mas não estou tão certa disso, há escritores muito jovens, excepcionalmente talentosos, que, do ponto de vista literário, são maduros. Prefiro acreditar que há um mistério nessa questão, que ainda não consegui desvendar.

O leitor torna-se cúmplice do escritor em qual momento?

Acredito que esse momento varia de livro para livro. Há escritores/as que conseguem fazer com que o leitor estabeleça uma empatia profunda com as personagens logo nos primeiros capítulos. Outros/as vão tecendo devagar esse laço e, quando se dá conta, o leitor já foi fisgado e se vê completamente enredado pela história. É como se ocorresse uma coautoria imaginária, digamos.

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

Orgulho e preconceito, cujo primeiro parágrafo citei aqui. É o primeiro romance adulto que li, e dei muita sorte, pois na minha cidade não havia nem livrarias nem bibliotecas. Caiu-me às mãos por acaso. E – claro – não imaginava que sua autora fosse um dos maiores nomes da literatura inglesa. Eu tinha dez anos e morava no interior de Minas. Sentei-me num galho de uma mangueira para ler e até hoje me lembro do estado de fascinação e de encantamento provocado pela leitura desse romance magnífico.

Qual a sua angústia criadora?

Quando estou muito empenhada na escrita de um romance, geralmente durmo mal. Acordo pensando em alguma frase, numa ideia que não posso esquecer e me levanto para anotar. À medida que a história se desenvolve, esse estado de excitação noturna tende a aumentar. É uma espécie de consumição, um desassossego. Mas é um estado transitório, que só recomeça no livro seguinte.

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