José Castello: “é na mente de cada leitor que um livro toma corpo. A ficção só existe por causa dos leitores”

Crédito: João Urban

Por Ney Anderson

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

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José Castello, 1951, carioca radicado em Curitiba, é escritor, crítico literário e jornalista. Mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É colunista do mensário “Rascunho”, de Curitiba, e do suplemento “Pernambuco”, do Recife. É também colaborador dos suplementos “EU&”, do jornal “Valor Econômico”, e “Aliás”, do jornal “O Estado de S. Paulo”.

Foi colunista semanal do suplemento “Prosa & Verso”, de O Globo. Foi, ainda, cronista semanal do “Caderno 2” de O Estado de S. Paulo. Foi, também, editor do “Idéias/Livros” e do “Idéias/Ensaios”, ambos do Jornal do Brasil, suplementos literários que mereceram o prêmio anual da Associação Paulista dos Críticos de Arte (1990) e o prêmio “Estácio de Sá”, do governo do estado do Rio de Janeiro (1991).

Desde o ano de 2002, ministra oficinas literárias em todo o país. Desde de 2010, na Estação das Letras, no Rio de Janeiro, coordena o “Estúdio do Conto”, trabalho regular de formação de contistas, que já resultou em três antologias de inéditos. Com a psicanalista Maria Hena Lemgruber realiza, no Rio de Janeiro, o projeto “Extremos: círculo de leituras radicais”, criado em parceria com Flávio Stein e que já está em sua oitava edição. No Itaú Cultural, coordenou durante quatro anos o projeto “Rumos: Jornalismo Cultural”, criado por Claudiney Ferreira.

É autor, entre outros, de Ribamar (Bertrand Brasil, 2010, prêmio Jabuti de “romance do ano” em 2011 e finalista do Prêmio Portugal Telecom no mesmo ano). De Inventário das sombras (Record, 1999).  A literatura na poltrona (Record, 2004). Vinicius de Moraes: o poeta da paixão (Companhia das Letras, 1994, prêmio Jabuti de “ensaio do ano” em 1995).  Fantasma (romance, Record, 2001, “menção honrosa” do Prêmio Casa de las Américas, de Havana, 2002). E de Dentro de mim ninguém entra (Berlendis, 2016, assinado em parceria com o artista Bispo do Rosário, autor das “ilustrações”).

Organizou e prefaciou para a editora Rocco a coletânea “Clarice na cabeceira/ Romances” (2011). Organizou, ainda, o “Livro de Letras”, de Vinicius de Moraes (Companhia das Letras, 1991) e o inédito de Vinicius, “Roteiro lírico e sentimental do Rio de Janeiro” (Companhia das Letras, 1992).

Foi membro efetivo do júri internacional do “Prêmio Leya”, de Lisboa.  Participou, em várias edições, do Júri Final dos prêmios Portugal Telecom e Oceanos, ambos de São Paulo. Em parceria com Selma Caetano, é autor de “O livro das palavras” (Leya, 2013), reunião de ensaios literários e entrevistas lançado nas comemorações dos 10 anos do prêmio Portugal Telecom. Dá palestras, conferências e seminários em todo o país.

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O que é literatura?

O dicionário oferece muitos sinônimos: bibliografia, poesia, letras, ficção, mentira etc. É uma dessas palavras abertas, escancaradas, que oferecem muitos usos e significados. A ficção, a poesia, o ensaio, a biografia, as dissertações, os tratados teóricos, os estudos científicos, a tudo isso se chama de literatura. Só uma coisa os une: são textos escritos. O que define a literatura, eu penso, é a escrita.

O que é escrever ficção?

Escrever ficção é, talvez, sonhar acordado. Transcrever, tentar transcrever, fantasias, devaneios, imagens íntimas, sonhos diurnos. Mas, pensando melhor, ficção também não é isso. Quando você começa a escrever, você não transporta uma ideia anterior para o papel, ou para a tela do computador. A ficção não é uma tradução de algo anterior a ela. Você pode até ter essa primeira ideia – mas são as próprias palavras que o puxam e o guiam. São as palavras que escrevem por você. Em resumo: também não sei definir o que é ficção. A propósito, não gosto de definições. Elas se parecem sempre com algemas.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Penso que todo ato criativo é um ato político. A arte – e a ficção é uma arte – é sempre a afirmação do Um contra as ordens da Série. Eis o motivo.

Crédito: João Urban

Para além do aspecto do ofício, a literatura, de forma geral, representa o quê para você?

Não representa: a literatura é minha vida. Isso começou ainda na infância, de calças curtas, quando li os primeiros poetas. Bandeira, Cabral, Vinicius, Schmidt. Eu lia e chorava e não sabia por que chorava. Tudo começou ali e não parou mais.

O escritor é aquela pessoa que vê o mundo por ângulos diferentes. Mesmo criando, por vezes, com base no real, é outra coisa que surge na escrita ficcional. A ficção, então, pode ser entendida com uma extensão da realidade? Um mundo paralelo?

Ficção não é tradução, ou transposição, ou adaptação da realidade. Não é fotografia da realidade. Pelo menos tal como eu a entendo, muito da realidade está, sim, dentro da ficção. Mas, ao ser incorporada pela ficção, a realidade já é outra coisa, não é realidade mais.

Quando você está prestes a começar uma nova história, quais os sentimentos e sensações que te invadem?

São múltiplos. O principal, para mim, é que, por princípio, nada seja descartado. Tudo, absolutamente tudo, o que sinto, o que penso, o que sonho, o que vivo, o que leio, tudo mesmo deve entrar no que eu escrevo. Não pode haver censura. Depois, sim, eu chego à fase dos cortes. Das escolhas. Aí sim, começam os descartes.

A leitura de outros autores é algo que influencia bastante o início da carreira do escritor. No seu caso, a influência partiu dos livros ou de algo externo, de situações cotidianas, que te despertaram o interesse para a escrita?

Sem dúvida, partiu dos primeiros livros que li, entre o fim da infância e a adolescência. Mas partiu também de tudo o que vivi – absolutamente tudo. Mesmo as coisas mais íntimas, ou mais banais, ou mais inconfessáveis, ou mais ridículas. Esse trabalho de anatomista, de dissecação de minha própria escrita, pode interessar a outras pessoas, a mim não interessa. Porque para mim não é um trabalho, é a vida.

Você escreve para tentar entender melhor o que conhece ou é justamente o contrário? A sua busca é pelo desconhecido?

A literatura, para mim, é um exercício de expansão interior. E também um exercício de libertação – de meus preconceitos, de minhas ideias fixas, de meus temores, de minhas crenças, de minhas desgraças. A literatura vai além de tudo isso. Não que eu chegue a uma resposta – nunca chego. Mas as perguntas se tornam mais complexas e mais vivas.

O que mais te empolga no momento da escrita? A criação de personagens, diálogos, cenas, cenários, narradores…

Tudo misturado. As coisas me saem todas misturadas, em turbilhão. Às vezes me acusam de místico, embora eu seja ateu convicto. Mas, para mim, a literatura – a arte – é uma espécie de transe. Você é possuído – por vozes, por imagens, por histórias, por personagens, por palavras, por frases. Escrever é a eles se submeter.

Um personagem bem construído é capaz de segurar um texto ruim?

Penso que não. Texto ruim é texto ruim. Não se pode fatiar um texto. Além do mais, francamente, não sei o que é um personagem bem construído. Essa ideia do “bem construído” não me interessa.

Entre tantas coisas importantes e necessárias em um texto literário, na sua produção, o que não pode deixar de existir?

Liberdade interior. Sem liberdade interior, ninguém escreve. Você não escreve para seguir fórmulas, ou para agradar a mestres. Não pode pensar na crítica, nos prêmios, nas adaptações, nas compensações, nos lucros de quaisquer espécies. Você tem que se livrar de todas essas ilusões. Não importa se vão gostar, se vão odiar, se vai vender, se não vai vender. Nada disso importa. Importa que o texto seja seu. Que você esteja inteiro dentro dele.

Nesse tempo de pandemia, de tantas mortes, qual o significado que a escrita literária tem?

Para mim, tem sido uma salvação. Tenho escrito e lido sem parar. Se eu não pudesse fazer isso, acho que já teria adoecido. Está tudo pesado demais. Para todos. Especialmente – como sempre – para os mais pobres.

No Brasil, o ofício do escritor é tido quase com um passatempo por outras pessoas. Será que um dia essa realidade vai mudar? Existem respostas lógicas para esse questionamento eterno?

A força do mercado é avassaladora. Ele se infiltra em tudo, é um vírus tão letal quanto o coronavirus. Ainda agora, li que um empresário declarou que “não é contra Bolsonaro, nem a favor de Bolsonaro”. É isso, exatamente isso o que ele disse. Não é que ele pregue o “caminho do meio”, ou a moderação, ou a cautela, ou qualquer coisa do tipo. É que, para o mercado, a política realmente não importa. O mercado atropela tudo e devora a todos. O mercado – como o coronavirus – não tem desejos, não tem sentimentos, não tem projeto. O mercado só quer mais e mais, só quer devorar. Os escritores são seres frágeis. Tudo o que temos é o imaterial. Então, pela lógica do mercado, a literatura parece ser só um passatempo. “Literatura é a maior diversão”, eles poderiam dizer, e já disseram. Não sei como, até hoje, os livros não vêm acompanhados de pacotes de pipoca. É assim. Temo que sempre será assim. Nós, escritores, temos que nos proteger. É o que resta.

A imaginação, o impulso, a invenção, a inquietação, a técnica. Como domar tudo isso?

Não se doma. E nem se deve domar nada. Para escrever, é preciso ter a coragem de conviver com a liberdade, com o inesperado, com o caos. Os domadores só funcionam nos circos – e, mesmo assim, à custa do sofrimento extremos dos animais.

O inconsciente, o acaso, a dúvida…o que mais faz parte da rotina do criador?

Como já disse em outra resposta, tudo. Nada deve ser descartado. Não existem proibições. Não existem limites. Ficção adestrada não é ficção. Mas, para chegar a isso, é preciso enfrentar o medo. E a guerra contra o medo nunca termina. Ela se mistura com o próprio ato de escrever.

O que difere um texto sofisticado de um texto medíocre?

Não sei responder. Não sei mesmo. O que você pode achar sofisticado, eu posso achar medíocre. E o contrário. Não existe resposta pronta para essa pergunta. Não sei o que é um texto sofisticado. Tampouco sei o que é um texto medíocre. Sei que existem textos e todos merecem ser lidos. Claro, a gente não lê porque não tem tempo. Seria preciso que tivéssemos mil vidas.

O leitor torna-se cúmplice do escritor em qual momento?

No momento em que ele lê. Quando ele lê, o livro deixa de estar no papel e se transplanta para a sua mente. É na mente de cada leitor que um livro toma corpo. A ficção só existe por causa dos leitores. Só existe dentro da cabeça do leitor.

O leitor ideal existe?

Não acredito em ideais.

O simples e o sofisticado podem (e devem) caminhar juntos?

De novo: o que é simples para mim, é sofisticado para você. E vice-versa. Não sei responder também.

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

As primeiras linhas de “A metamorfose”, de Kafka, que li pela primeira vez aos 13 anos de idade. Eu era aquele inseto. Como Kafka descobriu??

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

O livro que mais me marcou na vida, que mais me abalou, que mais me transformou, foi “A paixão segundo GH”, de Clarice Lispector. Não só a mim – conheço várias pessoas que lhe dariam a mesma resposta. A explicação daria outro livro. Que não irei escrever.

Qual a sua angústia criadora?

Trair a mim mesmo. Ceder ao “bem escrito”, ao “vendável”, ao “premiável”. Escrever para agradar ao leitor, ao editor, ao crítico, aos professores. Meu modelo de escritor é Robinson Crusoé. Alguém que só escreve para si mesmo.

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