Cícero Belmar: “é através da ficção que nós podemos escrever livremente sobre a vida”

 

Por Ney Anderson

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

 

*********************

Cícero Belmar é escritor e jornalista. Autor de contos, romances, biografias, peças de teatro e livros para crianças e jovens. Bodocoense, mora no Recife, onde também recebeu o título de cidadão recifense.  Belmar  já ganhou duas vezes o Prêmio Literário Lucilo Varejão, da Fundação de Cultura da Prefeitura do Recife; e outras duas vezes o Prêmio de Ficção da Academia Pernambucana de Letras. Desde 2017, ele ocupa a cadeira de número 33 da Academia Pernambucana de Letras.

*********************

O que é literatura?

Há amigos que fazem gozação comigo, dizem que eu vejo literatura em tudo. E é bem assim mesmo. Eu tenho um péssimo hábito, que herdei do jornalismo, minha primeira profissão. Quando repórter de jornal, eu não olhava mais a vida naturalmente, mas pelo filtro da reportagem. Eu sempre dizia: isso dá uma matéria de jornal. Hoje, eu digo: isso rende um conto, uma crônica; essa pessoa é uma personagem pronta. Literatura para mim é o que está no dia a dia, faltando apenas um narrador para colocar aquilo no papel. Literatura é a arte que mantém uma relação mais íntima com a vida. As outras são apenas uma reprodução estética dessa vida. Literatura é a própria vida na linguagem.

O que é escrever ficção?

Ela é uma realidade subjetiva, mas não uma mentira inventada, entende? Eu prefiro achar que a ficção é um texto inventivo que expõe sentimentos e pensamentos de um autor. É através da ficção que nós podemos escrever livremente sobre a vida. Na ficção há um universo, uma realidade criada, mas ainda assim com o pressuposto do real. Toda ficção, no meu entendimento, paga imposto à realidade.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Sim, é essencialmente político. Não no sentido ideológico partidário, mas é uma forma de o autor, através dos seus narradores e personagens, se posicionar diante da vida. Quem escreve, já leu; e nada é mais instigante e provocativo do que a leitura. Ler é um ato político. Quando uma pessoa vai escrever, ela não é mais a mesma. Porque, antes, já leu. Escrever é um revolução que começa dentro de quem escreve. Acho que é um ato político porque é uma forma de o autor interferir da realidade, de dar sua versão, de criticar, ironizar, redescobrir, de mandar recados para o futuro. Isso é político demais.

Para além do aspecto do ofício, a literatura, de forma geral, representa o quê para você?

É minha maneira de ser, de contestar, de participar, de estar no mundo.  Quando eu termino um texto que corresponde ao meu sentimento, é igual a uma descarga elétrica. A literatura é meu orgasmo bipolar trifásico.

O escritor é aquela pessoa que vê o mundo por ângulos diferentes. Mesmo criando, por vezes, com base no real, é outra coisa que surge na escrita ficcional. A ficção, então, pode ser entendida com uma extensão da realidade? Um mundo paralelo?

Acho que do ponto de vista teórico alguém pode entender assim. Ou ainda se formos levar para o lado da física quântica, das dimensões da existência. Ela seria uma quarta ou quinta dimensão. Tem a ver com o nível dos planejamentos de futuro, com a criação das personagens e com a fantasia do autor. Esses elementos aí estariam num mundo paralelo? Por que não? Quem sou eu para dizer que não? Mas, neste nosso dia a dia de indiferenças, na dureza do mundo, não dá para dizer que é uma extensão da realidade objetiva. Digamos que, nesse caso, a ficção é a reprodução da realidade.

Quando você está prestes a começar uma nova história, quais os sentimentos e sensações que te invadem?

Não há um sentimento. Mas, vários. Minha maneira de escrever uma personagem se assemelha muito a de um pessoa de teatro quando também vai compor a sua personagem. Eu mergulho nos sentimentos daquela personagem, tentando entendê-la, tentando entrar nas suas motivações. A personagem flui a partir desse entendimento. Se ela é boa ou má, se é invejosa ou fraterna, dou um mergulho no que há de bom ou mau, invejoso ou fraterno, que carrego dentro de mim. E tento trazer à tona. Depois, beleza, apago tudo. Então, esses sentimentos e sensações variam muito dependendo de cada coisa que vou escrever.

Crédito: Carlos Silva

A leitura de outros autores é algo que influencia bastante o início da carreira do escritor. No seu caso, a influência partiu dos livros ou de algo externo, de situações cotidianas, que te despertaram o interesse para a escrita?

As duas coisas. Para responder a essa pergunta, vou retroagir ao meu passado. Quando eu era criança, via meu pai lendo as revistas Manchete, Seleções e Fatos & Fotos. E via meus irmãos mais velhos lendo gibis. Aquilo me encantava, achava lindo eles lendo, queria imitá-los. Aí eu comecei lendo gibis. Depois, migrei para os livros. A Moreninha, Meu Pé de Laranja Lima e A Cabana do Pai Tomás foram os primeiros livros que li. Foi ali que comecei a escrever umas coisinhas muito tímidas, bobinhas, muito românticas. Morria de vergonha daquilo, não mostrava a ninguém. Mas era uma cópia do que eu lia naqueles  livros! Na sequência, fui ler Jorge Amado. Aquela leitura foi libertadora. Fiquei chocado com a narrativa. Então, podia dizer palavrão e falar o nome da genitália num livro sério? Ele mexeu com meus entendimentos. O meu primeiro romance, Umbilina, tem muito a ver com o jeito de Jorge Amado; e com o de Ariano Suassuna e de Gabriel García Márquez, que descobri depois, de escrever.

Você escreve para tentar entender melhor o que conhece ou é justamente o contrário? A sua busca é pelo desconhecido?

As duas coisas. Mas eu percebo claramente que, através da escrita, vou me tornando cada vez mais compreensivo com meus sentimentos. Hoje, o que eu tenho de leveza, de gentileza comigo mesmo, devo à leitura e à escrita.

O que mais te empolga no momento da escrita? A criação de personagens, diálogos, cenas, cenários, narradores….etc?

As personagens. Eu acho que a criação das personagem é a coisa mais difícil de um texto. E também a mais excitante. Criar uma personagem é um jogo, um exercício mental para mim. Nasce a partir da observação do mundo e depois, de um mergulho que dou em mim. Após a personagem, e neste ordem, vem o diálogo. Fico procurando o jeito da personagem falar.

Um personagem bem construído é capaz de segurar um texto ruim?

Sim. Já o contrário não pode ser. Há histórias que são sofríveis, mas a gente lembra de um livro banal somente por causa da personagem e nem sempre pelas histórias.

Entre tantas coisas importantes e necessárias em um texto literário, na sua produção, o que não pode deixar de existir?

Uma boa personagem. Sem a personagem o livro evapora. Sem ela, não há solução.

Nesse tempo de pandemia, de tantas mortes, qual o significado que a escrita literária tem?

Acho que, em primeiro lugar, escrever neste momento me parece, além de uma expressão artística, também algo meio terapêutico. É indiscutível que tem esse sentido, inclusive porque estamos falando de um tipo de literatura que está em moda, que é a autoficção. Se, no futuro, alguém pegar os textos que são produzidos agora, poderá compor um perfil psicológico das personagens, e dos autores, que resistiram à pandemia. Em relatos de pandemias anteriores, que eu li, deu para ver detalhes da crise sanitária da gripe espanhola, deu para observar questões filosóficas e existencialistas em epidemias de cólera. Questões sociais e religiosas. Mas esta pandemia em particular está permitindo que o narrador e o autor se apresentem como personagem dessa trama que a vida nos oferece hoje. A autoficção está muito presente na literatura que está sendo produzida agora. Nos relatos pessoais, nas crônicas, diários, poemas, enfim…

No Brasil, o ofício do escritor é tido quase com um passatempo por outras pessoas. Será que um dia essa realidade vai mudar? Existem respostas lógicas para esse questionamento eterno?

É exatamente isso, o tempo passa, as coisas mudam, mas muitas pessoas continuam achando que escrever é passatempo. Entre as coisas que faço estão as biografias. Dão um trabalho gigantesco. E muita gente ainda ousa dizer assim: minha vida dá um livro! Quanto você me pagaria para eu lhe autorizar a escrever a minha biografia? Outra situação curiosa é quando a vamos lançar uma livro. Há quem receba o convite e ache que, no evento, haverá distribuição gratuita.

A imaginação, o impulso, a invenção, a inquietação, a técnica. Como domar tudo isso?

É péssima a ideia de domá-los. Um escritor tem que deixar rolar. Às vezes acordo de madrugada para anotar uma ideia. E depois que anoto, vêm outras que eu nem imaginava. Se não fizer isso, a ideia vai embora e eu não lembro daquilo que gostaria de dizer. Acho que não devemos domar o primeiro impulso.

O inconsciente, o acaso, a dúvida…o que mais faz parte da rotina do criador?

Todas essas coisas. E mais o desejo, as frustrações, as alegrias, as tristezas, a angústia, as nossas escolhas, inclusive as sexuais.

O que difere um texto sofisticado de um texto medíocre?

O texto medíocre é escrito por alguém que não lê. Ou que lê pouco. A gente aprende com a leitura. Acho que, além da leitura constante, é preciso se exercitar. O texto medíocre, em geral, é feito sem os devidos cuidados. O sofisticado, porém, não é aquele cheio de palavras dicionárias. O autor não fica se escondendo por trás das palavras. Quem escreve tem que ser verdadeiro. Tem que se expor. Não pode ter medo das palavras. Senão o leitor percebe que aquilo é fake. Um texto sofisticado, para mim, é a medida toda.

O leitor torna-se cúmplice do escritor em qual momento?

Na hora que adquire o livro. Quando compra e vai ler. Se for uma ficção, de cara, ele firma um pacto com o autor. Diz assim: eu sei que as coisas que estão escritas nesse volume não são a realidade, e que você está me contando um conto, uma fábula para gente grande. Mas, para o jogo não perde a graça, vou fazer de conta que é uma verdade. A resposta do autor, no seu silêncio, é: tudo bem, quando eu estava escrevendo, eu o fiz da melhor forma para que esse relato se pareça com a vida.  Um finge que engana e o outro finge que é enganado.

O leitor ideal existe?

O leitor ideal é que aquele que lê o livro e o guarda na ala dos prediletos, na sua estante. Melhor ainda, é quando ele compartilha o livro com os amigos como se ele fosse de sua autoria.

O simples e o sofisticado podem (e devem) caminhar juntos?

Um dia eu vi, no Youtube, uns vídeos de Maria Bethânia cantando. Parecia que ela não estava fazendo esforço algum para emitir aquelas notas. Ela cantava, simplesmente, como se estivesse no banheiro de sua casa. Mas era tão sofisticada que a gente não percebia que, atrás daquilo, havia uma técnica fuderosa. Isso é a sofisticação.

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

Todos os livros de Albert Camus me marcaram profundamente. O Estrangeiro me fez pensar filosoficamente enquanto eu lia literatura. Aquela cena da praia, quando Meursault mata um homem por causa do sol, me deixou atordoado. Eu passei a me questionar, na minha juventude, através das diversas personagens de Camus. Ele, Camus, me tirou do meu conforto. Mas, eu não parava mais de ler os seus livros. Acho que li quase tudo de Camus. Outro livro que me deu uma porrada foi Crime e Castigo. O romance tem uma cor e dava para eu ver enquanto lia. Aquela cor escura, aquela penumbra do romance, me assustava, me seduzia.

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

Pedro Páramo, de Juan Rufo.

Qual a sua angústia criadora?

Eu fico muito ansioso quando estou escrevendo romances. Contos, nem tanto. Tenho medo de morrer antes de concretizar o textão. Então, anoto uma sequência de coisas que ocorrerão. Tipo assim: no capítulo cinco, a personagem vai sair de casa e se dirigir ao supermercado. O desejo dela, eu anoto, vai ser o de encontrar o amante. E por aí vai. Depois que faço esse “roteiro”, fico menos ansioso. O roteiro é tipo uma estratégia para driblar a morte. Posso até mudar o que vou dizer, mas a ideia original está ali. Também fico muito neurótico com a coisa da continuidade. Não posso deixar uma personagem, num  capítulo, deitada numa cama. E, na cena seguinte, sem nenhum explicação, reencontrá-la numa roda gigante. Então, eu vou lá no roteiro e escrevo: “não esquecer que ela ficou deitada na cama”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *