Livro de Samanta Schweblin reflete sobre a invasão de privacidade consentida

Crédito da foto: Alejandra López

Por Ney Anderson

Lendo a sinopse do novo romance da escritora argentina Samanta Schweblin, Kentukis, em bela edição da editora Fósforo, temos a impressão que a autora pegou um tema gasto para desenvolver uma trama. Essa primeira impressão negativa, entretanto, é um alerta falso. Você já imaginou o que aconteceria se fosse permitido às pessoas entrar na casa de desconhecidos e circular livremente por meio de um dispositivo tão adorável quanto um robô de pelúcia? Do que somos capazes quando guiados pelas regras incertas de um novo contrato social e sob a garantia do anonimato? Mas isso, de alguma forma, já não acontece com os smartphones que nos rastreiam com a nossa permissão?

No entanto, Samanta propõe um novo aspecto. O mundo atual já não consegue viver sem o uso da internet para a “convivência” com quem quer que seja, em qual parte do mundo for, mesmo que essa “pessoa” surja como um mero avatar. Nos últimos tempos, as redes sociais trouxeram para o mundo algo que ultrapassa a simples ideia de interação social. Parece que o real objetivo mesmo sempre foi, através desses diversos aplicativos de comunicação, observar e ser observado virtualmente. Voyeurs da vida alheia. Isso se tornou algo corriqueiro, normal e reforçado dia após dia.

Os realitys shows são o exemplo máximo desse voyeurismo. Mas se existem os benefícios com o advento das formas de interação social por meio da tecnologia, também há o lado negativo. A exposição pública diária através das redes tem causado nas pessoas, não por acaso, frustração, esgotamento físico e psicológico, por conta de algo muito potente chamado dependência. No romance, parece que cada pessoa adquire o kentuki por algo íntimo, quase para lutar contra formas distintas de solidão.

É justamente esse gatilho que faz com que as pessoas busquem os aparelhos como animais de estimação. Na outra ponta, quem controla os bichinhos experimenta outra vida, conseguem ir para qualquer lugar do mundo sem sair de casa, onde a liberdade em vigiar de forma anônima garanta diversas possibilidades. Usuários que se sentem melhor tendo duas vidas, do que apenas uma. Alguém que segue o “amo” quase como uma fã, onde eles são os guardiões desses ídolos.

Os kentukis (as pessoas que controlam as pelúcias) e os amos (os proprietários dos dispositivos) são ligados por uma espécie de cumplicidade, onde a interação mesmo entre eles é quase nenhuma. Embora quem controla o dispositivo veja (e saiba) quase tudo sobre a outra pessoa. Enquanto o amo tem apenas à sua frente um bicho que nada faz, além de ficar passeando pela residência e, claro, observando.

No desenrolar da trama, os aparelhos começam a ficar populares no mundo todo e passam a ser utilizados também com objetivos distintos e em lugares específicos, como em um lar de idosos, por exemplo. Mas a base do romance é o uso deles pelas pessoas que levam uma vida comum no dia a dia. O leitor acompanha a vida delas, os dilemas e muitos outros aspectos a partir do olhar dos dispositivos. Mas o outro lado também tem a sua parcela de conflitos bem trabalhada.

O tipo de experiência que pode oferecer cada conexão, os prós e os contras, serve para preencher também certos tipos de carência. Isso é algo bastante evidente no romance. Mas tudo acaba se diluindo no final das contas, porque ninguém (na ficção de Samanta) aguenta tanta invasão, mesmo que permitida. Ambos (usuários e amos) buscam, na verdade, atenção, sendo anônimos na vida um do outro. Não ser alguém tem os seus méritos e deméritos. E isso vai afetando de várias maneiras desses cúmplices do anonimato.

Afinal, como dissera Gloria no último telefonema, ou você se moderniza ou a vida te atropela.

Existe um estranhamento durante toda a leitura. Um incomodo, de fato. É algo que vai sendo compreendido aos poucos, quando já não é possível sair da atmosfera criada pela autora. Algo puxando para o suspense, em determinados momentos para o sombrio, tensões boas de acompanhar em várias ocasiões. Em cada capítulo, uma história diferente sendo destrinchada ao longo das páginas. Como o relacionamento entre o artista plástico Sven e Alina. A inclusão do dispositivo na intimidade dos dois começa a tomar rumos nunca antes pensados por eles. Ou então a história da senhorinha que resolve se tornar kentuki e acaba se apegando a jovem do outro lado da tela. Também o garoto que sonha em conhecer a neve e a única possibilidade é através da conexão com o dispositivo.

São textos aparentemente simples na forma, mas que revelam certa estranheza na utilização (ou relação) das pessoas com esses objetos. Obviamente, eles ocupam um espaço central nas narrativas, mas as histórias oferecem algo muito maior do que a relação bilateral entre humanos e tecnologia. O que a autora parece querer dizer a todo momento é: que tipo de modernidade é essa que transfere a ideia de vida em sociedade totalmente para os aparelhos? A interferência dos kentukis na sociedade e a discussão em torno do assunto entra no debate quando o uso desenfreado começa a desandar, não ir tão bem como o esperado. Pois um ambiente tão imersivo e interessante pode ser, em boa parte dos casos, bastante perigoso. A exemplo da mulher que tenta alertar a sua ama sobre o suposto perigo que a outra está correndo com o namorado. Ou a enorme invasão de privacidade na vida do garoto Enzo por conta do novo e perverso conceito de exposição.

Embora no fim das contas, se a gente não escolhe os pais que tem, nem os irmãos, nem os animais de estimação, por que então teria a liberdade de escolher de que lado de um kentuki estar? As pessoas pagavam para ser seguidas feito um cachorro o dia todo, queriam alguém real mendigando seus olhares.

Se pensarmos o livro da Samanta como uma reunião de histórias datadas, porque a tecnologia usada hoje é muito mais evoluída do que os bichinhos tecnológicos da autora, perdermos justamente a maravilha da ironia e da crítica social pesando a mão para a acidez corrosiva da invasão de privacidade permitida e consentida pela população. Colocar em cena bichos de pelúcia  eletrônicos que “apenas” observam, mas que deixam as pessoas praticamente dependentes dessa relação, é uma das grandes sacadas da obra. Afinal de contas, qual a graça em ser observado ou observar, pura e simplesmente? Essa é a jogada de mestre da autora, porque já não fazemos esse papel no dia a dia com os diversos aparelhos que nos rodeiam? Só que aqui fora, no mundo real, a diferença é que as pessoas parecem desconhecer isso, embora seja muito claro e evidente.

Mas será que se soubéssemos que do outro lado existisse, literalmente, alguém nos observando, gostaríamos e permitiríamos? A relação da maioria das pessoas com as redes sociais responde a essa dúvida. Observar, ser observado, ser visto, faz parte do estranho jogo da contemporaneidade. Mesmo com as consequências perigosas. Samanta Schweblin mostra exemplarmente que sempre se busca uma companhia para preencher os nossos mais profundos vazios, mesmo que para isso a nossa privacidade seja exposta, permitida e estimulada, sem medo dos prejuízos que isso possa ocasionar.

“E as notícias sobre kentukis, isso era outra coisa que interessava a Mister. Agora mesmo nas notícias de Umbertide uma repórter informava na frente do hospital estatal: uma senhora idosa tivera uma parada cardíaca e seu kentuki coruja tinha salvado a vida dela ligando para a emergência. Em agradecimento, a mulher pediu sua conta bancária e lhe depositou dez mil euros, mas então o kentuki desaparecera, e não estava ali para o segundo ataque cardíaco da mulher, que a pôs definitivamente no outro mundo. “O kentuki tem uma parcela da responsabilidade?” — perguntou a repórter para a câmera. “E se tivesse, que tipo de ações legais poderiam ser aplicadas a esses novos cidadãos anônimos?” Uma breve mesa de debate se abriu no estúdio, onde uma pessoa que tinha um kentuki em seu consultório de Florença contou um caso médico diferente, e outra, que era kentuki na recepção de um hotel em Mumbai, apresentava seus próprios dilemas. Diante da tevê, a toupeira permanecia imóvel.”

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