Natalia Timerman: “escrevemos o que somos, e somos o que lemos”

Crédito: Mariana Vieira

Por Ney Anderson

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

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Natalia Timerman é escritora, médica psiquiatra pela Unifesp, mestre em psicologia e doutoranda em literatura pela Usp. É autora de Desterros – histórias de um hospital-prisão (Elefante, 2017), acerca de seu trabalho de oito anos no Centro Hospitalar do Sistema Penitenciário, da coletânea de contos Rachaduras (Quelônio, 2019), finalista do Prêmio Jabuti, e do romance Copo Vazio (Todavia, 2021).

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O que é literatura?

Minha casa.

O que é escrever ficção?

Construir um lugar narrativo.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Sim, no sentido arendtiano de ação.

Você escreve para oferecer o quê ao mundo?

A mim mesma.

O que pretende tocar com a palavra literária, com a ficção?

O lugar onde o outro sou eu.

Um mundo forjado em palavras. Se o tempo atual pudesse ser resumido no título de um livro, seja ele hipotético ou não, qual seria?

Não verás país nenhum.

A incompletude faz parte do trabalho do ficcionista? No sentido de que nunca determinado conto, novela ou romance, estará totalmente finalizado?

Crédito: Mariana Vieira

Eu diria que não a incompletude, mas a insuficiência.

Qual o pacto que deve ser feito entre o escritor e a história que ele está escrevendo?

A história deve ser capaz de romper qualquer pacto que o escritor proponha.

O que pode determinar, do ponto de vista criativo, o êxito e o fracasso de uma obra literária?

Determinar é uma palavra forte demais para isso, mas eu acho que a multiplicidade de espaços que convidem à cada leitura completar.

Como surgiu em você o primeiro impulso criativo?

Está mais longe do que minha lembrança pode alcançar.

As suas leituras acontecem a partir de quais interesses?

Vários: o momento, as defasagens, as necessidades que me imponho.

Escrever e ler são partes indissociáveis do mesmo processo de criação. Como equilibrar o desejo de ler com o de escrever?

Na escrita e na leitura, não há equilíbrio possível, a menos no momento em que se está lendo ou escrevendo.

Um escritor é escritor 24 horas por dia? É, ao mesmo tempo, uma benção e uma maldição?

Sim, um escritor é escritor 24 horas por dia. É uma maldição, mas da qual não abrimos mão, como se fosse uma benção.

O crítico Harold Bloom falava sobre o fantasma da influência. Você lida bem com isso?

Escrevemos o que somos, e somos o que lemos.

O escritor sempre está tentando escrever a obra perfeita?

Um romance precisa dizer da imperfeição para tentar ser perfeito.

Como Flaubert disse certa vez, escrever é uma maneira de viver?

Sim.

Quando você chega na conclusão de que alcançou o objetivo na escrita (na conclusão) da sua história? 

Quando sinto que não tenho mais o que dar para o livro.

A literatura precisa do caos para existir?

O que não precisa?

O escritor é um eterno inconformado com a vida?

Talvez seja.

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

Nós somos os outros de nós mesmos. Só que jamais, jamais, jamais. Prefácio cortado de A maçã no escuro, de Clarice Lispector, que aparece na correspondência com Fernando Sabino.

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

Madame Bovary.

Qual a sua angústia criadora?

O tempo.

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