Paulo Scott: “a escrita, para mim, é um processo contínuo, um fazer que me define”

Por Ney Anderson

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

 

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Paulo Scott autor de sete livros de poesia – os mais recentes são Se o mundo é redondo e outros poemas (Lisboa: Gato Bravo, 2020), Garopaba Monstro Tubarão (São Paulo: Selo Demônio Negro, 2019) e Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo (São Paulo: Companhia das Letras, 2014) – e seis de prosa – o mais recente é o romance Marrom e Amarelo (São Paulo: Alfaguara, 2019). Seus trabalhos estão publicados em Portugal, Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha, Croácia, México, China, França e Argentina.

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O que é literatura?

Escrita e leitura. Um processo que depende de um encontro, da generosidade da conexão.

O que é escrever ficção?

Contar boas histórias.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

A opção pela escrita é um ato político. Por ser registro, vontade de comunicar, de chegar a si, no que diz respeito ao existir, e às outras pessoas. Escrever, em si, por si, é a penas a ação escrever.

Para além do aspecto do ofício, a literatura, de forma geral, representa o quê para você?

 Aproximar-me do humano e me tornar mais humano.

O escritor é aquela pessoa que vê o mundo por ângulos diferentes. Mesmo criando, por vezes, com base no real, é outra coisa que surge na escrita ficcional. A ficção, então, pode ser entendida com uma extensão da realidade? Um mundo paralelo?

A ficção é a invenção da realidade por meio de uma verdade que seria impossível na apreensão imediata do que se deixa reconhecer como a possibilidade do real.

O que mais te empolga no momento da escrita? A criação de personagens, diálogos, cenas, cenários, narradores etc.?

A escrita, para mim, é um processo contínuo, um fazer que me define. Não consigo ver um sentimento de empolgação nessa escolha, mas confirmação de significados de que depende a justificativa da minha existência.

Um personagem bem construído é capaz de segurar um texto ruim?

Com certeza. Basta que haja o mínimo de inteligência no momento da leitura. De alguma sensibilidade também.

Nesse tempo de pandemia, de tantas mortes, qual o significado que a escrita literária tem?

Impossível responder isso neste momento. Tudo dependerá da leitura que virá depois que tudo isso passar ou se atenuar.

No Brasil, o ofício do escritor é tido quase com um passatempo por outras pessoas. Será que um dia essa realidade vai mudar? Existem respostas lógicas para esse questionamento eterno?

Nunca vi a literatura como um passatempo e nunca a tratei como algo a encaixar no tempo que sobra. Ela é prioridade. Isso é parte do que organiza, digamos, sem a opção de atalhos, a minha caminhada. Nem me passam pela cabeça esses questionamentos.

A imaginação, o impulso, a invenção, a inquietação, a técnica. Como domar tudo isso?

Para que domar?

O inconsciente, o acaso, a dúvida…o que mais faz parte da rotina do criador?

O se desconhecer e o peso da insignificância.

O que difere um texto sofisticado de um texto medíocre?

Não existe texto medíocre.

O leitor torna-se cúmplice do escritor em qual momento?

O leitor é o escritor.

O simples e o sofisticado podem (e devem) caminhar juntos?

O simples, a simplicidade, é o topo da montanha. A maioria esmagadora de nós (não me excluo) envolvidos com a literatura jamais entenderá o simples, jamais chegará ao simples. O sofisticado é o descartável, qualquer pessoa, com alguma sorte, está apta a trabalhá-lo. Acho que, eventualmente, os dois propósitos (ou expressões) podem estar juntos. A caminhada admite muitas sortes.

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

“A náusea”, do Sartre.

Qual a sua angústia criadora?

A que, entre tantas, um dia, me disse: goste ou não, eu serei tua amiga.

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