Crédito: Editoranos

Por Ney Anderson

Em Pequena coreografia do adeus, romance de Aline Bei, Júlia Terra desde cedo tenta juntar os cacos de uma convivência destroçada com os pais, por conta do relacionamento conturbado entre eles, já separados há algum tempo, mas cheios de arrependimentos por terem se encontrado na vida. A mãe não suporta o fato de ter sido abandonada. Já o pai não suporta a ideia de ter sido casado. E no meio desse turbilhão está a pequena Júlia necessitando da única coisa que lhe importa: o afeto deles dois. Mas, claro, isso é algo que ela não tem. E é desse escombro afetivo que a menina vai sendo feita e transformada, crescendo a partir desta potente sombra.

Júlia mora com a mãe e o relacionamento com ela é totalmente caótico. Mesmo assim, a jovem tem olhar cheio de poesia baseado na dor da que a outra sente, por viver também cercada pela penumbra do desamparo. Crescer no ambiente tão fragmentado como aquele, tentando entender a mãe da melhor forma possível, cobra o seu preço.

Sem o afeto dos pais, o mundo para Júlia passa a ser de descobertas solitárias, através da visão infantil das coisas no primeiro momento, que vai amadurecendo aos poucos. É um exercício da busca por sentido, com a curiosa incomunicabilidade com a mãe ditando o silêncio. Algo nunca bate totalmente entre as duas, pois elas são antagonistas, embora feitas do mesmo fragmento da existência. Mas a relação delas duas se aproxima na medida do possível de um certo afeto, onde mãe e filha parecem, enfim, se encontrar.

Júlia vai entendendo a mãe, tendo novas percepções sobre o que a outra sofreu, principalmente compreendendo o passado das mulheres da família sob o prisma do abandono. Mas a menina também tenta compreender o pai, com o qual ela convive rotineiramente, em ocasiões escassas.

O homem, inclusive, parece querer (igual a ela) se descobrir e reinventar, se dedicando a fazer esculturas de argila. São as peças produzidas por ele, aliás, a lembrança física deste “novo” pai, do que ele tentou se transformar. A morte do pai deixa a lição de que podemos morrer a qualquer instante, ela pensa. Enquanto que a memória, justamente ela, vai perdendo o vigor na mãe tempos depois.

É nessa parte do livro que descobre a dança. O balé vira não apenas refúgio, mas ponto de passagem para um outro lugar, com ela percebendo aspectos muito íntimos em si. Abalando o seu mundo interior e entregando a explosão da dança ao leitor. A dança das palavras.

No capítulo seguinte, intitulado “Terra”, a protagonista já é a ruptura da menina dando passagem para a jovem mulher. Se transforma em outra Júlia. São passagens lindas e tristes. É solitária ao modo dela. O vazio, a falta de cumplicidade que sofreu em casa, é muito forte para a percepção de vida que a protagonista tem mesmo na fase adulta. Ela é esse vazio (coração perdido), preenchido por diversas coisas.

“deu vontade

de dizer que: uma conversa em família

nunca foi possível, não na minha casa

lá somos três solitários

irreversíveis

gravemente feridos

da guerra que travamos contra nós”.

Toda história do romance se dá num campo afetivo silenciado, incômodo, estilhaçado. O livro todo tem musicalidade, dança suspensa no abstrato (mesmo ela não sendo mais do balé). Sempre o não-dito, dentro de um não-lugar de uma mulher submersa. Aqui, na segunda parte, Júlia se mantém através do trabalho na cafeteria. É lá, na rotina diária no serviço, que ela se descobre escritora. Tem o impulso criativo e começa a escrever uma história com jeito policial.

Ela, mais uma vez, se transmuta com as marcas invisíveis do passado respingando nos novos relacionamentos, principalmente os amorosos. Júlia é um tanto quanto sonhadora, buscando por algo novo que a vida tem a oferecer, mesmo sendo alguém traumatizada. Ela sabe que a vida, ainda que seja a sua maior ruína, é também a sua única salvação, e por isso só lhe resta seguir

Pequena coreografia do adeus tem uma prosa poética muito visual. O efeito que Aline consegue causar é impressionante, mais uma vez. A autora trabalha a poesia, o ritmo poético, de uma forma original, algo já feito com louvor por ela n’O Peso do pássaro morto. Mas aqui ela elabora ainda mais a técnica para mostrar, por vezes graficamente, o que a protagonista sente, com letras pequenas e grandes, soltas ao longo da página. Espécies de sussurros das emoções.

As palavras de Aline bei estão em um barco. Às vezes à deriva, noutras, com o leme ditando o ritmo pausadamente, mas com a força da natureza e toda a sua imprevisibilidade ditando o percurso da viagem. É um livro sobre a solidão. Passear por essas páginas é como atravessar o rio, ora calmo, ora agitado, sempre carregado do imponderável.

Impossível não se sentir tocado pela força que emana das letras dançantes de Aline Bei na Pequena coreografia do adeus. A poesia das suas palavras também são música atravessando os sentidos, fazendo do mínimo instante um eterno balé dos sentimentos. São palavras à deriva na longa busca por afeto.

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